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Mentira!

por João Miguel Tavares, em 15.05.14

A Ana Rute Cavaco publicou no seu blogue um texto que me parece muito importante sobre o mito de as crianças falarem sempre verdade. Vale a pena ler o post inteiro, até pelos exemplos concretos que ela dá. Deixo aqui apenas um pequeno aperitivo:

 

Partir do princípio que as crianças contam sempre a verdade é partir de vários princípios que se desmontam em três tempos: o primeiro é que as crianças observam a realidade e a interpretam tal qual ela aconteceu; o segundo, que vem na sequência do primeiro, é que interpretando bem a realidade, a conseguem reproduzir com igual grau de fidelidade; o terceiro é que, no seu íntimo, mesmo contra todos os sentimentos, são fiéis ao que dizem; o quarto é que não usam a informação como lhes convém. Não acredito em nada disto, e com o passar do tempo, mais certezas ganho. (...)


Tendo nos meus filhos os meus bens mais preciosos aqui na terra, quero honrar isto que a Bíblia me diz. Amá-los é também duvidar deles e ensiná-los a pensar. E não apenas acreditar que tudo o que lhes sai da boca é verdade. A verdade deve ser confirmada, sempre. "Porque as crianças não têm filtro, elas dizem tudo como é." Não acreditem nessa treta.

 

De facto, não acreditem nessa treta. É verdade que os miúdos, até ali por volta dos seis anos, não têm filtro, e podem reproduzir impiedosamente certas conversas que aconteceram na realidade, mas isso é por não estarem na posse de determinados instrumentos (como evitar dizer na cara das pessoas verdades que as podem magoar inutilmente) que permitem manter a salubridade da vida social.

 

Mas essa transparência embaraçosa não é sinónimo de qualquer espécie de apego fundamentalista à verdade. Os miúdos mentem pelas mesmas razões que tantos adultos - para ganhar vantagem ou para evitar punições. E também pelas razões apontadas pela Ana Rute: porque não dominam o seu próprio discurso, nem têm qualquer espécie de rigor na reprodução dos factos. Ou seja, mentem. Às vezes de propósito, muitas vezes sem querer. Mas mentem.

 

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publicado às 10:23


Eu também sou claramente um criançofóbico #2

por João Miguel Tavares, em 17.04.14

Eu e a Maria João Marques, enquanto pessoas de um outro tempo, estamos a ter a modos que uma polémica epistolar: vamos discordando um do outro a intervalos semanais. O assunto provavelmente só já interessa a nós o dois, mas eu continuo a insistir, até porque desta vez a Maria João clarifica o seu argumento económico-liberal. O texto integral dela está aqui, mas eu deixo um par de citações:

 

As famílias com crianças são um grande mercado e os proprietários e gestores de hoteis e restaurantes têm noção disso. Se os restaurantes não quisessem receber crianças, não teriam cadeirinhas para elas, estabeleceriam um consumo mínimo para quem ocupasse lugar à mesa, não criariam menus infantis,… E os hoteis, então, se quisessem enxotar crianças teriam boas soluções: camas de bebé e camas extra caríssimas, alimentação de crianças ao mesmo preço da dos adultos (...)

 

Enquanto as famílias quiserem levar crianças para hoteis e restaurantes, haverá hoteis e restaurantes que aceitam crianças. Pelo melhor motivo de todos (não, não é cumprir a lei): as empresas, para sobreviverem e prosperarem, fazem por agradar aos clientes. E se o mercado resolve – e bem, porque incorporando as decisões livres de consumidores, empresários e gestores – o problema, então o legislador só tem de ficar quieto e não incomodar.

 

Eu diria que a Maria João é bastante convincente a argumentar que existe oferta abundantíssima de hotéis e restaurantes que aceitam crianças, e que portanto nenhuma família corre o risco de não encontrar um telhado onde dormir ou um restaurante onde alimentar as suas crianças. O problema é que... o problema não é esse.

 

A Maria João não poderia ser mais clara: para ela, se o mercado funciona, então o legislador só tem de ficar quieto e não incomodar. Só que isto, para mim, nunca fui essencialmente uma questão económica (ainda que, é verdade, eu tenha argumentado com o facto de as crianças serem umas chatas e ninguém estar para as aturar - devo ter escrito isso num dia particularmente difícil aqui em casa).

 

Não se trata, portanto, de o mercado "funcionar" ou não, porque o mercado - ao contrário do que muitos pensam - não é a bússula que norteia a minha vida. Eu sou mais de esquerda do que pareço à primeira vista. (Deve ser por isso que gosto do Obama e a Maria João nem por isso, naquele que é, sem dúvida, o maior dos seus defeitos.) A minha questão é muito anterior à questão mercadológica - é uma questão de princípio, ou seja, trata-se de acreditar que está errado impedir uma família com crianças de entrar num local de livre acesso.

 

Claro que chegados a este ponto admito que não há muito por onde contra-argumentar, porque batemos na parede moral do certo e do errado. Para a Maria João defender o que defende implica que ela considere aceitável um estabelecimento dizer "criança aqui não entra porque faz barulho e chateia". Ora, eu considero isso, de facto, uma discriminação. Acho que é um argumento que não pode ser invocado a priori. Certamente que não é uma discriminação tão grave quanto dizer "você não pode estar aqui porque tem a pele preta", nem tão triste quanto colocar sapos de louça ou metal à entrada de lojas para que os ciganos não entrem. Mas é uma discriminação, ainda assim.

 

E isso, obviamente, é prévio às questões de saber se o mercado dá ou não resposta às necessidades de pais com filhos. Daí que o argumento da Maria João - "se o mercado resolve o problema, então o legislador só tem de ficar quieto" - seja inaceitável para mim. O mercado (é só uma comparação, ok?) também resolvia o "problema" na América dos anos 50 - o meu ponto é anterior a esse, ou seja, é ético e não económico.

 

Nesse sentido, eu e a Maria João estamos a discordar do assunto em planos diferentes. A sua análise económica parece-me muito bem feita, mas só é possível uma pessoa saltar para ela se não houver nenhum constrangimento ético em relação a esta questão. Eu tenho esse constrangimento. Ela não. E é por isso que - desconfio - nunca iremos chegar a acordo sobre o tema, por muitos posts que continuemos a trocar. É que se a discutir sobre economia já não é fácil duas pessoas concordarem, sobre filosofia, então, é melhor nem falar. 

 

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publicado às 10:13


Eu também sou claramente um criançofóbico

por João Miguel Tavares, em 09.04.14

Sei que este assunto já foi aqui suficientemente debatido na semana passada (para quem perdeu esses estrepitosos capítulos, é ler isto e isto), mas a Maria João Marques discordou de mim no blogue O Insurgente, e como eu gosto muito da Maria João Marques não queria perder esta oportunidade para polemizar com ela.

 

Vale a pena ler a totalidade da sua argumentação sobre o facto de achar completamente legítimo que os hotéis mantenham as criancinhas longe dos seus corredores. Mas, ainda assim, deixo aqui um excerto, como amuse-bouche:

 

Não estamos propriamente num cenário em que os pobres pais não conseguem encontrar um hotel que acolha os seus rebentos. Temos mesmo de começar com conversa de discriminação à conta disto? E porque paramos nos hoteis? Ou nos restaurantes? Porque não aplicar esta mania não-discriminatória a tudo? (...) E uma loja de roupa? Porque diabo uma loja de roupa de crianças pode existir nas versões atuais? Ficamos quedos perante esta discriminação de adultos? E os cabeleireiros para adultos onde nāo há quem saiba cortar o cabelo a crianças irrequietas? É fechar. E aquelas fotógrafas que se especializam em grávidas e discriminam as restantes mulheres? Inaceitável. Mais uma – esta tem muito potencial fraturante -, e as lojas de roupa feminina que só têm números para mulheres magras?

 

O passo lógico a seguir a isto tudo? Registar na constituição como direito fundamental a dormida em hoteis, idas aos spas e aos restaurantes e por aí fora. E fazer um pronunciamento de inconstitucionalidade para as orientaçōes comerciais das empresas que se destinam a nichos de mercado. Em Portugal, uma empresa ou serve toda a gente ou vá para países amigos da discriminaçāo comercial (e do bom senso).

 

Ora, ao contrário daquilo que a Maria João argumenta, a questão não está em ter empresas para determinados nichos de mercado, mas em ter empresas que, por lei, têm de ser de livre acesso (exactamente para não poderem impedir a entrada a brancos, pretos, gordos, magros, velhos, novos, cristãos ou árabes, consoante as idiossincrasias dos seus proprietários), a proibirem a entrada a crianças e a pais com crianças.

 

Pegando num exemplo da Maria João, não é discriminação ter uma loja que só vende roupa para crianças, para homens, para mulheres ou para magras - mas seria uma discriminação uma mulher gorda não poder entrar numa loja para mulheres magras, ou eu não poder entrar numa loja de lingerie feminina com os meus quatro filhos pela mão.

 

Em última análise, a legislação anti-discriminação existe precisamente porque muitos de nós somos fóbicos em relação a alguma coisa. A verdade, devo confessar à Maria João e aos leitores deste blogue, é que eu sou criançofóbico várias vezes ao dia. O que eu daria para estar permanentemente no silêncio dos deuses. E, como eu, também os donos dos restaurantes e dos hotéis, que se tiverem o seu estabelecimento cheio e puderem escolher, dispensarão sempre - mas sempre - ter crianças a encherem-lhe mesas e quartos.

 

Porquê? Porque as crianças são uma seca. Fazem barulho. Exigem camas extra. Cadeirinhas especiais. Nos restaurantes, ocupam o mesmo espaço de um adulto, e não só comem bastante menos (se forem bebés, aliás, nem sequer comem), como ainda por cima fazem barulho. Quem é que gosta de aturar crianças? As crianças não se recomendam fora dos parques infantis - e é por não se recomendarem que os seus direitos, e os direitos dos seus pais, devem ser protegidos.

 

Porque senão, um dia destes, abrindo-se alegremente a porta aos estabelecimentos child free, o que vamos ter é precisamente a tal especialização por nichos de mercado que a Maria João refere. E eu, como pai, passo a estar condenado a comer na McDonald's e em lojas de hambúrgueres até os miúdos terem 18 anos. O país já fecha tantas portas na cara de quem tem filhos. Chamem-me esquisito, mas eu dispenso bem mais esta.

 

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publicado às 09:54


Crianças não permitidas #4

por João Miguel Tavares, em 03.04.14

LA-C, nos comentários a este post, aconselha-me a falar menos sobre o tema do "child free":

 

Se se aceita que as crianças são pessoas de corpo inteiro com os mesmos direitos das outras pessoas, então estas proibições estão exactamente ao mesmo nível de proibir ciganos, negros, ou portugueses, como uma minha professora de liceu viu num parque na Suíça há cerca de 20 anos.

 

E os argumentos são semelhantes aos que são dados para as criancinhas. Por exemplo, no caso dos portugueses era porque eles muitas vezes deixavam o local do piquenique bastante sujo.


Evidentemente, o que se deve proibir é o lixo, as sardinhadas, o barulho, as correrias, etc., e não as crianças, ciganos, portugueses, etc.

 

Tu escreveres tanto sobre o assunto estás a dar espaço para que isto seja sujeito a debate e penso que estás errado. O racismo e a xenofobia combatem-se, não se debatem como se o outro lado tivesse argumentos decentes para dar. Aqui é o mesmo.

 

O argumento é bom, mas que as pessoas se sentem motivadas a discutir este tema, sentem: o recorde de comentários para um único post foi ontem largamente batido.

 

A minha questão é que, ao contrário do racismo e da xenofobia, não me parece que as pessoas estejam ainda devidamente sensibilizadas para esta pedofobia em estado larvar, como se vê pela quantidade de gente que acha que haver muitos hotéis ao lado que deixam entrar crianças é suficiente para resolver a questão. Este é um dos casos em que a lei está mais à frente do que certas mentalidades, e é bom alertar para isso.

 

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publicado às 08:56


A longa espera para se ser avô

por João Miguel Tavares, em 02.04.14

E só para mudar a agulha das criancinhas, até porque há leitores que já não aguentam mais (admito que sou um bocado obsessivo quando começo a falar de certos assuntos), passemos para os avós.

 

Eis um belo e longo artigo do Wall Street Journal sobre a cada vez mais longa espera dos mais velhos para serem avós, incluindo duas perspectivas que merecem ser pensadas e debatidas:

 

1. A existência de um relógio biológico para se ser avô (só se costuma falar disso para mamãs).

 

2. A importância dos avós no desenvolvimento das crianças.

 

Eu sou grande defensor deste ponto 2, razão pela qual faço questão de pontapear imediatamente as criancinhas para fora de Lisboa e de nossa casa mal chegam as férias da Páscoa (estão quase aí, mal posso esperar), do Verão ou do Natal.

 

A excelentíssima esposa costuma acusar-me de só me estar a querer ver livre dos miúdos, quando estou manifestamente preocupado com o seu desenvolvimento psicossocial. 

 

O artigo do WSJ pode ser lido aqui.

 

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publicado às 10:31


Reservado o direito de admissão

por João Miguel Tavares, em 02.04.14

Eu prometo não vos aborrecer muito mais tempo com o tema da pedofobia hoteleira, até porque já disse praticamente tudo o que sabia aqui e aqui. Mas não queria deixar de responder ao leitor Vasco B (01.04.2014 às 16:24), que no meio de muita ironia utiliza o argumento do "reservado o direito de admissão". Escreve o Vasco:

 

Isso da Constituição e da "lei" tem muito que se lhe diga. Se me barrarem a entrada numa "disco" à noite por eu ser demasiado feio... posso invocar a Constituição? Posso chamar a polícia por estar a ser discriminado?

 

A expressão "reservado o direito de admissão" escrita em bares, cafés e restaurantes, de modo a barrar indesejados crónicos (sejam alcoólicos, arruaceiros, etc), é inconstitucional??

 

Vocês sabem que existem em todo o mundo Clubes Masculinos e clubes por convite? A Maçonaria será inconstitucional por não me deixar entrar? E a minha prima que entrou de biquini numa igreja a comer um gelado para se proteger do sol e foi expulsa quase a pontapé... terá sido um pontapé inconstitucional?

 

É verdade que a Constituição tem muito que se lhe diga, mas não no sentido que o Vasco lhe atribui. Se o barrarem à porta de uma discoteca com o argumento de que é feio, pode apresentar queixa, sim. Ninguém pode ser impedido de entrar num estabelecimento público com essa justificação.

 

E, já agora, tome lá mais esta grande novidade: a placa "reservado o direito de admissão" é como a proibição de entrada de crianças nos hotéis. É ilegal. Sim, ilegal. Deixe-me citar-lhe o que está escrito no site da HISA:

 

A expressão "reservado o direito de admissão" não tem suporte legal. É livre o acesso aos estabelecimentos de restauração e de bebidas. No entanto, pode ser recusado o acesso ou a permanência a quem perturbar o seu funcionamento normal, designadamente, por não manifestar a intenção de utilizar os serviços; penetrar em áreas de acesso vedado; recusar-se a cumprir as normas de funcionamento privativas do estabelecimento (desde que essas normas sejam devidamente publicitadas); ou que se façam acompanhar por animais (desde que essa proibição seja devidamente publicitada). Também pode ser vedado o acesso quando o estabelecimento tem uma reserva temporária de parte ou da totalidade do espaço (casamentos, baptizados...).

 

Neste texto extraído do DN há mais sobre esse assunto.

 

Por fim, os últimos exemplos do Vasco. Em relação à maçonaria ou aos clubes ingleses, a resposta é fácil: não são espaços públicos. Eu em minha casa também só deixo entrar quem quero. Em relação à roupa, é verdade que muitos locais têm códigos de vestuário. Mas roupa tira-se e põe-se - eu não posso entrar de chinelos, mas posso se for a casa calçar sapatos.

 

Já mudar de filhos - embora por vezes apeteça - é bastante mais complicado.

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publicado às 10:07


Crianças não permitidas #3

por João Miguel Tavares, em 01.04.14

Dado esta questão da proibição das crianças em certos locais públicos, como hotéis ou restaurantes, me interessar bastante, fui pesquisar um bocadinho. Como se pode verificar através de várias notícias que abordam o tema (aqui, aqui e aqui), os especialistas são unânimes e sublinham aquilo que me parece absolutamente óbvio: é ilegal um hotel proibir a entrada a pessoas só porque elas têm filhos. Não pode fazê-lo. E as pessoas devem apresentar queixa às autoridades competentes se isso acontecer.

 

Embora um hotel seja propriedade privada, e possa ter um regulamento interno que defina o seu funcionamento (e onde possa, hipoteticamente, constar a proibição de entrada a menores de 12, de 16 ou de 18 anos), ele presta um serviço público e o seu regulamento interno não se pode sobrepor à lei geral, e muito menos a princípios constitucionais, como a protecção da família (artigo 67º) ou o princípio da igualdade (artigo13º), que diz: "Todos os cidadãos têm a mesma dignidade social e são iguais perante a lei."

 

Impedir crianças de entrar num hotel é uma dupla discriminação: das crianças e dos próprios pais. Afirma Jorge Morgado, da DECO: "É uma questão de ética e de responsabilidade social", um hotel "não pode apresentar essa proibição como um atributo" e os clientes "não podem exigir sossego se isso implicar a proibição da entrada de crianças nos hotéis onde passam férias". Diz o advogado e especialista em turismo Carlos Torres: “um hotel situado em Portugal exclusivamente para adultos viola o n.º1 do art.º48 do Regime Jurídico dos Empreendimentos Turísticos, que de forma imperativa estabelece a liberdade de acesso”.

 

Eu confesso-me espantado com a quantidade de pessoas que nos comentários deste blogue ou no Facebook se mostraram tolerantes em relação a esta prática. A própria Ana Garcia Martins perguntou:

 

Eu gosto muito do meu rico filho, e gosto muito de o levar comigo, mas se há um fim-de-semana em que me apetece ir descansar sem ele porque é que me vou enfiar num hotel onde tenho de aturar os filhos dos outros? 

 

A resposta é simples: porque o direito dos outros a terem lá os filhos se sobrepõe ao nosso direito ao descanso. Não ser discriminado é um direito constitucionalmente protegido, enquanto poder repousar que nem um nababo no silêncio dos deuses, embora super-fixe, não entrou para a Constituição.

 

Nesse sentido, eu estou-me bem nas tintas que haja, como diz a Ana, "300 mil milhões de hotéis à escolha". Felizmente, não há segmentação de mercado para direitos fundamentais. Nem que seja só um a dizer não às crianças. Não pode.

 

Claro que se as criancinhas se portarem mal e os pais não se comportarem decentemente, o hotel tem todo o direito de lhes chamar a atenção e, em última análise, correr com eles. Mas obviamente não pode ser permitido, logo à partida, discriminá-los em função da sua idade.

 

E não me venham com o argumento de que as crianças não entram em bares, discotecas ou casas de strip. As crianças não entram nesses locais para serem protegidas de práticas reservadas a adultos. Agora esta ideia de serem os adultos a ter necessidade de serem protegidos das crianças não lembra ao diabo, desculpem lá. Os putos podem ser insuportáveis? Podem, claro. Mas são gente. São pessoas com direitos. E convém respeitá-los.

 

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publicado às 10:00


Crianças não permitidas #2

por João Miguel Tavares, em 31.03.14

A Ana Garcia Martins respondeu ao meu post sobre o seu post na caixa de comentários. Prometo responder amanhã de manhã, mas para já deixo-vos com a sua argumentação:

 

"Acho mal negar a entrada a crianças, como acho mal negar a velhos, a negros, a amarelos, a ciganos, a paraplégicos, a homossexuais ou a transsexuais"

Sempre foste um grande exagerado, pá! O que é uma coisa tem a ver com a outra? Tanto quanto me parece ser lógico perceber, as crianças são recusadas em hotéis porque, à partida, têm mais potencial para fazer barulho, para berrar, para se atirarem em bomba para as piscinas, para atirarem uns copos ao chão durante o jantar. Comportamentos que, em princípio, não são expectáveis em adultos. Sejam eles "velhos, negros, amarelos, ciganos, paraplégicos, homossexuais ou transsexuais". 

E é claro que era óptimo que os pais percebessem que há sítios para os quais não é conveniente levarem os rebentos, mas achas mesmo que todos os pais têm esse discernimento? Óbvio que não têm. Por isso tem de ser o hotel a impor essa "limitação", se assim lhe quiseres chamar. Já estive no spa de um hotel, um sítio de suposta paz e sossego, onde havia adultos a atirarem crianças para a piscina, tudo aos berros, um verdadeiro carnaval. Posto isto, achas mesmo que TODA a gente é conhecedora dos seus limites? Tens muita fé na espécie humana. Eu gosto muito do meu rico filho, e gosto muito de o levar comigo, mas se há um fim-de-semana em que me apetece ir descansar sem ele porque é que me vou enfiar num hotel onde tenho de aturar os filhos dos outros? 

De qualquer forma, há 300 mil milhões de hotéis à escolha. No meu caso, e como não pude levar o Mateus para aquele, optei por escolher outro, não fiquei nada chateada ou melindrada com a situação. E quando me apetecer ir para um sítio só com o Ricardo vou voltar a lembrar-me desse tal hotel onde não aceitam crianças. Ao menos sei que não te vou encontrar por lá! Ah ah ah! Beijo!

 

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publicado às 22:31


Crianças não permitidas

por João Miguel Tavares, em 31.03.14

Estava a ler este post da Ana Garcia Martins sobre uma saída dela em família, e fiquei com os olhos em bico. Começa assim:

 

O fim-de-semana passado quisemos ir para fora, mas para perto. Íamos com o Mateus e não nos apetecia fazer grandes viagens. Liguei para o sítio que tinha pensado inicialmente, mas não aceitavam crianças. Sem problemas, acho óptimo. De facto, tendo em conta o sítio que é, faz muito mais sentido que assim seja, e acho de louvar que haja sítios que promovam as sopas e o descanso, sem berrarias pelo meio. Mas como desta vez queríamos mesmo ir com o Mateus, este sítio ficou agendado para outras núpcias e passámos ao plano B.

 

Este post levanta uma questão com a qual já me deparei noutros lados, e que as pessoas, em geral, levam com benevolência: locais que não aceitam crianças. Pois eu, ao contrário da Ana, não acho nada "óptimo". Aliás, não só não acho óptimo como tenho imensas dúvidas que devesse ser permitido a um hotel recusar a entrada de crianças, por mais romântico e zen que ele seja. Não, não deveria ter de existir um plano B. Não, não deveríamos aceitar de braços cruzados esta espécie de pedofobia, que mantém o ruído indesejável das criancinhas longe dos nossos frágeis ouvidos.

 

É evidente que há sítios onde são os próprios pais que se sentem mal em ir com os filhos. Porque o ambiente não convida a isso, porque os preços são impraticáveis, porque eles se sentiriam lá deslocados. Não me passaria pela cabeça ir aterrar no Eleven ao jantar com quatro putos pela mão. No entanto, já não acharia nada bem que fosse o Eleven, por sua livre iniciativa, a recusar a minha entrada no restaurante por levar quatro filhos (coisa que o restaurante não faz, certamente).

 

Donde, esta moda dos hotéis e dos turismos rurais "child free" é altamente duvidosa, por muito liberal que eu seja (e sou). Estou-me nas tintas pelo respeito pelo descanso dos hóspedes e por estragar quaisquer climas. Há princípios que se têm de sobrepor a chatices ocasionais. Acho mal negar a entrada a crianças, como acho mal negar a velhos, a negros, a amarelos, a ciganos, a paraplégicos, a homossexuais ou a transsexuais.

 

Acho extraordinário que vivendo nós numa era tão sensível a discriminações, se aceite como pacífico a existência de locais que interditem a entrada a crianças, só porque são crianças. Não, não é admissível. Mais: nem sequer deveria ser legal.

 

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publicado às 13:42


Sobre a pedofilia

por João Miguel Tavares, em 24.02.14

O meu post anterior já mereceu dois comentários bastante impressionantes sobre a questão da pedofilia, que trago de seguida para aqui. Mesmo que números sobre pedofilia sejam sempre muito difíceis de averiguar, o que mais me interessa é a questão de partida: devemos mesmo conversar com uma criança sobre a possibilidade de alguém mais velho poder tocar-lhe e como deverá reagir nesse caso?

 

Por outras palavras: a pedofilia é uma questão de tal modo presente, e um perigo de tal modo real, que justifique o mesmo género de conversa que se tem, por exemplo, com uma miúda de 10 ou 11 anos sobre o período? Eu, francamente, sempre achei que não. Mas diante de testemunhos como os que se seguem, talvez esteja errado. Gostava de saber a vossa opinião.

 

Este é o primeiro comentário, de R. (versão integral aqui):

 

Bom dia, João. Acompanho com interesse o blogue há algum tempo e nunca antes comentei, mas hoje tenho de o fazer: "99,9% das crianças não serão sequer vagamente expostas à pedofilia" é uma absoluta falsidade, sendo grave e perigoso disseminar tal ideia.

Citando a Wikipédia: "In the UK, a 2010 study estimated prevalence at about 5% for boys and 18% for girls" [...] "Surveys have shown that one fifth to one third of all women reported some sort of childhood sexual experience with a male adult." (...)

Se é verdade que falar de sexualidade e pedofilia às crianças pode ser difícil e embaraçoso, os efeitos de não o fazer podem ser muito piores. Se me tivessem dado luzes sobre isso em criança, talvez eu soubesse que deveria denunciar aquelas "festinhas" do professor de matemática aos 6 anos. Mesmo que fosse através de um vídeo piroso. Em vez disso, como nunca ninguém me falou especificamente do assunto (sexualidade em geral e pedofilia em particular), presumi que esse era um assunto tabu, a nunca abordar, e só compreendi a coisa terrível que me acontecera muito mais tarde, quando estourou o caso Casa Pia. 

A meu ver, esperar que as crianças façam perguntas (quando elas nem sabem o que perguntar) é deixá-las desnecessariamente mais vulneráveis. É preferível que elas saibam o que é a sexualidade (o bom e o mau) desde logo em vez de o deduzirem/aprenderem - quase sempre equivocadamente - através de amigos, da experiência ou dos telejornais. (...) Não devemos fomentar a paranóia nem abordar o assunto à bruta/cedo demais/etc., mas there’s no such thing as TMI neste domínio. Quanto mais conhecimento, menos medo e mais liberdade. Espero tê-lo ajudado a ver as coisas de outra maneira. 

 

E este é o segundo comentário, de uma leitora anónima (versão integral aqui):

 

(...) Como o João, sou grande apologista do TMI e respondo sempre às perguntas da minha filha de 4 anos, mas não tento dar-lhe informação que ela não requer. (...) Mas o que eu queria escrever mesmo é que fui vítima de "festinhas" nos seios durante as aulas de violino no Conservatório, devia ter para aí uns 6-8 anos. E tinha horror às aulas, mas nunca contei a ninguém porque tinha vergonha. Quando veio um professor novo, foi uma felicidade!!! E também fui vítima durante muito tempo de um senhor, grande amigo dos meus avós, que também gostava de me tocar em partes do corpo quando me apanhava a jeito. E também nunca contei a ninguém, por a família dele ser tão amiga da minha... Devo dizer que só fui molestada, felizmente nunca sofri abusos sexuais. Mas chegou para me traumatizar.


Além disso, acreditem ou não, sofri uma tentativa de violação. Um tipo deu-me boleia (!!!) e eu era tão garota e tão ingénua que aceitei. (...) Fui salva por um casal que vinha na direcção contrária. Estou a contar isto para alertar para um erro colossal que os meus pais cometeram na altura: depois de irmos para a esquadra, cheguei a casa e fui para a cama. E a partir daí os meus pais NUNCA mais falaram comigo sobre o que se tinha passado. Tanto que eu durante muitos anos não tive a certeza se a coisa tinha mesmo acontecido ou se tinha ido um "sonho". Tanto que nem sei que idade tinha na altura... Só muuuuitos anos depois é que perguntei aos meus pais se aquilo tinha acontecido. Eles quase iam "morrendo" do choque! Pelo menos fiquei a saber que aconteceu, mas eles, mesmo tantos anos depois, não quiseram falar muito no asssunto. E a resposta deles à pergunta de porque é que não tinham falado comigo sobre o que se tinha passado na altura, foi que pensaram que se não dissessem nada, eu ia esquecer o que tinha acontecido. ERRADO! Tenho 43 anos e não esqueci!

 

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publicado às 14:04



Os livros do pai


Onde o pai fala de assuntos sérios



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