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Porque é que o mundo é uma coisa complicada 2

por João Miguel Tavares, em 23.05.13
A questão da pobreza e da riqueza e da atitude que assumimos perante a vida pode ser ilustrada com a tão badalada troca de argumentos entre o Martim e a Raquel no programa Prós & Contras de segunda-feira, que podem ver aqui:


A reposta do Martim - "quem ganha o salário mínimo pelo menos não está no desemprego" - fez rejubilar os blogues de direita. Percebe-se porquê. E a ter de escolher um dos campos - estás com o Martim, ou estás com a Raquel? - eu não teria dúvidas em dizer que estou com o Martim.

Mas isso não significa que a preocupação da Raquel não tenha razão de ser. Quando nós olhamos para estas fábricas no Bangladesh de roupa para alimentar a Europa e os Estados Unidos



que depois acabam nisto


é difícil que não exista um estremecimento de consciências. É inadmissível que as pessoas trabalhem nestas condições. Mas eis o que é tragicamente complexo: embora estas condições de trabalho sejam péssimas e inadmissíveis, elas permitiram ainda assim tirar milhões de pessoas da pobreza extrema em todo o mundo. A deslocalização de fábricas americanas ou alemãs para o terceiro mundo, em busca de maiores lucros - a ganância capitalista, como alguns lhe chamam -, possibilitou crescimentos homéricos em países como a China e a Índia. E - pior - é esse mesmo crescimento que hoje em dia está a afundar uma economia como a portuguesa, por exemplo, porque isto anda tudo ligado.

A verdade é que não é possível comprar vestidos tão giros na Zara, na H&M ou na Primark àqueles preços e depois esperar que eles sejam feitos no Vale do Ave pagando 1000 euros por mês a cada trabalhador. Ou seja, há sempre uma linha muito fina a separar o moralismo da hipocrisia. Da economia de mercado se pode dizer o mesmo que Churchill dizia da democracia: é o pior sistema com a excepção de todos os outros. O certo é que, com toda a injustiça que ele promove, a economia de mercado foi responsável, como nenhum outro sistema, pelo melhoramento da vida de biliões de pessoas.

É a chamada mão invisível que Adam Smith teorizou em A Riqueza das Nações: cada pessoa procurando com o máximo empenho os seus interesses individuais acaba por conduzir a uma melhoria geral das condições de vida das sociedades. Nesse sentido, é mais útil à economia o rico que coloca o seu dinheiro a circular à vista de todos (a acusação que me fizeram nos comentários deste blogue - embora, infelizmente, eu esteja muito longe de ser rico) do que o Tio Patinhas com que tenho ilustrado os meus textos, um avaro que adora mergulhar para dentro dos milhões que guarda no seu cofre-forte. Esse, sim, é um mau rico - porque é um rico inútil, que não utiliza o seu dinheiro para melhorar a vida dos outros, criando emprego.


Eu, por exemplo, odeio que me transportem as malas para o quarto de um hotel e nunca deixo as bandejas na mesa num centro comercial. Mas se todas as pessoas tivessem esta minha suposta humildade, o resultado é que alguns empregados de hotel e algumas empregadas de limpeza dos centros comerciais iriam para o olho da rua, porque não seriam necessários.

A grande questão, pois, está em conseguir o equilíbrio entre o empreendedorismo do Martim e a luta pela justiça da Raquel. Ambos são sentimentos altamente louváveis - mas vivem numa evidente tensão na forma como a nossa sociedade está organizada. O nosso eterno desafio, pois, como pessoas que procuram ser justas e contribuir para um mundo melhor, está em viver num estado de lucidez e empatia permanentes, tentando a cada momento destrinçar qual o melhor caminho para as nossas acções.

Isso prende-se, inclusivamente, com outras questões, que também são um desafio para qualquer pai: o que fazer quando alguém pede esmola na rua diante dos nossos filhos?

A minha opinião fica para um próximo post, que este, tal como o anterior, também já vai grande demais. Mas digam-me, por favor: o que é que vocês fazem quando isso acontece?

publicado às 14:32


29 comentários

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De Nuno a 21.08.2014 às 11:02

Olá! Ao ler o texto, fiquei a pensar sobre a a ideia de que a fronteira entre moralismo e hipocrisia é sempre ténue. Primeiro tentei uma definição de moralismo/moralista.

O moralista é alguém que sente necessidade de impor as suas convicções, julgando à priori erradas as visões divergentes da sua. Daí que seja também egocêntrico. A ignorância de causa é também ingrediente neste soufflé, ela é a semente das convicções surdas e ocas uma vez que o conhecimento fomenta a dúvida e a abertura de espírito. O moralista é alguém de julgamento fácil e pouco fundamentado, feito com base na extrapolação exclusiva do eu para o outro, caindo com facilidade na falácia argumentativa. A hipocrisia pode existir mas não é o que caracteriza um moralista: isto acontece quando impostos os princípios e valores que o próprio (de forma dissimulada) não representa. Um homofóbico homossexual, um hippie a viver no luxo, etc.

Parece-me então que o falso moralista é um moralismo hipócrita, enquanto que o moralismo também pode existir sem hipocrisia e apenas com obstinação
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De isabel a 29.05.2013 às 11:48

só uma rectificação, os trabalhadores e as trabalhadoras do Vale do Ave ganham na sua grande maioria o salário mínimo, 485 euros. Há mulheres a trabalhar há mais de 30 anos na mesma confecção e que continuam a ganhar o salário mínimo.
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De Anónimo a 29.05.2013 às 11:20

Outro texto que penso que contribui para a discussão e reflexão:
http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EMI247981-15230,00.html
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De Anónimo a 28.05.2013 às 16:17

Pois eu gostaria muito que o meu marido estivesse neste momento a ganhar o salário minimo. Não é chico espertismo tuga, é necessidade de fazer à minha filha o mesmo que vocês fazem aos vossos, e por vezes não consigo. E falo de coisas básicas. Não falem quando não sabem e não passam por elas.
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De Ana Candeias Oliveira a 27.05.2013 às 23:06

Na minha experiência - que costumo oferecer comida se tiver, ou me ofereço para a ir comprar se houver onde por perto e tiver tempo para o fazer - há quem agradeça e aceite (ainda no domingo passado, nas ruas do Porto, me arrepiou a forma como um arrumador de carros se afastou a abrir sofregamente a embalagem do hambúrguer e trinca-lo como se não comesse há décadas, e se calhar não comia há muito... nunca tinha visto ninguém "atirar-se" assim à comida :( - também é comum as pessoas aceitarem e guardarem); mas também já me aconteceu - diversas vezes e sobretudo à porta de supermercados (não sei porquê, é estranho...) pedirem-me moedas e eu oferecer comida (nessas situações é fácil,porque vou carregadinha) e recusarem. Aí sigo a minha vida, não descansada mas conformada. Nunca me reagiram mal à oferta de comida.
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De 34 em frente a 27.05.2013 às 18:23

Já por várias vezes, dei uma moeda à minha filha de 4 anos, para dar a quem estava na rua a pedir. Tem muito tempo pela frnte para, daqui a uns anos, distinguir quem pede por necessidade ou por outra coisa qualquer! Há umas semanas atrás, uma senhora veio pedir-me ajuda, e lá começou c a história do filho e AVC e outras tantas complicações. Tocou-me imenso e disse-lhe que dinheiro não lhe dava, mas que lhe dava um saco de pão. Ficou de voltar para vir buscar o saco e até hoje!! Ainda assim, prefiro que a minha filha, ganhe sentido de partilha e solidariedade e, sempre que puder que ajude o próximo!
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De Patty a 26.05.2013 às 22:46

Já pensei em fazer o mesmo. Como reagem as pessoas? Obrigada.

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De Anónimo a 26.05.2013 às 17:26

A resposta do garoto - "quem ganha o salário mínimo pelo menos não está no desemprego", é a resposta típica do chico-esperto tuga que não consegue ver para além do seu umbigo.
Aqui está uma parte importante da principal questão...
http://www.publico.pt/sociedade/noticia/natalia-trabalha-12-horas-por-dia-seis-dias-por-semana-mas-tem-que-pedir-ajuda-para-comer-1595560.
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De luisa a 25.05.2013 às 14:57

Para além da questão das roupas e marcas a fabricar nesses países acho que as pessoas deviam reflectir mais sobre as acções no dia-a-dia que tiram empregos ás pessoas, como falou no post. Eu faço um esforço por, por exemplo, por gasoleo em bombas que tenham funcionarios para por e nunca vou a caixas de self-service nos supermercados...é o principio do fim dos postos de trabalho destas pessoas...com o passar dos anos pode ser o meu!claro que não vou deitar lixo para o chão para apanharem por mim...mas devia-se pensar melhor sobre isto. Há uns tempos o meu pai precisou de ir ao banco fazer uma operação e a senhora muito indignada perguntou-lhe se não tinha net-banking, que podia perfeitamente fazer aquilo em casa,que era mais comodo etc,etc...o meu pai respondeu-lhe que não tinha e se toda a gente pensasse como ele, em vez de dois funcionários talvez precisassem de uns 5 na agência...ela engoliu em seco...
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De Ana Candeias Oliveira a 25.05.2013 às 09:33

Bom dia. Sou seguidora assídua do blog. Nunca comento. Ma como desta vez faz uma pergunta diretinha para aqui, cá vai: Quando veja alguém a pedir na rua, com ou sem os filhos por perto, dou comida (bem sei que não resolve nada, mas aconchega, e isso não posso recusar a um irmão), se não tiver comida e tiver um tempinho vou comprar (e em ambos os casos tenho o cuidado primeiro de perguntar se gosta, que a fome é coisa séria, pois é, mas a dignidade das pessoas também é uma coisa muito bonita...e deve ser respeitada). Paralelamente a estes "encontros imediatos", que não são tão frequentes quanto isso, contribuímos economicamente e em géneros para instituições aquém e além mar (há muitos organismos de ação social que funcionam MUITO BEM, e que acompanham de forma séria e valiosa crianças, jovens, famílias, idosos... com identificação clara dos casos de necessidade e acompanhamento ao longo do tempo - mas não lhe estou a dizer novidade nenhuma, bem sei); e participamos em família e como voluntários em campanhas de solidariedade (os pequenos vestem literalmente a camisola do Banco Alimentar desde meses de vida - empatam mais do que ajudam, mas vão aprendendo os "ossos do ofício"). Os garotos ainda são pequenos (2 e 5 anos) mas a nossa esperança é que à medida que vão crescendo percebam não só que existem pessoas que vivem realidades bem mais difíceis do que a nossa mas (e sobretudo) que isso NOS diz respeito. A nossa esperança é que ao crescerem acompanhados de molduras com fotografias da Teresinha (a nossa "afilhada" em Moçambique, através do projeto https://www.facebook.com/pages/Eu-Tu-Na-Avomacc/122217791173615?fref=ts ) e ao verem que em muitos dos seus aniversários receberem poucos presentes mas entregaram um montão deles na Casa de Sant'Ana, das Irmãs do Bom Pastor, em Pexiligais (Sintra), porque os convidados das festinhas de aniversário a isso foram desafiados e aderiram em massa (ricos amigos!) achem isto tudo perfeitamente NORMAL. E quando forem mais crescidos e perguntarem porquê dar assim e não assado... Aí procuraremos explicar. Mas DAR/PARTILHAR fará parte da sua identidade, assim esperamos...

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