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Eu, burguês, me confesso

por João Miguel Tavares, em 16.05.13
Dois leitores decidiram apimentar este blogue com comentários sobre temas que me são caros. Cada um à sua maneira, fizeram críticas a mim, à minha família e ao Pais de Quatro de um ponto de vista que poderemos considerar marxista: nós somos um bando de burgueses insensíveis, que andamos por aqui a exibir a nossa vida luxuosa, indiferentes ao sofrimento dos mais pobres. O primeiro comentário surgiu já há uns tempos num post sobre o Balotelli e a ex-namorada. E rezava assim:

Boa, João. Fica-te por estas mexeriquices, porque de política e de sociedade não vês um canudo. Só não percebo uma coisa: se achas que tens piada para aparecer na TV com piadinhas sobre situações que, se analisares um pouquinho mais fundo, verás que são graves para muitas famílias, porque é que não fazes antes stand-up sobre assuntos triviais? 

O outro comentário foi feito há um par de dias a partir deste post:

A banalidade dos posts deste blogue e a exaltação das alegrias da vida familiar preenchida por uma ranchada de crianças lindas, roça, por vezes, a obscenidade. Então e se em vez de "a mamã é médica" e "o papá é um jornalista famoso e ilustre membro da elite intelectual lisboeta", que passam fins-de-semana idílicos na casa das Penhas Douradas e outros poisos afins, fosse "a mamã é administrativa" e "o papá é polícia", e em vez das Ritas, das Carolinas, das Pilar e das Assunção fossem o Fábio e a Sandra, seria assim tudo tão cor-de-rosa? De onde provém o sustento destes dois jovens universitários? Um pouco mais de pudor seria prudente.

Este segundo comentário é bastante mais interessante do que o primeiro, mas todos eles são um convite ao silenciamento - ou, pelo menos, a um certo nível de decoro - por alegada falta de sensibilidade social. Vamos por partes.

Em relação à questão da televisão e das minhas posições políticas, eu nunca as trouxe para este blogue porque tenho outros sítios onde as manifestar - e assim continuará a ser. Quem detesta o que eu escrevo no Público ou aquilo que defendo no Governo Sombra está no seu inteiro direito, embora seja altamente irritante esta mania de achar que quem não concorda com os nossos pontos de vista ou é imbecil ou mal-intencionado. O tique nacional de pessoalizar qualquer divergência ideológica mais acentuada é um absurdo (tal como a eterna superioridade moral da esquerda, que se acha sempre do lado dos pobres, enquanto a direita só quer o bem dos ricos), e se eu coloco tanto empenho em escrever sobre a minha família é porque sou um adepto da transparência da vida como forma de revelar a sua complexidade e os vários mundos que temos dentro de nós. O nosso posicionamento político ou as nossas convicções sobre assuntos económicos são uma ínfima parte daquilo que nós somos, e nem de perto, nem de longe, aquilo que mais conta nas nossas vidas.

E este é, de facto, o ponto, sobretudo quando o autor do segundo comentário entende que a "exaltação das alegrias da vida familiar" neste blogue "roça a obscenidade". Porquê? Porque a minha mulher é médica e eu sou "membro da elite intelectual lisboeta", o que supõe que nós sejamos particularmente abastados e convidaria a um prudente silêncio. A parte do "membro da elite intelectual lisboeta" é muitíssimo divertida, porque se o leitor conhecesse realmente algum membro desse grupo saberia que jamais me deixariam entrar no clube. O facto de eu aparecer na televisão e de escrever em jornais não esconde nunca o facto de eu ser um pobre labrego alentejano, como aliás já dei testemunho em posts como este.

Mas a ideia de que alguém tem de se conter no testemunho que dá da sua vida porque hoje em dia tem possibilidade de pagar uma noite em família na Serra da Estrela, pode ir comer fora quando lhe apetece ou de repente decide ir passar um dia na Kidzânia é não só bizarra, como vive na tal obsessão de que é o dinheiro que faz girar tudo no mundo. Ora, aquilo de que este blogue fala é essencialmente de duas coisas: de educação e de amor, e receio bem que o dinheiro não compre nem uma coisa, nem outra. Ajuda? Com certeza. Mas reduzir o ser humano à dimensão da sua carteira é, isso sim, uma tremenda pobreza.

E depois, deixem-me só puxar dos galões num aspecto: é que, ainda para mais, o fruto do nosso trabalho está ao serviço de uma família que hoje em dia tem seis membros. Não foi estourado em viagens anuais a Bora Bora ou em malas Louis Vuitton. Ele é devolvido à sociedade na forma mais nobre que me parece que existe: crianças com os valores certos (quero eu acreditar), que têm tudo para poder vir a deixar este mundo um pouco melhor do que o encontraram, tal como o pai e a mãe deles tentam fazer todos os dias - e independentemente do dinheiro que em cada momento têm na sua conta bancária (e posso garantir-vos que varia muito). O facto de isso, só por si, não ser merecedor de respeito, diz muito do país em que vivemos e da selecção das nossas prioridades. 


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publicado às 14:04


31 comentários

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De Andreia a 20.05.2013 às 11:49

"Um pouco mais de pudor seria prudente." A minha pergunta é porquê.
Alguém paga as contas desta família?
O politicamente correcto é andarmos a carpir cortes?
Eu pessoalmente em vez de querer que estejamos todos mal, quero é que todos melhorem.
Bonito é estourar o dinheiro todo ( onde bem nós apetecer) e andar a armar que se andou mais 100 m para poupar 5 cent no café? É este tipo de hipocrisia que mais vejo, o discurso do coitadinho.
Na hora de dar opiniões tida a gente sabe gerir a vida dos outros, mas se for para ajudar ninguém se chega.
Tretas!

Esta resposta é brilhante. Ensinar valores é gratuito, infelizmnte nem todos aprenderam. Vivemos tempos em que se valoriza mais o que temos do que o que somos (e não me refiro a profissão) e este comentário mostra-o bem.

Bem-haja família Mendonça Tavares, dão-me esperança que o futuro possa ser melhor.
E não é por terem ido à Serra da Estrela.


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De Nicole a 19.05.2013 às 18:07

Peço desculpa Viajante mas não entendo em que medida o "tom" do meu comentário "passa a linha do que é aceitável". Para mim isso seria desrespeitar alguém com ofensas gratuitas e rasteiras.
Se teve algum problema em interpretar o que escrevi eu esmiuço mais: apenas referi que quem se expõe mais está naturalmente mais sujeito a tornar-se numa espécie de bode expiatório do que vai mal na vida de quem os lê. Não podem "descarregar" no chefe, no Passos ou no Gaspar e deslocam essa frustração na crítica ou ofensa anónima que a blogosfera propicia.
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De Rui Ribeiro a 19.05.2013 às 01:25

Estive a reflectir e chego à conclusão que a mna Leonor é bem capaz de ter razão!

Vejamos, se criar os filhos com essa atitude, "eles são meus, para minha própria felicidade, são minha propriedade", o mais certo é que não demorará a gozar do egocentrismo, pois o chuto no traseiro vai ser à maneira......
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De Rui Ribeiro a 19.05.2013 às 01:22

Apenas seria porno, se o jornalista em questão (ou a Doutora) lhe devesse dinheiro senhor anónimo! Se não for o caso, o casal pode gerir o seu orçamento familiar como lhe der na "real gana" ! Ninguém apesar da crise instalada, tem de viver de forma "tabelada", ou seja, se a generalidade das pessoas estão em determinado nivel, as demais não o podem fazer, ou então que o façam às escondidas ! Para além de ridiculo, soa-me a hipócrita este tipo de pensamentos, porque (João ou Teresa corrijam-me se estiver errado) o casal deve ter GERIDO o seu orçamento para que consiga fazer estas viagens! Muitos são os portugueses que lutam agora pela sobrevivência básica, pois há "meia dúzia" de anos atrás iam para Cuba, com créditos na Cetelem e afins....
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De Anónimo a 18.05.2013 às 17:01

Duas notas.
O jornalista deste blog tem razão - tem todo o direito em exibir ao mundo a sua vida familiar , desde que não ponha em causa a privacidade das suas encantadoras criancinhas. tem razão em muiats coiasa, ser pai é bom, ter muitos filhos também, haja amor e dinheiro e tempo para escrever em blogues.
Mas os comentadores têm ainda mais razão. Numa altura em que as famílias portuguesas, em geral, lutam pela sobrevivência básica, os exibicinismos de famílias bon chic bon genre soam um bocadinho pornográficos.
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De Sílvia a 18.05.2013 às 16:22

Egocentrismo:
1. tendência para referir tudo a si mesmo
2. preocupação exclusiva consigo e com os seus próprios interesses
3. individualismo extremo
4. PSICOLOGIA atitude psicológica, normal na segunda infância (3 a 6 anos), caracterizada pela ausência de distinção entre a realidade pessoal e a realidade objetiva. (In Infopédia)

Egocêntrico:
1. que se preocupa exclusivamente com a sua própria pessoa e os seus próprios interesses
2. que é individualista ao extremo
3. relativo ao egocentrismo. (In Infopédia)

Eu quer-me parecer que quando uma pessoa tem filhos deixa precisamente de ser egocêntrico, ou no caso da Leonor eles ainda serão tão pequenos que nunca lhe deram dores de cabeça, ou preocupações...

Ora, mas cada um tem filhos pelo motivo que bem lhe apetece! Se teve filhos por esse motivo (a sua própria felicidade) aconselho-a (como profissional de saúde) a procurar alguém com quem falar disso (um psicólogo, ou um psiquiatra, até!). Porque ter filhos é simplesmente a coisa mais natural do mundo, é o que evita a extinção da Humanidade,desde o princípio do mundo! Não pense agora que os Homens têm filhos para sua própria felicidade, porque são egocêntricos... eu leio com cada uma!!
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De Rui Ribeiro a 17.05.2013 às 23:32

Oh João, já dizia o "Velhinho".... "E esta hein ?!"

ahahahaha
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De Anónimo a 17.05.2013 às 22:57

Excelente resposta, Sem dúvida.
Eu venho de uma Família numerosa somos muitos primos e sempre brincamos muito nas férias em Trás-os-Montes, numa aldeia perto de Mirandela, a minha avó era professora o meu avo agricultor, a minha bisavó era professora o meu bisavô era alfaiate, e sempre foram felizes e sempre nos ensinaram que não interessa se tens ou não dinheiro tens de é de ter amor e saber ser feliz, para que possas tu num futuro próximo ensines alguém a ser feliz.
Hoje sou a única neta que não sou professora sou administrativa e o meu marido um geógrafo e somos felizes e também temos um blog onde expomos as nossas loucuras saudáveis, e também nós tentamos ensinar VALORES ao nosso filho, coisa que parece estar em falta na nossa sociedade, também nós tentamos dar o que podemos e também nós vamos passar ferias a Serra da Estrela e outros cantos do nosso Portugal e não sou "medica" , como a Teresa, nem "Jornalista" como o João. O que eu quero dizer é que não importa o que somos, mas o que fazemos com aquilo que somos.
João e Teresa, adoro o vosso blog parabéns por tudo e continuem, adoro a vossa alegria e ao ler fez ver que afinal a nós não somos assim tão loucos de manhã com as nossas correrias, Parabéns pela vossa linda família

Kikas

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De Anónimo a 17.05.2013 às 20:35

Nome da smartshop, por favor!
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De Anónimo a 17.05.2013 às 13:07

O Rui percebeu bem.
Eu não quero que me respeitem pelos filhos que tenho. (São três, actualmente). Insisto que os tive porque quis. Ser egocêntrico não significa que não nos atiremos para o mar mas exactamente que nos atiramos em busca da nossa própria felicidade. Desculpem se isso não me envaidece nem um bocadinho.
Leonor

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