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O analfabético e a água a abismar no lavatório

por João Miguel Tavares, em 18.04.15

Fazer o trabalho de casa de Português com os putos proporciona com frequência momentos de grande galhofa, ainda que diferida - num primeiro momento desesperamos, dois dias depois gargalhamos. Os miúdos nesta idade ainda não sabem muita coisa, mas já acham que sabem, e mesmo quando não sabem estão sempre disponíveis para inventar.

 

Regra geral, eles têm a auto-estima muito lá em cima, e adoram atirar à cara dos irmãos os alegados conhecimentos que já possuem e os outros ainda não. A Carolina adora dizer ao Tomás "o queeê?, não sabes isto?!?". O Tomás adora dizer ao Gui "o queeê?, não sabes isto?!?". E o pobre do Gui, regra geral, não tem ninguém para dizer coisa alguma, porque a Rita ainda é muito pequena para entrar em competições de cultura geral. 

 

Mas o mais divertido é quando os mini-detentores de tão grande sapiência cometem vistosas argoladas. Ainda há dias, o Tomás, que é um barra a cálculo mental e tem um daqueles tiques obsessivo-compulsivos que o levam a querer saber as capitais e as bandeiras e o número de habitantes e os principais monumentos e o tempo que demoraram a ser construídos de todos os países do planeta Terra, estava envolvido numa discordância pouco fraterna com o Gui. Ao querer mais uma vez envergonhar o pobre rapaz, virou-se para ele e disse, em tom de denúncia triunfante:

 

"És mesmo analfabético!"

 

O que a gente se riu. "Analfabético" é uma palavra maravilhosa, que utilizada neste contexto (ela existe, de facto, mas para designar línguas que não possuem alfabeto) encerra em si a própria ignorância que pretende denunciar. É uma auto-contradição, um oximoro numa só palavra, que dispensa qualquer argumentação adicional. Cá se fazem, cá se pagam: agora, de cada vez que o Tomás se arma aos cucos (o que acontece com alguma frequência), leva logo com o analfabético em cima, para baixar a crista.

 

Mas o uso criativo da língua portuguesa é uma constante, e só tenho pena de não conseguir registar no PD4 todos os delírios semânticos produzidos numa família de seis, com elevado número de analfabéticos.

 

Ontem estava a ajudar num trabalho de casa acerca de um texto de António Torrado, no qual uma formiga muito persistente insistia em subir ao cimo da Torre dos Clérigos, e houve mais jocosidade da melhor.

 

Um dos exercícios consistia em apontar as palavras do texto desconhecidas do senhor aluno, apontar o que ele achava que elas queriam dizer, ir ao dicionário verificar o que elas efectivamente significavam, e depois escrever uma nova frase onde essa palavra era aplicada. Um bom exercício, sem dúvida.

 

Eis uma das palavras desconhecidas do senhor aluno:

 

"abismar",

 

retirada da seguinte frase de António Torrado: "[A formiga] foi por ali acima numa correria de abismar”.

 

O senhor aluno achou que "abismar" significava "rápido", mas depois encontrou no dicionário esta definição: "lançar em abismo". Esqueceu-se, claro, que uma palavra pode ter mais do que um significado, e ignorou olimpicamente a alternativa "causar espanto", que vinha na linha seguinte da entrada de "abismar".

 

E munido dessa definição, o senhor aluno escreveu então uma nova frase:

 

“Eu vou meter a água no lavatório para abismar.”

 

E é extraordinário verificar como a ignorância, devidamente vitaminada, se torna quase poética. Bem vistas as coisas, talvez o poeta seja uma espécie de analfabético, que decide sabotar a língua depois de a conhecer muito bem. Claro que cá em casa só tenho analfabéticos que sabotam a língua porque a conhecem muito mal. Mas por vezes fazem-no com tanta criatividade que talvez um dia cheguem lá.

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 Água a abismar no lavatório

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publicado às 23:54


Um susto a mais e uma porta a menos

por João Miguel Tavares, em 17.04.15

Ontem, à hora de deitar, não ganhámos para o susto: a Rita entrou no nosso quarto, fechou a porta, e do alto dos seus dois anos e meio decidiu rodar a chave.

 

Nós ficámos de fora, ela ficou dentro, e até os nossos telemóveis ficaram do seu lado - nem chamar os bombeiros conseguíamos. A Rita percebeu que tinha feito asneira, ainda tentou rodar a chave para o outro lado, mas não conseguia. Quando deu por si sozinha começou a chorar, cada vez com mais força.

 

Nós tínhamos uma chave sobresselente, mas não havia forma de ela entrar na fechadura. A chave do lado da Rita não tinha dado a volta completa: ficou virada para cima e do lado de fora não conseguíamos que ela saltasse do canhão de maneira nenhuma. E a Rita cada vez mais desesperada.

 

Podíamos ir chatear os vizinhos, pedir para chamar os bombeiros ou uma Chaves do Areeiro qualquer, mas a Rita estava a chorar desalmadamente, os três irmãos estavam super-preocupados, e nós não a podíamos deixar uma hora sozinha a berrar daquela maneira.

 

Portanto, para grandes males, grandes remédios: no feliz reino do contraplacado, três ou quatro pontapés com força chegam perfeitamente para arrombar uma porta moderna. E assim foi.

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Lá parti a porta (espero, por todos os santinhos, que a fechadura tenha sobrevivido), e pudemos entrar todos para resgatar a pequena princesa em apuros.

 

A Rita ficou muito aliviada de nos ver, como imaginam - e prometeu nunca mais rodar a chave (mas, pelo sim, pelo não, acho que vamos fazer desaparecer por uns tempos as chaves das portas de casa, casas de banho incluídas).

 

Balanço do dia: uma porta a menos, que o Tomás e o Gui decidiram tentar simpaticamente arranjar com... fita-cola.

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Com resultados duvidosos.

 

Mas enfim: passado o susto, eu ganhei imediatamente o estatuto de super-homem doméstico, sobretudo aos olhos do Gui, que repetiu 37 vezes "uau, o papá partiu a porta", como se eu fosse o seu Clark Kent caseiro.

 

Ele é que estava vestido com o pijama do Homem-Aranha, mas não parava de olhar maravilhado para a façanha do pai. "Uau, o papá partiu a porta!"

 

Tendo em conta que eu e ele andamos numa fase difícil, se calhar vou ter de começar a arrombar uma porta uma vez por mês para ganhar algum do seu respeito e pôr mais juízo na sua cabeça.

 

Sai um bocado caro, mas é educativo. E excelente para o moral.

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publicado às 06:29


"Eu gosto de porrada" ou o Van Damme do Areeiro

por João Miguel Tavares, em 14.04.15

Onde é que eu estou a falhar?

 

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publicado às 22:44


13 anos de casados

por João Miguel Tavares, em 14.04.15

Foi ontem. Com direito a chocolate.

 

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publicado às 21:59


Big daughter is watching you

por João Miguel Tavares, em 16.03.15

- Papá, no próximo fim-de-semana vamos à Kidzânia.

- Quem disse?

- A mamã. E não podem voltar atrás: eu gravei-a a dizer isso.

 

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publicado às 08:19


Quantas vezes por semana devemos dar banho aos filhos?

por João Miguel Tavares, em 04.03.15

Se bem se recordam, em Outubro do ano passado escrevi um post no PD4 sobre o número de vezes que devemos dar banho aos filhos, que deu origem a muita controvérsia.

 

Desde então, fiquei com a ideia de ir investigar um pouco mais e averiguar qual a opinião dos especialistas portugueses acerca dos banhos diários. Acabei por decidir fazer esse trabalho para o Observador, num texto que pode ser lido aqui, e cujos resultados não são lá muito simpáticos para mim, enquanto grande praticante da lei do menor esforço - é que os quatro pediatras e dermatologistas que escutei acham mesmo que se deve tomar banho todos os dias (ou quase).

 

Um excerto só para abrir o apetite:

 

Infelizmente, aquilo que muitos americanos nos querem impingir não é, de todo, partilhado pelos dermatologistas e pediatras portugueses que o Observador se deu ao trabalho de ir ouvir.

 

A fação pró-banho diário sai vitoriosa – e por esmagadora maioria.

 

Pondo números às coisas, o Observador escutou dois pediatras e dois dermatologistas sobre o tema, e o triste resultado para os pais que trocavam alegremente a remoção de sujidade capilar pelo visionamento de uma assistência de Nani, Nico Gaitán ou Jackson Martínez, é este:

 

Mário Cordeiro, pediatra – dar banho todos os dias.
Maria João Paiva Lopes, dermatologista – dar banho todos os dias.
José Campos Lopes, dermatologista – dar banho todos os dias “não se desaconselha”.
Hugo Rodrigues, pediatra – em bebés, dar banhos em dias alternados, mas se ele gostar “pode dar mais vezes”.

 

O resto aqui.

 

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publicado às 15:47


23 anos de namoro

por João Miguel Tavares, em 03.03.15

Hoje cheguei ao carro, para ir apanhar dois dos miúdos à catequese, e tinha uma prenda à minha espera no tabliê.

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Uma caixa da Arcádia, com um chocolate em forma de coração lá dentro. E um bilhete que dizia...

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 ..."Parabéns pelos 23 anos!"

 

É verdade: eu e a Teresa começámos a namorar a 2 de Março de 1992, fez ontem 23 anos. Mas como entretanto esse passou a ser também o dia de aniversário dos nossos filhos Gui e Tomás (nasceram ambos a 2 de Março, imaginem), é muito fácil passarmos ao lado da nossa vetusta comemoração.

 

Felizmente, a excelentíssima esposa, mesmo com um dia de atraso, fez questão de dizer: "presente!". Com ponto de exclamação e tudo.

 

A Teresa sempre gostou de pontos de exclamação. É coisa que de um modo geral eu evito na escrita, mas que adoro ver nos bilhetes dela para mim.

 

Antigamente nós fazíamos isto mais vezes, como é natural. Mas por ser mais raro, quando acontece sabe ainda melhor. Embora o marido dela seja francamente encantador, 23 anos a aturar o mesmo gajo não está ao alcance de qualquer um. Há que louvar-lhe a paciência.

 

E eu louvo, e agradeço.

 

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publicado às 22:39


Sexta-feira de Carnaval

por João Miguel Tavares, em 13.02.15

E hoje o nosso dia foi assim:


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Gui de D'Artagnan e Elvis Tomasley

 

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Doutora Rita Brinquedos

 

 

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 Festa carnavalesca nocturna com instalação criada por Mr. Gui (who else?)

 

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publicado às 21:40


E um dia tudo muda

por João Miguel Tavares, em 12.02.15

O Tomás anunciou-me ontem à noite que conseguiu dar 25 toques seguidos com a bola num dos intervalos da escola.

 

Eu nunca na minha vida consegui dar 25 toques seguidos com uma bola.

 

O Tomás tem oito anos.

 

Eu tenho 41.

 

Suponho que nunca estejamos preparados para este momento: o dia em que um puto nos ultrapassa numa actividade que sempre gostámos muito de praticar, mesmo que nunca tenhamos tido jeito para ela.

 

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publicado às 10:43


Coisas de que só o Gui se lembra #11

por Teresa Mendonça, em 09.02.15

Nos últimos dias, os vírus da época fizeram muitos estragos cá por casa. À conta deles, o Gui teve que faltar à escola. Como eu passo todo o dia no hospital, num desses dias insisti com ele para que escolhesse um livro que gostasse muito, fizesse uma cópia de uma página e treinasse a leitura. Combinei com ele que o ouviria ler antes de dormir.

 

À noite, quando cheguei a casa, ele pegou-me logo na mão e mostrou-me o seu árduo trabalho do dia, que me garantiu ter sido feito com muita dedicação, apesar de se sentir muito doentinho.

 

E o seu trabalho era este:

 

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Fiquei um bocado estonteada a olhar para o caderno, sem perceber nada do que era aquilo. Mas que raio de gatafunhos eram aqueles?!? Palavras em inglês? Números esquisitos? Nomes incompreensíveis a saltar de linha em linha? 

 

Resolvi não me descoser logo, pois o Gui continuava ao meu lado de sorriso escancarado, muito orgulhoso e expectante.

 

Até que olhei para a caixa que estava mesmo ao lado do caderno e comecei a encontrar algumas semelhanças com a cópia do Gui...

 

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Claro! Qual livro, qual quê!

 

Para o Gui, nada melhor do que copiar todas as palavras da caixa do seu adorado quadricóptero (o excelentíssimo esposo está a querer iniciá-lo no mundo dos drones, provavelmente para em breve poder começar a espiar as vizinhas), com o qual ele não se cansa de brincar, mas que o papá só o deixa utilizar quando está ao seu lado.

 

Tantas vezes o Gui olha para a caixa, a namorá-la, que a achou perfeita para a cópia que lhe foi exigida. A criatividade do Gui continua imparável. Tal como a sua resistência em fazer banalmente as coisas mais banais.

 

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publicado às 01:22



Os livros do pai


Onde o pai fala de assuntos sérios



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