por João Miguel Tavares, em 24.01.13
Ainda em relação ao leite, lembrei-me que já escrevi um texto sobre isso há uns anos, que entretanto foi publicado no livro
Os Homens Precisam de Mimo. Já nessa altura suspirava pelo tempo em que apenas havia leito gordo, meio gordo e magro. E ainda nem sequer havia toda a variedade actual: há uns dias ia comprar leite sem lactose, não encontrei, e deparei-me com um pacote intitulado "digestão fácil" que prometia 0,9% de lactose. Às tantas já não sabia se aquela 0,9% era o antigo 0% depois de ter sido obrigado a sair do armário pela ASAE, ou se era mesmo um novo 0,9%, e quanto é que isso poderia dar em percentagem de diarreias do meu filho Tomás, só para saber se arriscava ou não.
Bom, mas aqui fica o referido texto, intitulado "Vai um copinho de leite com isoflavonas?":
Ah, como eu tenho saudades do tempo em que o leite era apenas leite. Hoje em dia, ir ao supermercado aviar duas embalagens de Mimosa, é uma autêntica aventura linguística e sociológica. Aqui há uns dez anos, ir comprar leite significava escolher entre pacotes de gordo, meio gordo ou magro. Nos dias que correm, implica um mergulho nos abismos das vitaminas, das fibras, do cálcio e do ómega 3. Tenho cá para mim que seria muito útil começar a transportar um farmacêutico no nosso carrinho das compras.
Uma pessoa entra no Continente e tem dois corredores de leite. Um, mixuruca, de pacotes pouco ambiciosos e acomodados à vida, que não desejam ser mais do que o resultado de uma vaca pobremente espremida e se deixam comprar por cinquenta e poucos cêntimos. Pacotes à antiga, digamos assim, que manifestamente não acompanharam o progresso da humanidade. E depois temos outro corredor, de pacotes reluzentes, muito classe média-alta, que além do líquido que jorra do bovino são vitaminados por uma miríade de quinquilharia química que promete deixar-nos a apenas dois dedos de distância do Super-Homem. Como tudo o que reluz, há o reverso da medalha: cheguei a ver um pacote, que prometia afogar o colesterol, a 360 paus, moeda antiga.
O problema, claro, é que tansos como eu são irresistivelmente atraídos pelos líquidos que prometem – qual poção mágica do druida Panoramix – revolucionar a nossa existência em troca de 20 centilitros ao pequeno-almoço. Para tudo o que nos acontece na vida, inventaram um tipo de leite que ajuda a enfrentar a situação. Em verdade vos digo: o tipo que viu no pacote de leite um cruzamento entre nutricionista e psicanalista merecia uma estátua nos prados verdejantes dos Açores.
Ele há o leite “especial mamãs”, com ácido fólico . Ele há o leite “cardio”, com vitaminas B6, B12 e B9. Ele há o “bem activo”, com vitamina D (que ajuda “na fixação do cálcio”, aparentemente um elemento químico que tem dificuldades em parar quieto). Ele há o “efeito bífidus ”, que todos sabemos ser um efeito maravilhoso, à base de “fibras solúveis”. Ele há o leite “sem lactose”, que é a cerveja sem álcool e o chocolate sem açúcar dos leites. Ele há o “bem especial crescimento”, muito apropriado às criancinhas, que por sua vez se subdivide em “1-3 anos” e “a partir dos 3 anos”, que os putos não são todos iguais. Ele há o novo e moderno leite de soja, claro, que só por si é um mundo à parte. Ele há o ecologicamente sensível leite biológico, que promete uma ligação directa às tetas das vacas mais felizes do planeta.E depois há nomes finíssimos como o “leite fibresse”, que ajuda “à regularidade intestinal”, como se o uso do sotaque francês ajudasse nas idas à casa de banho. Além, claro, de maravilhosas novidades a cair mensalmente nas prateleiras, como o recentíssimo “especial para mulheres maduras” (oh, maravilhoso eufemismo), com (agarrem-se) “isoflavonas de soja e vitamina D”. Da próxima vez que vir a minha avó mais abatida, vou poder-lhe dizer: “Avozinha, isso parece-me falta de isoflavonas. Tome aqui este leitinho.” Obrigado, rapazes da Mimosa. Sem vocês, as minhas idas ao supermercado seriam bastante mais rápidas – mas muito mais aborrecidas.