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Miley e o sexo #2

por João Miguel Tavares, em 18.06.14

Depois do ponto prévio, vamos então responder às objecções da Diana Figueiredo, já que ela levanta questões interessantes sobre a forma como falamos sobre sexo com as crianças. Apresento primeiro os seus argumentos, que constam do seu primeiro e do seu último parágrafo, e respondo logo a seguir.

 

Acho incrível toda a gente ficar chocadíssima com tudo o que tenha a ver com sexo, ou outras expressões de amor menos convencionais, ou mesmo expressões de puro prazer. Se na televisão mostrarem dois homens a dar um beijo na boca é um escândalo e tapam os olhos às criancinhas; se mostrarem o resultado de um carro armadilhado com pessoas ensanguentadas e outras desesperadas com os filhos mortos ao colo, será que tapam os olhos às criancinhas? Eu tapo.

 

A questão que a Diana aqui levanta, sobretudo na parte final, tem a ver com desquilíbrio entre as exibições de sexo e de violência, que embora seja um problema que vale a pena ser discutido, diria que é mais uma importação americana do que propriamente uma questão portuguesa. Ou seja, na puritana América é possível que um filme com mais pinanço do que o habitual possa receber a classificação de NC-17 (ninguém com menos de 18 anos pode assistir ao filme, o que nos EUA significa imediatamente uma limitadíssima exibição comercial, já que numerosas cadeias não aceitam filmes para além de R), enquanto um filme com muito tiroteio, muito sangue ou muita violência psicológica passa facilmente com um R (o que significa que gente com menos de 18 anos pode assistir desde que acompanhada por um adulto).

 

A história das classificações da MPAA é fascinante, complexa e contraditória, mas não vale a pena estar a abordar isso aqui, ainda que muito patrioticamente o NC-17 tenha sido atribuído pela primeira vez a um filme onde é Maria de Medeiros que passa a maior parte do tempo nua (Henry & June, de Philip Kaufman). Mesmo a questão da violência tem várias subtilezas, porque muitas vezes a mera exibição de sangue e da violência dita "gráfica" é estupidamente penalizada, como no caso do relançamento do clássico A Quadrilha Selvagem (1969), de Sam Peckinpah, que em 1993 levou com um inacreditável NC-17.

 

O que interessa sublinhar é que, em Portugal e no resto da Europa (excepção feita à Inglaterra, claro), muito por influência da cultura francófona, a relação com o sexo está longe de ter o puritanismo americano, e ainda bem. Nós temos com fartura filmes para maiores de 12 anos onde há maminhas ao léu, e ninguém se anda a indignar por causa disso. Mesmo em relação à exibição da homossexualidade, progredimos imenso, não só em termos legislativos, com a admissão do casamento gay, como em termos "visuais": já há telenovelas em horário nobre com personagens gay, e aos poucos verifica-se uma genuína saída do armário, não só dos homossexuais, mas de toda a população em relação à homossexualidade. Convém não esquecer que as práticas homossexuais eram consideradas crime até à revisão do Código de Penal de 1982. Isto foi há pouco mais de 30 anos.

 

Aliás, a palavra gay é abundamente usada cá em casa pelos miúdos, infelizmente ainda de forma muito preconceituosa (parte do caminho ainda está por fazer, como é obvio). O "tu és gay!" aprendido na escola é muito recorrente, e obriga a várias explicações. Mas isso também pode acontecer em relação ao "preto" ou ao "cigano". Suponho que todas as minorias sofram disso, e compete obviamente aos pais criarem filhos sem preconceitos e respeitadores das diferenças. Cá em casa, tenta-se que a questão do sexo seja tratada com a mesma naturalidade que a questão da cor da pele ou da etnia.

 

Agora, tanto em relação ao sexo como à violência, convém distinguir as coisas. Beijar não é o mesmo que apalpar, apalpar não é o mesmo que pinar, pinar de forma simulada não é o mesmo que sexo explícito, e nalgum sítio teremos de estabelecer uma linha, ou de outra forma vou começar a mostrar cá em casa a pornografia dos anos 70 aos miúdos, que sempre foi um tema que me interessou. Não é a mesma coisa, hão-de admitir, mostrar a um miúdo de 13 ou 14 anos o Boogie Nights, do Paul Thomas Aderson (que se passa no meio da pornografia americana dos anos 70), ou o Garganta Funda.

 

Mas isso não se aplica só ao sexo. Também se aplica, da mesma forma, à violência, e até posso dar um exemplo muito concreto. Como vocês sabem, cá em casa há um grande interesse pela Segunda Guerra Mundial, e qualquer miúdo adora tiros e tanques e cenas de acção. Nesse campo, em termos de realismo, nada de melhor foi feito do que O Resgate do Soldado Ryan, de Steven Spielberg, que é um filme classificado em Portugal para maiores de 16 anos. A classificação parece-me correcta. Eu não tenho problemas em mostrar quase todo o filme aos miúdos, desde que devidamente explicado e enquadrado. Já o fiz. Mas nunca lhes mostrei esta cena,

 

 

em que Goldberg é morto lentamente com um punhal após uma luta violentíssima com um nazi. Há violência e violência. E esta cena, de um realismo assustador, passa dos limites. Não quero que miúdos de oito ou dez anos vejam uma sequência com tamanho horror e dramatismo.

 

Voltemos, então, à Diana e ao seu parágrafo final.


O recalcamento do sexo é que cria comportamentos agressivos. Ou os pais acham que as suas filhas menores ainda não sabem o que é se pode fazer com a língua, para além de lamber gelados?

 

Pelo que atrás ficou dito, espero que se perceba que não se trata de "recalcar" - trata-se de não exibir. Não se trata de eles não saberem o que se faz com a língua para além de lamber gelados, trata-se de não lhes mostrar tudo o que se pode fazer com a língua além de lamber gelados.

 

Da mesma forma que há certa violência que passa dos limites, parece-me óbvio, diante de imagens como esta, retirada da mesma digressão Bangerz que passou pela Meo Arena,

 

 

 

que o espectáculo de Miley Cyrus também passa dos limites.

 

Aliás, num comentário deixado no meu Facebook, o leitor Luís Matos fez uma observação muito pertinente:

 

Nada em Miley é novo ou sequer particularmente inesperado. Ela é o que tiver de ser para que a máquina (que é muito maior do que ela, vos asseguro) possa continuar a facturar. O que é central à questão é que o imaginário da mulher adulta que faz o que bem entende com o canal vaginal (um produto em si mesmo, se quisermos, com procura e oferta, etc.) é misturado em palco com o imaginário infantil que ali a trouxe. A coincidência de ambos no palco é o que choca mais. E, agora sim tomemos opinião pelo que as coisas são, esse facto é reprovável.

 

Eu não vi o espectáculo, naturalmente, mas pelo que se vê na net posso confirmar que os peluches dançarinos e esta mistura entre imaginários infantis e imaginários porno está toda lá. Ora, tal mistura não é, de facto, para maiores de 6 anos, que era a classificação do espectáculo, sendo que a própria promotora portuguesa organizou comboios da CP onde estavam explícitos descontos para crianças. Ou seja, Miley quer chocar, o que me parece completamente legítimo porque já é maior de idade, quem a vende quer chocar, o que também me parece legítimo porque isso dá $$$$ e nós vivemos numa sociedade capitalista. Só que ambos não querem só chocar adultos ou sacar $$$$ aos maiores de idade - pelos vistos, também querem chocar e explorar as crianças.

 

E isso, por mais volta que demos ao assunto, não é nada bonito. Existe uma época própria para começar a falar de sexo, outra para começar a ficar completamente fascinado pelo sexo e outra ainda para começar a praticar sexo. Parece-me boa ideia respeitar cada uma dessas fases, em vez de ter aulas de bondage aos oito anos.

 

É por todos sabermos o poder que o sexo tem, para o bem e para o mal, que convém ter por ele o maior respeito. E mesmo que decidamos que chegou a hora de introduzir as crianças a este tema, eu diria que Miley Cyrus está longe de ser a melhor professora disponível no mercado.

 

publicado às 11:05


Um ponto prévio sobre comentários agressivos

por João Miguel Tavares, em 18.06.14

Na segunda-feira, eu tinha prometido responder ao comentário da Diana Figueiredo sobre a Miley Cyrus, mas antes de o fazer sinto alguma necessidade de sair em sua defesa, visto que ela foi alvo de alguns comentários mais agressivos do que seria desejável.

 

Nós aqui no Pais de Quatro temos um entendimento muito lato da liberdade de expressão, e desde que não se chamem nomes às pessoas ou se tente deliberadamente sabotar a discussão com comentários incompreensíveis, tudo é permitido. Ainda por cima, tendo em conta que eu próprio tenho um estilo provocador e que sou apreciador do músculo argumentativo e da ironia, não me vou estar a armar em virgem ofendida quando alguém diz mal do que escrevo.

 

Chateia-me bastante mais, contudo, quando sou eu que tomo a opção de puxar para o corpo central do blogue alguém que tem uma opinião contrária à minha e a expressa na caixa de comentários, e esse leitor (neste caso, leitora), que até deu o seu nome e teve a simpatia de deixar aqui a sua opinião, é vítima de tratos de polé. Não é bonito, porque sinto que, de certa maneira, fui eu que a amarrei ao poste para depois outros leitores lhe poderem mandar flechadas, como nos filmes de índios e cowboys. Tivesse o comentário da Diana Figueiredo permanecido no meio da caixa de comentários e muito menos gente se teria indignado com ele.

 

No entanto, eu gosto de valorizar certos comentários dos leitores e de dar-lhes destaque - é uma forma de este blogue ser mais dialogante do que é hábito na blogosfera. E não queria, mesmo, perder isso. Donde, pediria, se possível, que os leitores fossem um pouco mas meigos quando se trata de responder a leitores que receberam um destaque que não pediram, e que reservassem o seu melhor fel para mim, já que levar porrada pelo que escrevo faz parte da minha profissão, e vou tendo o lombo bastante calejado.

 

Agradeço por antecipação.

 

publicado às 10:23


E agora é a vez de Eduard Estivill

por João Miguel Tavares, em 18.06.14

O jornal online Observador, depois de ter efectuado uma polémica entrevista ao pediatra catalão Carlos González, que muito deu que falar neste blogue, regressa agora com uma nova entrevista, desta feita à nemésis de González, o igualmente pediatra e igualmente catalão Eduard Estivill.

 

Que os senhores devem gostar muito um do outro fica bastante claro pela resposta de Estivill à seguinte pergunta:

 

Para Carlos González, todos os castigos são inúteis. Que opinião tem dele e das suas teorias – porque acha que é um sucesso de vendas?
Não conheço esse senhor, pelo que não posso comentar.

 

Não sei porquê, fiquei desconfiado de que não se frequentam.

 

Ainda assim, nesta batalha de gigantes da pediatria catalã, desconfio que não me seja lá muito difícil escolher o lado. Reparem como até no campeonato da foto-foleira-com-a-mão-na-bochecha (juro que não sei como é que alguém continua a tirar fotos deste género em 2014), González e Estivill têm posturas inteiramente diferentes.

 

 

Carlos González nunca perde o ar beatífico. Ele sorri, sim, mas é um sorriso de quem já atingiu um patamar superior de sapiênca pediátrica. A mão direita apenas faz o favor de amparar uma cabeça que já não é deste mundo. Ele paira acima de nós.

 

 

 

Eduardo Estivill segura a bochecha esquerda de uma forma completamente diferente. Está com o dedo apontado, provavelmente para mais depressa o virar na direcção de um puto irritante, se for preciso colocá-lo no seu lugar. Além disso, não há nada de beatífico no seu sorriso. É um sorriso de um gajo normal, que está ao nosso nível, e os dentinhos de coelho ajudam a acreditar no que ele diz. Se ele tivesse pinta de ariano, a gente tinha mais receio da sua paixão pelas regras e pela autoridade. Num tipo com dentes de coelho, é sempre muito mais fácil acreditar.

 

Como se vê por esta minha equilibradíssima e justíssima apreciação dos dois pediatras só com base em fotografias, eu acho que sou mais Estivill. E, na verdade, não é só por causa das fotos. É mesmo por causa de respostas como estas:

 

Acha que as crianças devem ser castigadas?
O castigo é um acto negativo que a criança pode entender com ansiedade. Ao invés, regras firmes em todos os hábitos dão segurança às crianças. O importante é que os pais comuniquem as regras e os limites como uma coisa natural e não como um castigo.

 

Quais as consequências da culpabilização dos pais no desenvolvimento dos filhos?
Os pais inseguros, com baixa autoestima e problemas pessoais têm uma maior tendência a proteger em demasia os filhos. Assim, passam-lhe as suas carências, o que os torna mais inseguros. O contrário acontece com os pais que são seguros de si mesmos.

 

Acha que tem um discurso centrado nos pais?
Todos os estudos científicos mostram-nos que, na questão dos hábitos de ensino, os responsáveis são os pais. As crianças não aprendem sozinhas, mas sim aquilo que lhes ensinamos. De pais seguros saem crianças seguras. De pais inseguros saem crianças sem bons hábitos. Quando uma criança come bem, dorme bem e está bem educada, o mérito é dos pais. O mesmo acontece no sentido contrário.

 

Mas leiam toda a entrevista, porque vale a pena.

 

publicado às 09:51


Coisas de que só o Gui se lembra #3

por João Miguel Tavares, em 17.06.14

Antevendo a péssima exibição de Rui Patrício na baliza de Portugal, o Gui apareceu ao pé de mim com uma luva de papel criada por si. Nem sequer lhe falta o número 1, embora escrito ao contrário.

 

 

Para os apreciadores desta rubrica, mais coisas de que só o Gui se lembra aqui e aqui.

publicado às 09:49


A culpa é sempre do árbitro

por João Miguel Tavares, em 16.06.14

Menos educativo do que um concerto da Miley Cyrus, só mesmo os comentários de um jogo de futebol envolvendo a selecção portuguesa.

 

- Meninos, estão a ouvir estes senhores na televisão a dizer que o árbitro roubou Portugal?

- Sim, papá.

- Não ouçam, está bem? Ponham salsa nas orelhas.

- Porquê, papá?

- Porque Portugal levou um baile do caraças e o árbitro não joga à bola. Só quem não sabe perder é que se queixa sempre do árbitro. É um péssimo defeito. Repitam comigo: "Os alemães é que foram muito melhores."

- Os alemães é que foram muito melhores!

- Bravo, isso mesmo. 

- Mas o penálti alemão não foi penálti, pois não?

- Foi, foi penálti.

- O Paulo Bento disse que foi forçado.

- Isso é uma maneira de dizer que foi penálti mas podia não ter sido marcado, o que a acontecer seria um erro maior do que marcar um penálti que efectivamente foi penálti.

- Mas eu ouvi um senhor na televisão dizer que se fosse ao contrário o árbitro não marcava.

- Isso é outra maneira de dizer que foi penálti mas podia não ter sido marcado, o que a acontecer seria um erro maior do que marcar um penálti que efectivamente foi penálti.

- Já disseste isso antes, papá.

- Desculpem, é que as queixas em relação aos árbitros estão sempre em loop.

- O que é loop?

- Esquece.

- E a expulsão do Pepe?

- O que é que tem?

- O Paulo Bento disse que foi forçada.

- Lá está.

- O quê?

- O loop. O Pepe poderia ter levado apenas um cartão amarelo, mas mais estúpido...

- Não se diz estúpido.

- Peço desculpa, mas mais idiota...

- Também não se diz idiota.

- Peço desculpa, mas mais estulto...

- O que é que significa estulto?

- Significa estúpido e idiota. Mas mais estulto do que levar um vermelho foi ter ido colar a sua cabeça ao do jogador alemão, até porque o árbitro nem sequer tinha marcado falta. Além disso, Portugal já estava a perder por 2-0 nessa altura.

- E o penálti sobre o Éder?

- Isso foi penálti. Aí o árbitro prejudicou Portugal.

- Então fomos roubados!

- Vocês também? Portugal já estava a levar três! O árbitro prejudicou-nos um bocadinho, mas mesmo que nos tivesse beneficiado teríamos perdido na mesma. Eles deram-nos um baile. Repitam comigo: "Os alemães foram muito melhores."

- Os alemães foram muito melhores!

- Lindos meninos.

 

 

publicado às 20:25


Miley e o sexo

por João Miguel Tavares, em 16.06.14

A Diana Figueiredo tem uma opinião muito diferente da minha sobre a questão Miley Cyrus, portanto vale a pena trazer para aqui o seu comentário:

 

Acho incrível toda a gente ficar chocadíssima com tudo o que tenha a ver com sexo, ou outras expressões de amor menos convencionais, ou mesmo expressões de puro prazer. Se na televisão mostrarem dois homens a dar um beijo na boca é um escândalo e tapam os olhos às criancinhas; se mostrarem o resultado de um carro armadilhado com pessoas ensanguentadas e outras desesperadas com os filhos mortos ao colo, será que tapam os olhos às criancinhas? Eu tapo.


No Facebook permitem partilhas de vídeos de acidentes em que se vêem pessoas cortadas ao meio; mas vídeos com mamas, nem pensar, é imoral!
Os pais proíbem as filhas de ir ver a Miley, pode dar-lhes ideias esquisitas, mas aposto que muitos desses pais já ofereceram um telemóvel/ smartphone a essas mesmas filhas, quando elas ainda tinham 8 ou 9 anos, mesmo podendo estar a contribuir para um cancro, e que as deixam beber Coca-Cola.


O recalcamento do sexo é que cria comportamentos agressivos. Ou os pais acham que as suas filhas menores ainda não sabem o que é se pode fazer com a língua, para além de lamber gelados?

 

A pergunta é boa. Resposta minha amanhã. Os caros leitores façam o favor de dizer coisas no entretanto.

 

publicado às 15:58


As notas dos exames da Carolina

por João Miguel Tavares, em 16.06.14

A pedido de várias famílias, que já estavam mortinhas por me verem ir a pé até Fátima, eis as notas nos exames nacionais de quarta classe da Carolina, cujas peripécias acompanhei aqui, aqui, aqui e aqui:

 

Português: 91%

Matemática: 91%

 

Ou seja, notas perfeitas. Satisfaz Muito Bem em ambos os testes, mas com uma certa margem de progressão, e não notas altas a um ponto que me obrigassem a arrastar-me penosamente pela Estremadura até à azinheira de Ourém. Agora falta saber as notas do Tomás.

 

publicado às 15:08


Crianças no concerto de Miley Cyrus? Eh pá, não #2

por João Miguel Tavares, em 16.06.14

Uma querida leitora já encontrou o link para a referida reportagem da SIC Notícias. Aqui está ele.

 

A parte educativa da Miley a bater no mega-bum-bum da senhora vestida de vermelho está por volta dos 45 segundos, e as miúdas ali entre os oito e os dez anos, ainda com buracos à frente da boca por causa da queda dos dentes de leite, mas que mesmo assim já gritam "Miley dá-me a tua língua!", vêm logo a seguir, por volta dos 50 segundos de reportagem.

 

Mesmo correndo o risco de parecer o Avô Cantigas, não percam.

publicado às 12:52


Crianças no concerto de Miley Cyrus? Eh pá, não

por João Miguel Tavares, em 16.06.14

 

Acabo de assistir à reportagem da SIC sobre o concerto de ontem à noite da Miley Cyrus (lamento, mas não encontrei o link, se acaso alguém encontrar eu depois coloco), e qual não é o meu espanto quando vejo umas miúdas de nove ou dez anos a comentarem entusiasmadíssimas o espectáculo, como se ainda estivéssemos a falar de uma visita da Hannah Montana a Lisboa.

 

Embora a Miley me irrite um bocadinho nesta sua fase cão cansado, como já mostrei aqui, está fora de questão pôr em causa a legitimidade de ela andar a mostrar a língua, as mamas, o pipi ou o que quer que lhe apeteça mostrar, como forma de exprimir a sua arte e de matar a figurinha da Disney que lhe estava colada à pele.

 

Parece-me demasiado um decalque dos percursos de Madonna e de Britney Spears para a coisa me chegar a entusiasmar, mas a sua música não é má e, hoje em dia, a única forma de inovar pelo choque sexual no mundo da pop é mesmo ir subindo a parada. A menina é maior de idade, e embora eu tema que lhe possa vir a acontecer o mesmo que à Britney e ao Bieber, não sou pai dela e ela que faça o que quiser.

 

Agora, miúdas de oito, nove, dez ou 11 anos a assistir ao concerto da Miley? Não, senhores, não. Eu sei que os promotores do concerto apostam nisso, eu sei que vivemos numa sociedade hiper-sexualizada, eu sei que a Miley quer fingir que é grande ao mesmo tempo que procura manter parte do público Hannah Montana junto de si, como se pode perceber por estas suas ridículas declarações

 

Embora os pais provavelmente não concordem, eu acho que o meu concerto é educativo para as crianças. Elas vão estar expostas a arte desconhecida para a maior parte das pessoas. As pessoas são ensinadas a ver as coisas a preto e branco, especialmente em cidades pequenas. Estou entusiasmada por levar esta digressão a locais onde arte como esta não seria aceite, onde os miúdos não aprenderiam sobre este tipo diferente de arte.

 

eu sei isso tudo, mas há limites, caraças. Os miúdos não estão prontos para ver tudo, a partir de qualquer idade, como é óbvio, se não mais vale acabar com as classificações etárias dos espectáculos. Aliás, colocar este concerto para uma idade mínima de seis anos, como aconteceu em Portugal (ver aqui), parece-me, no mínimo, um escândalo.

 

Chamem-me esquisito, mas eu não queria que um filho ou uma filha minha com menos de 15 ou 16 anos fosse ao Meo Arena ver a Miley a enfiar palmadas no volumoso rabo desta senhora (Amazon Ashley, de sua graça), ou a enfiar-lhe a cabeça no decote, como tem sido prática na digressão.

 

 

Nesta fase de desejo assolapado de fazer todas as vontades aos filhinhos, dá-me ideia que muitos pais estão a perder qualquer espécie de critério e a ficar sem uma gotinha de bom-senso. Ou então estão enfiados numa gruta há vários anos e ainda confundem a Miley de 2010 com a de 2014.

 

Como vocês sabem, nada tenho contra tau-tau no rabinho, nem entre crianças desgovernadas, nem entre relações consensuais. Mas há um tempo para tudo, bolas.

 

publicado às 09:46


Obrigado, Sónia #2

por João Miguel Tavares, em 14.06.14

A Sónia diz que não preciso de agradecer, mas eu agradeço na mesma. Obrigado, Sónia - mais um excelente argumento para me manter dog free.

 

E sobre o Assunto Cão, vale a pena trazer para aqui este óptimo testemunho da leitora Ana Leal:

 

Olá, João! Veja este post como uma modesta retribuição em relação àquilo que acaba por me, nos, dar, todos os dias com este seu, vosso, maravilhoso blogue.

 
Eu cedi à vontade dos meus filhos, e à minha própria, de comprar um cão. Soube fintar a parte do cão adotado, porque li bastante sobre o assunto e [acerca de certos] riscos como não saber de que tamanho o cão se tornaria, que tipo de doenças hereditárias, que as há bem complicadas, e que temperamento podia ter. Eram riscos que queria minimizar com três crianças em casa, ainda por cima com uma com dois anos.

 

Comprámos um cão de uma raça tida como boa para crianças (Golden Retriever), de um excelente criador, estudadíssimo. O cão, que agora tem 18 meses e pesa 40 kg, é não só lindo de morrer, como super meigo e paciente com as crianças, muito "inteligente", e tirando uma ou outra diarreia ainda não teve nenhum problema de saúde. E nós moramos numa vivenda e temos jardim e uma pessoa em casa praticamente o dia todo... e mesmo assim eu estou um bocado arrependida.

 

Porquê? Porque: ele acorda às 6 horas da manhã TODOS os dias, e ladra até alguém acordar (eu) e lhe abrir a porta de casa para ir à rua, e depois quer companhia, e porque é também ele criança quer brincar, e agora além da pressão que tenho para educar 3 crianças tenho ainda que educar o cão. E como me farto de ler, sei que temos de estimulá-lo mentalmente, para ele ser um cão obediente e equilibrado e temos de dar passeios grandes, dos quais ele vem invariavelmente todo sujo (para já não falar na dificuldade que foi ensiná-lo a não puxar a trela - que ainda puxa um bocado) e depois para lhe dar banho fico eu toda encharcada dos pés à cabeça.

 

E as crianças? As crianças no primeiro dia em que ele veio para casa gostaram muito, mas depois ele não fazia o que eles queriam (e os cachorros mordiscam imenso e é necessário ensiná-los a não fazer isso - tem até um nome: inibição de mordida em cachorros), e portanto nos meses seguintes deixaram de lhe achar graça até alguém (eu) ensinar ao cão tudo o que ele sabe agora (senta, fica, deita, não, anda, aqui, junto larga, vai buscar, etc ) o que tornou a interacção com eles mais positiva. Mesmo agora fazem um bilú-bilú quando chegam a casa (dura 2 minutos) e depois adeus.

 

E sim, a Sónia tem razão. Até aprenderem a não fazer nada em casa, são umas manhãs de vómitos, mesmo para quem não esteja grávida (que voltam a repetir-se, sempre que o coitado do cão come uma porcaria qualquer na rua e fica mal da barriga e sem se conseguir controlar). Por isso, João... mesmo com um cão maravilhoso, e todas as condições para o ter, acho que é uma experiência gira para um/a solteiro/s, um jovem casal, ou uma família com filhos um pouco mais crescidos, mais de 14 anos, ou um casal sem filhos, porque em termos de exigência em termos de tempo e cuidados é quase como ter mais um filho - isto, claro, para quem se preocupa e gosta de fazer bem-feito...

 

Se pudesse voltar atrás escolheria o mesmo cão, o mesmo criador, mas definitivamente só daqui a 4 ou 5 anos. Mesmo assim, se um dia decidir avançar, escolha um criador que tenha boas condições para poder receber o cão sempre que vocês vão de férias - o nosso é assim e nunca na vida pensei que isso se revelaria tão importante - sim, porque nós adoramos o cão, e quando vamos a algum lado sabe bem saber que o deixamos com a família dele, de contrário iria ser um suplício.

 

(Ah! Esqueça também aquela coisa idílica de estar a almoçar, numa esplanada, com o cão sossegado debaixo da sua cadeira. A maior parte dos restaurantes, bares, etc. , não permite, e até que o cão consiga permanecer nesse estado, há um longo caminho a percorrer... a não ser que tenha imenso tempo para dedicar ao cão - o que, pelo que leio aqui, não me parece :-) )

 

publicado às 14:16




Os livros do pai


Onde o pai fala de assuntos sérios



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