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Faz mal bater às crianças?

por João Miguel Tavares, em 26.02.13
A propósito deste post e do tau-tau, escreveu um leitor:

Definitivamente, ainda serão precisos muitos anos (ou mesmo séculos) para que os pais (não todos, felizmente) e a opinião pública em geral (não toda, felizmente) perceba que o castigo físico que muitos pais ainda utilizam para educar os filhos não é legítimo, tal como outra qualquer expressão de agressão de um ser humano para outro (mesmo que seja para afastar a mosca como muitos dizem em sua defesa). Nesse dia, bater num filho (ainda que com o pretexto de estar a educá-lo) será tão condenável como hoje já é a agressão do marido à mulher (agressão esta que outrora também foi prática corrente, aceite e justificável).


Ora vamos cá ver. Em primeiro lugar, seria de bom tom não fazer comparações entre a palmada que um pai dá no rabo de uma criança e a agressão de um marido a uma mulher. É uma comparação de tal modo desproporcionada que nunca dá bom resultado. Mas eu percebo que o leitor tenha chegado a ela, porque todo o raciocínio parte da premissa de que há uma igualdade entre pais e filhos que proíbe o castigo físico ("agressão de um ser humano para outro"), já que ambos são seres humanos.

Recuso em absoluto essa tese. É verdade que ambos são seres humanos, mas não há, de todo, uma igualdade entre pais e filhos, e tratar os filhos como nossos iguais é mau para ambas as partes. A hierarquia pai-filho deve estar bem estabelecida, não tanto por nossa causa, mas por causa deles - é ela que lhes dá segurança. E nesses aspecto, uma palmada no rabo ou uma estalada na mão desempenha o seu papel numa fase em que as crianças são demasiado novas para compreenderem argumentos racionais - ou, mesmo quando os compreendem, insistem ainda assim em passar dos limites.

Pode ser que haja pais fabulosos que consigam, sem recurso à palmada ou ao grito (que eu também pratico muito, às vezes mais do que gostaria), educar exemplarmente os seus filhos. Se assim for, ofereçam-me um workshop, se faz favor. Eu nunca consegui. Até por volta dos sete anos, aquilo que o leitor chama tragicamente de "castigos físicos" a mim sempre me pareceu uma ferramenta educativa essencial. A partir dos sete, a criança ganha uma autonomia, um nível de responsabilidade e de compreensão das coisas que tornam a palmada desnecessária, a não ser em caso de catástrofe comportamental. Há, evidentemente, um altura para parar de bater, como demonstram alguns estudos). Eu não me lembro da última vez que bati à Carolina.

Mas o Gui de vez em quando apanha, sim. E apanha porque, ao contrário de tanto discurso cor-de-rosa, educar também é domesticar. Além de inteligência e racionalidade, nós temos um lado animal fortíssimo, e a civilização, que é aquilo que nos afasta dos bichos, é uma construção milenar altamente castradora. Comer com talheres, lavar os dentes, pentear o cabelo antes de ir para a rua, cumprimentar o vizinho, nada disto são actos naturais. É mais giro comer com as mãos, andar desgrenhado, não falar a ninguém.  Educar é impor, é domesticar, é castrar, e para um libertário é até uma coisa muito feia de se fazer - porque nos uniformiza, torna-nos a todos demasiado parecidos. Mas eu não sou libertário. Sou mais para o conservador, e acredito nas vantagens da disciplina e na imposição de regras que nos ajudam a orientar ao longo da vida.

Toda a gente sabe que os homens são animais racionais, mas depois concentramo-nos demasiado no adjectivo e esquecemos o substantivo. Animais, sim. Somos bichos num eterno processo de domesticação (e muitas vezes a lutar contra ele). E a experiência diz-me que as palmadas que doem não são as que batem com muita força. São as injustas. E essas, sim, eu esforço-me ao máximo para as evitar. 

publicado às 09:32


82 comentários

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De João Miguel Tavares a 11.10.2013 às 17:53

Cara Teresa, agora fiquei eu curioso: não quer mesmo elaborar mais um pouco sobre o que pensa de tudo isto? De facto, eu não estou habilitado para conselheiro educacional, mas gostava de conhecer as suas convicções sobre este assunto.
Sem imagem de perfil

De Teresa Muge a 15.10.2013 às 23:12

Caro João Miguel

Fiquei muito surpreendida com o seu contacto. Não tenho muito o hábito de viajar por blogs a dar opiniões. Mas gostei deste por já gostar do 'mimo' que os homens precisam e passei a segui-lo. Não é só por isso. Sou uma apaixonada pelas questões da educação. Gosto de pessoas, pronto! Na base, sou Educadora de Infância – é uma espécie de camada de pele, às vezes à flor, outras ao fundo, mas está cá; vários anos virei frangos em diferentes Jardins de Infância, naquela espécie de nomadismo que a profissão proporciona aos mais afoitos, ou que não precisam de ficar numa grande cidade ou perto de casa, ou que qualquer outra coisa para serem profissionalmente felizes. Depois, estive vinte e tal anos a virar outros frangos numa universidade, a trabalhar como docente na formação de Educadores de Infância. Isto criou-me ainda uma outra pele que, não sendo a mesma, às vezes se confunde com a primeira. No entanto, nesse papel ou circunstância de formadora 'estou-me nas tintas' para os ou as Educadoreas: o que me interessa mesmo são as pessoas crianças ― portanto ETs ― com quem elas irão trabalhar; por isso é que não me estou nas tintas para as pessoas educadoras. Rebuscado? Peço desculpa, às vezes custa a dizer certas coisas. Pronto, no geral, são estes os meus pergaminhos.
Agora preciso ainda de pedir desculpa pelo meu pedantismo de especialista: não é vaidade, é cansaço, é sentimento de impotência... 'Toda a gente' sabe alguma coisa de educação que pode ser útil. Os pais de cada criança ― não assim como um todo amorfo, mas os pais concretos de filhos concretos ― sabem muito da educação dos seus filhos. É por isso que eu acho que o papel de um especialista, por exemplo, em relação educativa, não é o de substituir os pais dizendo-lhes o quê, como, quando, onde... "devem" fazer isto ou aquilo. Vejo mais utilidade nessa figura de consultoria, mas da boa; ou seja: tu pões um problema - ele ajuda a formular/reformular as perguntas - ele vai-te oferecendo instrumentos de pensamento e acção te podem ajudar a construir os teus próprios roteiros de procura de respostas.
Por exemplo: 'Faz mal bater nas crianças?' - a questão está mal colocada. Se perguntasse à Teresa-sua esposa: 'Faz mal dar paracetamol às crianças?' ― se calhar ela diria o mesmo. E depois a coisa teria de se ir afinando entre ambas as partes até se falar a mesma língua e se poder começar a conversar de facto!
Assim, para podermos continuar a conversar, vou deixá-lo com uma(s) pergunta(s): acredita no potencial humano para se tomarem decisões boas para si e para os outros? acredita que este potencial se pode desenvolver desde a nascença? acredita que os putos pequenos podem ir desenvolvendo este potencial desde muito pequeninos?
OK! ― não o vou deixar sem tentar responder a seco à tal pergunta mal colocada com outra(s) pergunta(s): Mesmo que mal possa não fazer, para quê bater? — (atenção que não perguntei 'porquê', pois podia responder 'porque sim' e a conversa deixava de ter sentido); Faz bem às crianças apanharem de quem é maior, mais forte, mais pesado, que conhece muitas mais coisas do mundo físico, do mundo lógico-matemático e do mundo das pessoas e ainda por cima sabe muitas muitas palavras?
Só mais um favor: veja, num dicionário muito bom, o que é que quer dizer 'sancionar' (é só para não andar aqui a enrolar se houver próxima vez).
Um abraço a toda a família - em especial aos ETs, sua esposa Teresa e para si, com admiração pelo seu trabalho.
Teresa Muge

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