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Estava no quarto muito entretido a ver um filme de João César Monteiro dos anos 70, Que Farei Eu Com Esta Espada?, filmado a preto e branco, quando o Gui entra e põe-se a olhar muito espantado para o ecrã.
- Porque é que aquilo está cinzento?
Hum... acho que o vou pôr a dieta de Chaplin na próxima semana. O rapaz está claramente a padecer de um défice de cinefilia.
Tinha prometido no final deste post falar sobre um daqueles temas que assaltam permanentemente o meu dia-a-dia e que compõem uma das minhas preocupações mais recorrentes: saber discernir que sacrifícios um pai e uma mãe devem fazer pelos seus filhos. Não me refiro, como é óbvio, a largar o emprego a correr porque um dos miúdos partiu o nariz na escola, nem daquilo que são as preocupações mais básicas de um progenitor. Com esse género de dever podemos todos bem, porque tem de ser, e o que tem de ser tem muita força. O que me interessa discutir são os momentos de lazer, em que não há propriamente um dever, mas sim a necessidade de optar entre aquilo que mais me apetece fazer (a mim) e aquilo que mais lhes apetece fazer (a eles).
Encontrar um equilíbrio entre uma coisa e outra nem sempre é fácil, e a visita à Aldeia Natal de Óbidos é um bom exemplo. Para estas coisas eu vou a maior parte das vezes arrastado pela Teresa, mesmo quando não me apetece nem um bocadinho. Todos nós conhecemos os poderes de super-persuasão femininos, e aquela técnica de ir insistindo, insistindo, insistindo, até ao ponto em que um gajo se rende e diz "pronto, está bem, eu vou, não batas mais". O problema das idas contrariadas é que, quando as coisas não são tão giras quanto ela previa e são tão chatas quanto eu supusera, o "sim" tirado a ferros torna-se contraproducente: em vez de se passar um bom dia em família, está-se para ali a penar, a resmungar e a sonhar com torturas várias a Pai Natal e respectivos duendes.
Boa parte dos nossos conflitos familiares vem precisamente das diferentes sensibilidades à dosagem dessa entrega. Para a Teresa, as contas são sempre muito simples: aquilo que faz mais feliz os miúdos é aquilo que se faz ao fim-de-semana. Mas eu sou um rapaz bem mais egoísta do que a excelentíssima esposa, e resisto permanentemente a que todos os meus dias de alegado descanso sejam terraplanados por actividades para menores de 12 anos. Na verdade, invejo-a bastante, porque ela consegue extrair com a maior facilidade a sua felicidade da felicidade deles. Eu não. Eu sou dado a solipsismos, preciso muito de tempo para mim, e o prazer deles nem sempre compensa o meu desprazer. E quando não compensa, falho como pai: impaciento-me, irrito-me, sou um chato.
Daí que só haja dois caminhos para aperfeiçoar os meus dotes paternos: ou conseguir retirar mais prazer de certas investidas familiares (incluindo a aldeias natalícias fajutas) ou apurar o tal discernimento sacrificial, sabendo ser ao mesmo tempo generoso para não ficar demasiadas vezes fechado na minha concha, e lúcido para não dizer que sim a tudo. Numa sociedade pejada de problemas de consciência, onde os pais nunca se dedicaram tanto aos filhos mas sentem ainda assim que se dedicam muito pouco, aquele equilíbrio é, para mim, uma espécie de pedra filosofal - muito desejada, sempre procurada, mas dificílima de encontrar.
Já que eu tenho estado a trazer para aqui as pequenas delinquências domésticas da minha filha mais nova, tomem lá mais esta:
Pois é, eu passo os meus fins de tarde a gritar com os três irmãos mais velhos da Rita: "FECHEM AS PORTAS DOS QUARTOS E DAS CASAS DE BANHO! QUANTAS VEZES JÁ VOS DISSE ISTO?"
É que basta uma pequena frincha, um espacinho onde ela enfiar o dedo, e esta espécie de ninja entra para dentro de divisões sem ninguém dar conta, deixando atrás de si invariavelmente, tal qual Napoleão, um rasto de caos e destruição. E quando digo "ninguém dar conta" é exactamente isso que quero dizer: eu tive de abrir a luz para tirar a fotografia, mas a Rita estava lá dentro às escuras.
Não sei se ela tem olhos de gato, mas sei de ciência certa que não tem qualquer medo do escuro. Enquanto os irmãos tremem só de pensarem em ficar fechados num quarto com as luzes apagadas, a ninja Rita ainda não foi apresentada aos sustos da escuridão. Ela está-se bem nas tintas para as invenções do senhor Edison.
Ainda por cima, como consegue cheirar rolos de papel higiénico para desenrolar a vários metros de distância, basta um pequeno momento de distracção e as acções da Renova começam logo a subir. Quando, oito metros de folha dupla mais tarde, a Rita é finalmente apanhada, vocês já sabem como é: ela ri-se muito, com aquele ar de "sei perfeitamente que estou a fazer asneira, mas faço na mesma - não é giro?". Não, não é giro.
É fresca, a nossa Rita.
Um senhor chamado Nick Radford encontrou perdido na mata e à beira de morrer de frio um esquilo bebé.
Embrulhou-o no seu casaco e resolveu levá-lo para casa.
Aparentemente, o homem percebia de esquilos, porque conseguiu arranjar-lhe um ninho à maneira num dos lavatórios da casa.
Eu ia jurar que aquela coisa redonda foi feita para pássaros, mas o mini-esquilo adorou a cama.
E o Nick, ainda por cima, sabia o que ele devia comer (será leite?).
Esta é a parte em que entram os cães, porque como se sabe hoje em dia os cães perseguem-me como uma sombra.
E os cães, como se vê, apreciaram genuinamente o esquilo bebé, e aceitaram que ele fizesse parte da família.
À falta de árvores, o esquilo aprendeu rapidamente a trepar cães.
E pronto, esta foto final é absolutamente incrível. Um cão e um mini-esquilo a navegar na internet. Hollywood bem se esforça, mas a realidade ultrapassa sempre a ficção.
E ainda há quem diga que o mundo não é um lugar fixe. Mostrem isto aos vossos filhos: eles irão adorar.
Nós há quatro anos tínhamos ido a Óbidos, Vila Natal, e este ano a Teresa lá me convenceu a regressar com os miúdos, apesar de eu ser um bocado agorafóbico. Não é que eu tenha medo de multidões, mas sinto-me sempre um bocado ovelha a caminho do matadouro quando o encontrão se torna uma forma de locomoção. Tenho um genuíno ódio por filas e irrita-me imenso andar na rua como se estivesse nos corredores do Colombo no dia 23 de Dezembro.
E claro, como seria de esperar, a vila estava cheia que nem um ovo, e o espírito natalício concentrava-se todo nos barretes de Pai Natal. De resto, só havia confusão, carrinhos de bebé a chocar com carrinhos de bebé, gente a furar filas e uma exploração comercial ao nível do tratamento que Pedro Passos Coelho tem dado aos reformados.
A entrada até cumpria bons princípios, já que os membros da Associação de Famílias Numerosas tinham direito a preço único indepentemente do número de filhos, coisa raríssima nesta terra:

Mas ao contrário do que é normal nestas coisas, em que se paga um preço relativamente alto de entrada mas lá dentro a maior parte das diversões são à borla, ali continuava-se a largar dinheiro em quase todo o lado: quatro euros para andar 20 minutos de patins, um euro para trepar a uma parede, um euro para andar num carrossel fajuto, e por aí fora. Para quem tem de abrir sempre a bolsa a triplicar, podem imaginar o impacto da visita no orçamento familiar.
Mas há mais. Para animar a tarde, a SIC resolveu fazer de lá o directo do programa Portugal em Festa, o que significa que em cima de tudo isto ainda levei com música pimba, camaramen que acham que o mundo é só deles e algumas atracções encerradas por causa da logística da coisa. Foi a cereja em cima do bolo.
Não, esperem, a cereja em cima do bolo foi a visita à casa do Pai Natal, para a qual havia uma fila para aí de três quartos de hora (número optimista). Melhor (ou pior): essa fila tinha mais adultos do que crianças. Eu olhava para os meus vizinhos da frente e pensava: "what the fuck, o que é que está aqui a fazer uma família de quatro marmanjos em que o mais novo tem para aí 22 anos? Vai sentar-se ao colo do Pai Natal?"
O que é certo é que eles nunca arredaram pé, e após uma penosa e interminável espera lá se abriu uma porta, e um grupo de meia centena de almas lá se encaixou que nem sardinha em lata dentro de uma casinha onde estava o Pai Natal e dois duendes a perguntarem às crianças que prendas gostariam de receber no dia 25.
E pronto, estivemos lá dentro um quarto de hora após 45 minutos ao frio, para que um tipo de barbas brancas pudesse perguntar aos meus três filhos: "Então e que prenda queres receber no Natal?" Giro, hein? Ainda para mais, o raio do Pai Natal precisava de apurar no disfarce, porque o Gui saiu de lá a perguntar:
- Aquele senhor era mesmo o Pai Natal?
- Porque é que perguntas isso, Gui?
- Eu vi um bocado de bigode preto por baixo da barba branca.
Aaaargh! Óbidos continua um lugar encantador, mas precisa de caprichar um bocadinho mais no Natal e um bocadinho menos no assalto à carteira do visitante. Moral da história: se o Pai Natal me tivesse perguntado que prenda eu queria no sapatinho, ter-lhe-ia respondido isto: quero o discernimento necessário para decidir exactamente que sacrifícios um pai deve fazer pelos seus filhos. É que o excesso de voluntarismo pode ser altamente contraproducente, como ontem se provou - eu às tantas já estava capaz de matar a primeira rena que se cruzasse comigo no caminho.
Bem vistas as coisas, isto até é boa matéria para um próximo post, que fica desde já prometido.
E sabem o melhor? Pouco depois da senhora Rita ter feito aquilo, fui dar com ela assim, mesmo ao lado da prateleira onde se deu o trágico acidente - deitadinha e de pernas para o ar. Reparem no estilo. Apreciem a pose. Há miúdos que fazem asneiras. A Rita é mais sofisticada - ela aprecia as asneiras que faz. Naughty e cool ao mesmo tempo. Tem futuro.
Claro que foi a Rita, minhas senhoras e meus senhores. Mas não só a Rita. Digamos que a Rita foi a autora material, mas a autora moral foi mesmo a excelentíssima esposa. Não se pode dizer que aquilo que aconteceu tenha sido propriamente uma surpresa, tendo em conta que eu - dotado de incríveis capacidades divinatórias - já o havia previsto aqui, quando referi, a propósito de uma certa casinha, "se a Rita lhe deita a mão chama-lhe um figo".
Na verdade, o figo acabou por não ser a casinha, mas a linda escultura branca ao seu lado. Esta é mesmo a última foto que foi tirada à vítima antes do seu homicídio violento às mãos de uma criança de 15 meses, que a empurrou sem piedade de uma prateleira a meio metro de altura.
Mas sabem porque é que a autora moral tem mais culpas no cartório do que a autora material? Porque aqui o excelentíssimo esposo, no dia anterior ao crime, tinha prudentemente tirado daquela prateleira toda a decoração que podem ver na foto, após detectar certas movimentações altamente suspeitas da futura criminosa.
Infelizmente, como tratei de amontoar os bibelôs na prateleira de cima sem grande equilíbrio estético (há que admiti-lo), a excelentíssima esposa achou que, diante daquela salganhada, era preferível enfrentar os perigos ritinhescos a bem da decoração natalícia - e voltou a pôr tudo no lugar de sempre. Até que a tragédia - obviamente - se consumou.
Ó minhas senhoras, mas porque é que vocês não dão mais ouvidos aos vossos queridos, sábios e prudentes maridos? Perante o trágico acontecimento, a Teresa argumentou, dada a ausência de álibis plausíveis, que conhece pais que nunca mudaram nada do sítio nas suas casas e que os seus bebés aprenderam a não mexer com um dedo no que quer que fossse.
Bom, eu já tive mais ou menos essa discussão a propósito das palmadas. Se há pais que conseguem, acho fabuloso. Invejo-os muito. Gostava de aprender com elas. Mas tendo em conta que não sei como se faz essa coisa de amestrar uma criança só com os olhos e torná-la tão bem educada como a rainha de Inglaterra, não vou esperar que tudo corra pelo melhor quando a experiência me diz que há altíssimas probabilidades de correr pelo pior. Chama-se - lá está - prudência.
A propósito da morte de Nelson Mandela, vale a pena recordar este post da Teresa publicado em Janeiro deste ano.