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Faz mal bater às crianças? Parte II

por João Miguel Tavares, em 26.02.13
Em relação aos inúmeros comentários a este post, queria saudar a forma civilizada como a discussão está a decorrer, sem demasiadas palmadas verbais (coisa que é raro acontecer na blogosfera). E, de caminho, aproveito para acrescentar algumas notas:

1. No próximo Santo António vou arranjar um manjerico e espetar nele a seguinte quadra: "Quem consegue educar/ sem levantar a mão/ terá para todo o sempre/ a minha admiração." Eu acho que deixei isso claro no meu post: quem acredita nisso, pratica isso, e consegue que isso funcione, faça workshops, por favor. Este blogue prova diariamente - gosto eu de acreditar - que não sou nenhuma espécie de modelo como pai e que deve haver muitas dezenas de milhares de gajos e gajas com muito mais talento para esta actividade do que eu. Se enfio umas palmadas nos rabos dos meus filhos é porque nunca consegui educá-los convenientemente sem lhes chegar a roupa ao pêlo. Pode ser falha minha, com certeza. Mas acho a tal domesticação civilizacional inevitável, e nunca encontrei outra forma eficaz de exercer a actividade. Num dos comentários, a Céu Franco deu o óptimo exemplo de uma criança muito pequena a meter os dedos nas tomadas eléctricas. Alguém sabe convencê-la a não enfiar lá os dedos utilizando apenas pacientíssimos "isso não se faz?". Ensinem-me, sff, que em breve vai dar-me jeito para usar com a Rita.

2. Como explica a Sofia Carvalho no seu comentário, os filhos são mesmo diferentes uns dos outros, e nestas coisas da pedopsiquiatria caseira nós acharmos que existe uma fórmula perfeita e universal é uma grandessíssima treta.  Os filhos, as famílias e as circunstâncias são demasiado complexas e variáveis para alguém ter o atrevimento de achar que existe a solução, única e definitiva. O meu filho Tomás fica muito mais afectado com uma descompostura do que com um açoite, e portanto muito raramente lhe toco com um dedo. Já o meu filho Gui está-se nas tintas para a dialéctica e para todas as teses, antíteses e sínteses que não metam falangetas. E portanto...

3. Ainda nos comentários, a Helena defendeu efusivamente a tese da não-agressão, que eu não me sinto minimamente preparado para rebater cientificamente, embora seja fácil encontrar estudos que dizem o contrário. Mas, como dizia alguém, estudos deste género há para todos os gostos. O que eu queria aqui rebater é uma tese que está implícita nas suas intervenções, que é a de haver países mais avançados em termos de civilização e educação. Eu tenho muito inveja das instituições suecas, mas no que diz respeito à família diria que a cultura mediterrânica não tem muito a aprender ali. Os nossos laços familiares têm uma força com que os suecos nem sequer sonham. Eu não me importava nada de importar o seu Estado social mas deixem-me por favor ficar com as minhas famílias ibéricas trauliteiras. Em relação aos Estados Unidos, então, nem vale a pena falar - basta abrir a televisão.

4. A IndieGirl diz: "Bater nunca é legítimo! Dar um estalo a uma namorada é o fim do mundo, mas bater a um ser indefeso, que está a crescer, é educativo?!?!?" Por favor... Como disse, não só percebo como invejo quem educa sem levantar a mão. Mas comparar uma palmada numa criança com uma estalada numa mulher é um absurdo total. Uma criança de três ou quatro anos está num processo muito inicial de desenvolvimento e o castigo físico só é aceitável por se entender que é a forma mais eficaz de a impedir de repetir um gesto impróprio. Gesto esse que, em última análise, a prejudicaria a ela, como no caso acima citado de enfiar os dedos na tomada. De que forma é isso transponível para um quadro de violência doméstica? Não faz qualquer sentido.


publicado às 23:32


27 comentários

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De Helena a 27.02.2013 às 13:45

Também quero elogiar os comentadores, que estão a fazer um debate muito enriquecedor sobre um tema que é civilizacional e simultaneamente muito pessoal, porque põe cada um de nós e também os nossos próprios pais em cheque.
Quanto a este post, e seguindo os mesmos pontos:

1. Workshops: parece-me que a comentadora "Mom's the boss" era capaz de fazer isso. Se há realmente interesse, talvez fosse boa ideia falar com ela.
Quanto às tomadas eléctricas: na IKEA vendem-se umas tampinhas muito baratas para espalhar pela casa toda. Não admira que na IKEA haja muitos produtos para protecção das crianças: como é proibido bater nos bebés, a sociedade teve de arranjar outras maneiras de os proteger dos perigos.

2. Inteiramente de acordo: as crianças são todas diferentes. Até há as que nem à pancada aprendem. E a essas, o que se faz?

3. Sobre esse estudo que afirma que bater às crianças não as traumatiza e até é bom para elas:
- É verdade que se numa sociedade determinado comportamento é normal e aceite por todos, as crianças ficam menos traumatizadas. O problema é que em Portugal já não é tão aceite por todos que se bata nas crianças. Pelo contrário - até é proibido por lei.
- No fim do artigo, sugere-se uma hipótese para explicar os resultados estatísticos (que mostram que as crianças que foram educadas sem castigos corporais não têm melhores resultados que as outras): estas crianças serão provavelmente filhas de pais que têm problemas com a sua própria autoridade, e "passam a vida a reinventar a roda". Ora, nós não estamos aqui a discutir a escolha entre educar e não educar, mas entre educar com ou sem violência física.
Acredito que é possível educar sem violência física, e mais: a partir do momento em que os pais põem esses métodos "pedagógicos" de parte, mantendo contudo as certezas quanto à sua autoridade e à necessidade de serem firmes, encontram facilmente outras maneiras de continuarem a cumprir o seu dever de educadores.
O problema é que a vida profissional muitas vezes exige tanto aos pais que estes acabam por não ter o tempo, o distanciamento, a calma e a paciência para educar os filhos sem recorrer à palmada. Há aqui uma situação delicada: por um lado, não incutir sentimentos de culpa aos pais a quem a mão às vezes escorrega; por outro lado, não aceitar que a palmada seja um método pedagógico aceitável, só porque os pais não têm tempo nem energia para usar outros métodos.

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De ruterata a 27.02.2013 às 12:34

Bom dia
Pois bem...o meu marido NUNCA bateu no meu filho mais velho e já deu duas palmadas na mão do meu mais novo (em 5 anos de existência). E o meu Pai NUNCA me bateu. Ups, alguêm vai ganhar um prémio...E no entanto, no caso do meu marido, basta ele abrir os olhos que é ver os rapazes em sentido...

Eu também não tenho o hábito de lhes bater, mas grito, ah se grito...E não gosto de ver pais a baterem nos seus filhos...deixa-me arrepiada. E ainda mais arrepiada fico quando oiço médicos/pediatras/etc, a defenderem a palmadinha na TV.

O conceito de palmadinha não é igual para todos nem interpretado da mesma maneira por todos. É preciso cuidado. Até porque a mão de um homem no rabinho duma criança não tem o mesmo impacto de uma mãe. E às vezes, quando estamos mais enervados a mão solta-se...

Uma coisa é certa, e disso não abdico. Eles têm que perceber que quem manda lá em casa são os Pais. E isso pode ser conseguido de outras formas. Dou um exemplo prático. Mando-os sentar no sofá a pensar e a reflectir no que fizeram de mal durante algum tempo...(eles acalmam e eu também). E quando há mais gente em casa, levo-os para o quarto e converso em privado.

Mas atenção, cada um educa como entende, pode, defende, etc...não faço juízos de valor...mas realmente não gosto da palmadinha e tenho me dado bem neste longo caminho que é a educação dos nossos filhos!!!

Eu tenho como a idade em que eles começam a entender e a pôr em prática os 500 NÃOS que lhes ditamos diariamente, aí apartir dos 5 anos (pelo menos lá em casa foi assim :)
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De Carla Isabel a 27.02.2013 às 12:07

Eu continuo a achar que uma palmada no rabo, na hora certa, não faz mal a ninguém!!!
E quando digo palmada, não é um espancamento, é uma palmada, uma sacudidela de pó, como costumo dizer...
Só em tom de reparo, é por causa destas coisas (ah e tal nao devemos dar uma palmada que é logo violência) que muitos miudos de agora estão como estão...não obedecem aos pais, nem aos professores...e mais não digo...eduquem-se os pais!
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De Working Mom a 27.02.2013 às 11:59

João, acho que me revejo totalmente no seu post. Tenho um menino de 5 e uma menina de 3 e é verdade que o primeiro levou mais palmadas que a mais nova, mas acho que todos os pais interessados com a educação dos filhos, tentam melhorar as atitudes com o passar do tempo. Também tive a tarefa facilitada a partir dos 3 anos com o mais velho pois bastava ameaçar que lhe tirava o Ipad e era remedio santo. Já sei que se vão levantar vozes contra o uso das novas tecnologias em crianças tão pequenas mas sempre é melhor que algumas palmadas. Agora o que me vale é a ameaça que não vai ao treino de futebol e com a mais pequena basta apagar a tv. Serão correctas estas ameaças? se calhar não, mas com a minha familia funciona e não acho que os meus filhos tenham algum tipo de problema psicológico derivado destas ameaças. O que é válido e funciona na minha familia poderá não ser o melhor para outra familia, mas umas palmadas quando proporcionais às asneiras e aplicadas na altura certa são um correctivo como qualquer outro. Noto que grito muito mais com a mais pequena do que gritava com o mais velho e também estou a tentar melhorar neste aspecto, pois sei que não é o melhor método mas ninguém é perfeito, e quem for que faça um workshop se faz favor!
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De Viajante a 27.02.2013 às 11:13

João, aplaudo o seu post. É isso mesmo. E quanto à questão das famílias mediterrânicas, isso é mesmo assim e não poderia estar mais de acordo. Não vivi na Suécia mas tenho grande parte da família aí pela Europa fora e que integra diferentes nacionalidades. Que me perdoe o comentário da habitante na Suécia, que felizmente conhece bons exemplos, mas a regra não é essa. Efectivamente, os que cresceram nesses sítios e são filhos de nacionalidades mistas são pessoas completamente diferentes e muito mais individualistas em termos de AFECTOS. E subscrevo, João Miguel - venha o estado social, mas a nossa vivência familiar prefiro-a sem qualquer sombra de dúvida.
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De Cátia Mendes a 27.02.2013 às 10:38

Muito obrigada pela partilha, também não sou apologista da palmada, mas depois acabo por berrar um bocadinho :-D mas realmente essas suas técnicas são muito positivas. Parabéns.

Cátia Mendes
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De Anónimo a 27.02.2013 às 10:33

Quando soube que estava grávida da minha filha fiz-lhe uma promessa (ingénua): ia tentar nunca perder a paciência com ela.
A promessa não é difícil, dado que - mais velha de 3 filhos, com dois irmãos que me faziam a vida negra - sempre me treinei para controlar os nervos, as emoções, etc. Sou uma pessoa calma, não porque sufoque a irritação mas porque consigo - fruto desse treino - colocar as coisas em perspectiva. Mas, sinceramente? Preferia ser do tipo de explodir de vez em quando :)
Seguindo em frente: a minha filha tem 3 anos, e até agora nunca lhe dei uma palmada. Não coloco a ideia de parte, simplesmente ATÉ AGORA tem sido possível educá-la sem recorrer a isso: explico, mostro, ainda que ela não perceba tudo o que digo percebe que há um motivo para eu não permitir certas atitudes e percebe - PERFEITAMENTE, e por agora - quem manda em casa: o pai e a mãe.
Neste exercício de "não palmada" teve de aprender muita coisa à sua custa: queria mexer no saca-rolhas, fez birra; peguei no dito, piquei-lhe (de forma muito muito leve) a mão, e ela percebeu o significado de "dói". O mesmo com as gavetas: insistia que havia de as abrir e fechar, eu dizia não, não não. Um dia deixei que entalasse o dedito (numa gaveta vazia) e aprendeu que a mãe tinha razão :)
De certa forma, são palmadas sem ser palmada. Ela vai aprendendo os limites, a razão do não, e assim se vai levando a coisa. Faz as suas birras, eu respiro fundo, a braço-a, digo que gosto muito dela MAS que isso que ela quer não pode ser. E ela acalma, e respira fundo, e segue em frente. É natural que não entenda o porquê, mas sabe um porquê.
Ah! - e também ainda não foi preciso levantar a voz: reparei um dia que quanto mais alto falava mais alto ela respondia, pelo que desde então a cara séria e o "não!" firme têm resolvido as crises.
Mas isto sou eu, e a minha filha. Os nossos temperamentos. Só nós duas e o pai. Quando tiver irmãos e a estrutura familiar se alterar, de certeza será diferente; quando a explicação deixar de funcionar, de certeza que levará uma palmada no rabo.
Para já, vamos assim: pela conversa, pela explicação. Quando for necessário - e sobretudo LEGÍTIMO - usar outro tipo de persuasão, usarei sem remorsos ou peso na consciência... espero :)

Ana MAria
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De Anónimo a 27.02.2013 às 10:16

Comentei no post anterior que tinha 2 filhos e também utilizava a técnica da palmada, que é tanto ou mais eficaz que com o tempo já nem é necessária, basta o aviso de que a vou aplicar se a asneirada que acontece não se corrigir imediatamente e, normalmente funciona. Isso, acompanhado dos célebre "1, 2, 3", precedido do nome da criança.
Nas idades dos 2, 3, 4 os miúdos estão a testar os limites de tudo, sobretudo dos pais e experimentar a sua independência. Há limites que se explicam e outros que se demonstram. Não há explicações que funcionem (ainda que devam existir sempre porque as coisas repetidas muitas vezes ficam naqueles micro-discos-rígidos) em miúdos de 2 anos, por exemplo (ou mesmo de 1, quando tentam bater com coisas em cima da mesa da sala), mas para obter alguns efeitos mais rapidamente, sobretudo em coisas que compliquem com o dia a dia, nada como uma palmada ou a sua ameaça para acelerar o processo de aprendizagem.
Só um apontamento quanto à questão dos suecos e a propósito de um comentário de um leitor, recomendo a visita ao site www.pop.pt e comparem os dados relativos ao dever de amar e respeitar os pais na suécia e cá e vejam: http://www.pop.pt/pt/grafico/a-familia/dever-de-amar-e-respeitar-pai-e-mae/pt-se/?colors=se-1%7Cpt-0.
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De Sara a 27.02.2013 às 10:08

Há crianças a quem dizemos não e elas ficam sossegadas e obedecem. Outras há a quem dizemos "não" 40 vezes e elas ainda assim voltam a insistir na asneira e pior, com cara de gozo e desafio. Acho as teorias nórdicas e a psicologia positiva muito bonita mas na maior parte das vezes não são aplicáveis. Dependendo da idade dos miúdos e da gravidade da situação - algo que as coloque em perigo por exemplo, deve ser primeiro repreendido e explicado - mas se insistirem no erro, aí mais vale uma palmada do que um ferimento sério. Não dou palmadas por causa das birras. Nesse caso, normalmente aplico a técnica do "vai para o quarto fazer a birra e acalmar-te" e corre bem.
Tenho medo desta geração de crianças cujos pais acham (como li em alguns comentários) que o uso da palmada poderá "traumatizar" ou levar a "bullying". Os míudos têm de ser frustrados , tem que se lhes dizer "não". Alguns acatam a palavra outros precisam de um reforço. Quem não souber dizer não, seja pela palavra ou com uma palmada vai ter muito mais do que um adolescente traumatizado. Vai criar uma criança egoísta, sem noção dos limites e sem qualquer tolerância à frustração.
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De Anónimo a 27.02.2013 às 10:02

Eu tenho uma menina de 15 meses e apesar de em quase tudo poder afirmar e (roam-se de inveja) é mesmo uma santinha..ser raro acordar a noite e fazer birras para comer.. também tem as suas ondas e também tem direito aos seus maus dias..e está mesmo naquela fase de testar, de ser teimosa e teimar em fazer as coisas que ela quer e mexer no que ela quer..o que ja me valeu valentes sustos(temendo pela sua segurança). o que quero dizer é basicamente o que o João ja disse..cada criança é unica mas quem me diz que nunca deu uma palmada na fralda nestas idades ate aos 2-3 anos que eles simplesmente ignoram deliberadamente o que dizemos..a serio...venham ensinar-me! eu considero-me muito calma e respiro fundo 3 vezes antes de ir ver os estragos e ralhar com ela..tento explicar..juro que tento.. e quando eu digo que Não se faz e ela estica o dedo e abana e diz não não não percebe perfeitamente que não se faz..e se viro as costas puff la está ela outra vez..é testar os limites e eu também tenho os meus...a palmada não educa... também não acredito que o "oh querido o menino não faça isso sim?" tenha grandes resultados.. é algures um meio termo...
Mary

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