Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]
A Crest e a Oral B, duas marcas de produtos de higiene oral, fizeram este grande anúncio para o Halloween. E o anúncio não só tem imensa graça como estou profundamente de acordo com a filosofia subjacente - por vezes, à custa de se quererem miúdos tão saudáveis, acaba por se perder algumas das melhores coisas da vida. Como os bons e velhos doces e chocolates. Ora vejam:
Mais truques de Richard Wiseman para animar um fim-de-semana com crianças.
Ontem fui à cozinha apanhar uma peça de fruta quando de repente...
...e pensei para com os meus botões: mas o que é isto? A maçã tem bicho?
Não, a maçã não tem bicho. Ou melhor: foi vítima das favolas do bicho Ritinha, que está a desenvolver dentes a uma velocidade impressionante e mal vê uma peça de fruta lhe enfia imediatamente uma trinca.
Do alto dos seus quase 14 meses, não há nada que amedronte o poderoso marfim da minha filha mais nova - e tenho provas disso.
Era uma vez um touro e uma águia que foram à floresta brincar. Mas ao fim da tarde quando já estava de noite tiveram de dormir lá.
Mas os omanos [NR: humanos] rapetaram [NR: raptaram] o touro mas a águia incontrolos [NR: encontrou-os] e fes [NR: fez] cocó insima [NR: em cima] dos omanos [NR: humanos] e picouos [NR: picou-os] com as garas [NR: garras].
Fim
Os factos são estes: ontem à tarde houve reunião na escola do Tomás, que por sua vez tinha estado nessa manhã a realizar uma composição livre. O resultado desse momento de notável criação foi aquele que podem verificar em cima e que acabei de transcrever.
Os erros de ortografia ainda são como o outro, porque ele está no início da segunda classe e decidiu usar palavras demasiado caras para os seus conhecimentos actuais de língua portuguesa (além de que, até ver, o Tomás é mais contas). O que eu estive a discutir seriamente com ele foi a questão da temática da sua composição, e o momento escatológico final.
Depois dessa conversa, ficou a promessa de que ninguém (bicho ou omano) voltaria a fazer cocó em cima de quem quer que fosse. Mas provavelmente a culpa não é dele. Eu é que lhe li este livros vezes de mais quando era pequeno:
Há algum tempo que eu queria falar do A Beautiful Body Project, depois de ter visto esta notícia no Público:
O projecto "A Beautiful Body Project" começa com [esta] imagem, feita num estúdio em Tucson, no estado norte-americano do Arizona, a fotógrafa Jade Beall aponta a objectiva para a barriga de uma amiga. É um ventre flácido, amorosamente abraçado por duas crianças. Quando publicada nas redes sociais, a fotografia atraiu a atenção de "centenas de milhares de mulheres que também estavam dispostas a partilhar as histórias de vida dos seus corpos", lê-se na página oficial do projecto. Foram tantos os e-mails que Jade recebeu que se tornou óbvia a decisão de transformar a ideia num livro. Assim nasceu o "A Beautiful Body Book Project", uma série de livros cujo primeiro volume, dedicado à maternidade, já está disponível para encomenda. O objectivo? "Este projecto pretende redefinir o que é bonito. Os nossos corpos. Nós próprias. O nosso mundo. As nossas famílias. Nós somos bonitas." A.A.S.
Quando vamos ao site e vemos as fotografias, nem todas são igualmente interessantes, e por vezes não é fácil, tanto em termos estéticos como éticos, encontrar a linha que separa a celebração da maternidade - que a foto de cima tão extraordinariamente homenageia, na minha opinião - e a exibição gratuita da decadência de um corpo.
Mas, ainda assim, esta ideia que preside ao projecto, de contar a história de corpos femininos que ostentam as marcas da maternidade e os efeitos que a gestação de uma vida invariavelmente provoca, parece-me profundamente bela. E, sobretudo, tem a coragem de ir contra a obsessão da perfeição corporal que domina todo o espaço mediático.
Não me entendam mal: eu festejo efusivamente o facto de hoje em dia cada vez mais mães terem cuidado com os seus corpos, tal como festejo o facto de o infantários dos mais pequenos e a escola dos maiores estarem cheios de mães super-boas, mesmo arrastando pela mão uma carrada de filhos. Isso é, sem dúvida, um ganho indiscutível para a saúde sexual do planeta.
Mas mesmo numa mulher que volta a ser magra, as marcas da maternidade na maior parte das vezes ficam lá: nas estrias, nas varizes, na barriguinha que permanece, no peito que cai, na cicatriz de uma cesariana. E são estas marcas, que em vez de serem causa de tristeza para as mulheres (e para os homens) num mundo obcecado por Barbies, devem ser um profundo motivo de orgulho - elas são, afinal, os vestígios de uma vida vivida e de uma vida gerada; são traços da nossa passagem pelo planeta, são outras linhas da vida, como as das palmas das nossas mãos.
É possível que quem olhe de fora para o corpo de uma mulher que foi mãe possa dizer "ela já foi mais bonita". Mas eu gosto de olhar para estas fotos e para o corpo destas mulheres e imaginar um caminho percorrido a dois, e depois a três, e depois a quatro, e depois a cinco, e depois (como no meu caso) a seis. E o corpo destas mulheres - tal como o meu corpo, já agora -, são um reflexo dessa estrada - cada pisadela, cada estria, cada cicatriz não são imperfeições. São um mapa de afectos, inabaláveis provas físicas de que chegámos até aqui. E - sobretudo - de que valeu muito a pena.
Cá em Portugal não temos a tradição de andar à noite pelas ruas a bater de porta em porta, como os americanos no Halloween. Mas nem por isso esta ideia deixa de ser incrível. Quero um fato destes para o Gui e para a Rita:
Andava eu para aqui a fazer sugestões sobre o uso duvidoso de trelas em crianças, quando de repente descubro este vídeo na net. Confesso que fiquei sem palavras.
A miúda do vídeo é uma sueca de dez anos chamada Anna Salander, e como alguns leitores com certeza notarão, partilha o seu apelido com a protagonista da trilogia Millennium de Stieg Larsson. Mas se Lisbeth Salander já era uma moça bastante bizarra, o que dizer de Anna?
E o mais estranho não é tanto ela fazer aquilo, mas sim os seus pais terem algum dia achado que se calhar até era uma ideia gira - "ah, ah, ah, que porreiro, a nossa filha imita um cavalo e até salta obstáculos de 1,10 metros!". Eis um caso em que umas palmadas teriam dado muito jeito. No rabo dos pais, claro.
A propósito do meu post sobre as pulseirinhas, a Paula comentou o seguinte:
Não mentir NUNCA aos filhos é um excelente princípio.
Mesmo que obrigue a andar com pulseirinhas ridículas...
Sim, é verdade. Não podia estar mais de acordo. Todos nós temos algum tipo de fundamentalismo, e o meu é este: nunca mentir às crianças (na verdade, nem às crianças, nem aos adultos, mas isso é tema para outra conversa). Nunca me dei mal com este princípio, nunca me arrependi, a fama de desbocado só me tem dado alegrias, e - cereja em cima do bolo - facilita brutalmente a nossa vida, porque nunca somos apanhados na curva nem somos obrigados a rotações impróprias da espinha.
Claro que em relação às crianças não é um fundamentalismo completamente fundamentalista. De outro modo teria de os informar aos dois anos de idade que o Pai Natal não existe. O lado onírico, sonhador e imaginativo está sempre bem activo, e quando se está em modo brincadeira é perfeitamente possível - e até aconselhável - aldrabar o máximo que se puder. Mas apenas - e só - em modo de brincadeira. Quando o tom muda para sério, a mentira deixa de ser permitida. Já lhes disse várias vezes: "Só há uma coisa pior do que portarem-se mal: mentir."
Eu levo isto tão a peito que no infantário faço sempre questão de me despedir da Ritinha e dizer que me vou embora, mesmo que as pobres professoras e auxiliares fiquem depois com a criança a chorar ao colo. Nos primeiros dias é sempre uma chatice, porque ela ainda não conhece o ambiente e detesta sair do colo do pai. Daí que a maior parte das pais (e educadoras, já agora) prefira virar costas, distrair as crianças, dizer "olha ali aquele brinquedo", enquanto a mamã ou o papá se pisgam a grande velocidade. Eu não: prefiro que a Rita chore mas veja o meu adeus. Ao fim de algum tempo ela percebe que eu parto mas depois volto, e a partir daí deixá-la na sala passa a ser uma actividade bastante pacífica.
Utilizei essa táctica com todos os meus filhos e resultou. Aquela coisa de dizer aos putos "a mamã vai só ali e já volta" não me entra na cabeça. Graças ao fundamentalismo do "não mentir", o que acontece é que as crianças confiam em mim, e sabem que cumpro aquilo a que me comprometo. Isso pode causar-lhes, no início, alguma tristeza e algumas frustrações quando lhes digo na cara "sorry, não dá, desta vez o papá não vai poder" fazer isto ou aquilo. Mas, feitas as contas, acredito - e, mais do que acreditar, tenho provas - que isso lhes dá uma imensa segurança.