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As virtudes da incerteza

por João Miguel Tavares, em 19.06.14

Eu prometo por antecipação não me voltar a meter em combates de pediatras, mas quero chamar a atenção para um comentário da Maria, que tem estado empenhadíssima a defender González contra Estivill na caixa deste post. Eu critiquei-a por estar a ser um bocadinho agressiva na resposta a outros leitores e pedi um pouco mais de sentido de humor, já que não estávamos propriamente a falar do genocídio do Ruanda. A Maria respondeu o seguinte:

 

Compreendo o comentário, mas como sabe há assuntos que nos são demasiado importantes para conseguirmos discuti-los levianamente! É exactamente este o busílis da questão! É que nas coisas que realmente importam as crianças aparecem sempre em último na lista de prioridades e de direitos humanos (ao contrário do que o João parece pensar!)

Sim, porque não se trata de andarem na equitação, aprenderem piano e a falar 5 línguas, mas de não merecerem a atençãozinha de serem confortadas quando choram ou de comerem até estarem satisfeitas ou sofrerem [punições] físicas quando um terceiro acha que se justifica! 

Parecem ser as únicas a quem é aceitável deixar sofrer, desrespeitar e humilhar! Caramba, às vezes nem acredito que este assunto seja discutível! Se estivéssemos a falar de violência domestica ou de abuso psicológico entre cônjuges, o João nem sequer me colocaria esta questão, certo? 

P.S. Nenhum de nós tem memória dessa altura da nossa vida, mas quem sabe se para um bebé que acorda sozinho a meio da noite não é como estar num meio de um genocídio no Ruanda! Ou o João acha que tem consciência de que temos portas e paredes? 

 

Por esta altura já toda a gente conhece a minha enorme alergia a quaisquer comparações que misturam palmadas no rabo ou, no caso em apreço, uma criança a chorar na cama, via método Estivill, com violência doméstica ou abuso psicológico de cônjuges. Acho um absurdo homérico este tipo de equivalência, mas é daquelas coisas: se as pessoas não conseguem vislumbrar a diferença, também não sou eu que as vou convencer.

 

O que me interessa aqui é sublinhar um outro ponto, que eu também já referi várias vezes, mas que para mim tem uma enorme importância. Os pais actuais preocupam-se demasiado. Os pais actuais vivem excessivamente em função dos filhos. E o que o discurso da Maria supõe, independentemente de concordarmos ou não com os seus métodos, é um centramento da nossa vida nas necessidades dos nossos filhos. Nós vivemos para dar uma resposta às suas exigências.

 

É certo que a Maria faz uma observação pertinente num comentário anterior: 

 

Em relação aos meninos terem que comer tudo o que está no prato (só porque foi assim que eu aprendi e porque sou eu quem manda aqui, porque tenho imensa auto-confiança principalmente ao exercitá-la defronte a um menor de meio metro), não lhe parece que obrigá-los a comer significa aumentar exponencialmente o tempo que se orbita em volta dos pequenos?

 

É uma óptima observação, só que eu tenho dificuldade em compatibilizar esta atitude com a do "se ele chora dou colo" ou "se ele não quer dormir sozinho é porque tem medos ancestrais e há que consolá-lo".

 

Os filhos não são o nosso alfa e o nosso ómega. Eles não são (ou não devem ser) o centro do nosso mundo. E este relaxamento (que os pais têm tanta dificuldade em ter, começando por mim) que eu defendo não é laxismo - é uma procura de equilíbrio pessoal e familiar, que passe por nos manter felizes e não deixar que os filhos estabeleçam as regras do nosso agir.

 

Um sintoma desse centramento que eu critico é precisamente a forma tão séria como a Maria aborda estes assuntos, como se não tivesse a menor dúvida de como agir em relação aos seus filhos, como se estivesse na posse de todas as certezas, como se houvesse uma fórmula universal da boa educação infanto-juvenil, aplicável a todas as famílias e a todos os filhos.

 

Essa fórmula - é o meu dogmatismo - não existe, Maria. Eu tenho dúvidas diárias, acho mesmo que o que resulta para uns não resulta para outros, e suponho que seja por isso que neste blogue se fazem tantas piadas, se valoriza o sentido de humor e se gosta de discutir com as pessoas.

 

Partirmos da convicção das nossas próprias insuficiências é um bom caminho para evitar dizer coisas como "nem acredito que este assunto seja discutível!", ou achar sinceramente que a angústia de um bebé que acorda sozinho a meio da noite é comparável ao genocídio no Ruanda. Eu posso provar que não é? Não posso. Mas terrores nocturnos todos nós tivemos. E genocídios, felizmente, não acontecem todos os dias.

 

O excesso de relativismo é bastante perigoso. Mas o excesso de dogmatismo ainda é mais.

 

publicado às 10:15


55 comentários

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De Moreno a 20.06.2014 às 16:23

Apenas por desabafo e sabendo de antemão que me vou expor aos "terríveis tentáculos" da critica dos demais vou partilhar a minha experiência.
Tenho 2 filhos, um menino com sete e uma menina que faz dois anos na próxima semana. Sou uma espécie de mãe solteira, entenda-se espécie, pois embora casada, há quase 4 anos que o meu marido só vem a casa ao fim-de-semana, e quando pode, ficando assim a meu único e exclusivo cargo a educação e a gestão dos filhos, aliado a um emprego das 8h30 às 18h30m. Não posso contar com a ajuda de familiares, pois a minha mãe vive a 500 Km e os meus sogros a 90Km, e onde vivo não tenho família, ou seja, não mais ninguém com quem contar.
Após esta, não muito breve história, e para que percebam, eu TENHO SAUDADES DE MIM, passo a explicar estou cansada de todas estas questões que se levantam em torno da parentalidade. EU FAÇO O MELHOR QUE POSSO, e de facto há dias em que apetece dizer basta, preciso de ser eu em primeiro, porque para educar crianças e torna-los em seres equilibrados felizes EU TENHO DE ESTAR EQUILIBRADA E FELIZ e por vezes toda a pressão e "MANIA" de que "EU É QUE SEI" não é bem assim, cada um faz, ou tenta fazer, aquilo que entende por melhor para si e para os seus e há que respeitar a posição dos outros estejamos ou não de acordo - A isto chama-se respeito e viver em sociedade. Podemos exprimir a nossa opinião e até ser aguerridos nessa defesa, mas sem esquecer que existe livre arbítrio.
considero-me uma boa mãe e os meus filhos são os meus maiores tesouros (cliché, mas verdade), mas se tiverem um comportamento, que eu entenda por incorrecto, ajo de acordo, com um castigo ou, em situações extremas, uma palmada no rabo (o mais velho tem 7 anos e é educado nem está traumatizado por ter levado 3 ou 4 palmadas na sua vida.
Quanto aos pediatras.................. como é óbvio são livres de se exprimirem e dizerem o que entendem.
Por fim João Miguel Tavares (desculpe a familiaridade no trato, mas como costumo ler o seu blog, sinto-o como um amigo) e levando para a brincadeira sou a favor do MLPP (Movimento de Liberdade para os Pais) - amamos os nossos filhos, mas não deixamos de ser gente........

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