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A educação para o desprazer

por João Miguel Tavares, em 23.04.14

A propósito deste meu post a queixar-me da chinfrineira que as minhas criancinhas andam neste momento a fazer cá em casa às refeições, um leitor Anónimo mas não desprovido de sentido de humor, fez a seguinte observação:

 

Ah bom... um verdadeiro criançofóbico à hora das refeições, portanto. E são os seus filhos, imagina se não fossem... os seus.

E nos restaurantes como é?

Here we go again...

 

Antes que os queridos leitores deste blogue se assustem, eu prometo desde já que não vamos again coisíssima nenhuma, até porque o leitor Vasco B implorou logo de seguida:

 

Ah, ah... este comentário tem a sua graça. Mas já chega, vá.

 

Eu também acho que já chega, e prometo não voltar a falar de crianças e hotéis e restaurantes até eu próprio ser barrado à entrada de um deles. Mas vocês sabem que eu tenho dificuldade em resistir a provocações, e esta é praticularmente boa, porque me permite falar de um tema importante: a educação para o desprazer.

 

Quando eu defendo o que defendo a propósito dos direitos das crianças é porque eu acredito que a sociedade, como um todo, tem o dever de as aturar nos seus espaços de acesso público. Não porque elas sejam lindas, fofinhas ou extremamente educadas, mas porque tem de ser. É a vida e - acredito eu - é também um dever comunitário. Nesse sentido, minha atitude cá em casa não é muito diferente disso.

 

A paternidade, felizmente, tem muitos momentos de prazer, mas até certa idade, se eu me puser a fazer as contas, o saldo é francamente negativo. Agora que eu estou a maior parte do tempo fechado em casa a ler e a escrever, posso garantir-vos que me divirto muito mais das nove às 18 horas e das 22 horas à meia-noite do que das sete às nove e das 18 às 22. Estou com eles, em média, seis horas por dia (excepto aos fins-de-semana, claro), e as nove em que não estou com eles são muito mais calmas, repousadas e self-fulfilling.   

 

Eu sou, de facto, um pai de quatro criançofóbico, e metade do tempo que passo a falar da família é para alertar para os perigos da paternidade cor-de-rosa - é por tanta gente achar que isto é suposto ser divertidíssimo que tantas famílias vão ao fundo quando os filhos saltam cá para fora e as rotinas mais stressantes tomam conta de nós. Daí a importância da tal educação para o desprazer.

 

Por favor, não confundam este "desprazer" com a tradicional cultura católica do "sacrifício". O sacrifício, dito de forma bruta, lembra-me sempre gente que coloca o cilício numa perna para se mortificar, e a sua prática cai muitas vezes no lado oposto ao que aqui me quero colocar - uma espécie de recalcamento do "eu" que só serve para causar frustrações e não dá proveito a ninguém, incluindo ao próprio. Não é a isso que me refiro.

 

O "desprazer" de que aqui falo não é subir para a cruz por vontade própria - é aprender a aceitá-la quando ela vem ter connosco, sem sermos esmagados pelo seu peso. De forma mais filosófica, é a gestão prática da moral do dever kantiana. Ou, se quiserem, é a encarnação do belo provérbio português que diz: "o que tem de ser tem muita força".

 

Ter filhos e educá-los é isso - o que tem de ser tem muita força. Temos filhos porque acreditamos numa ideia de família; porque entendemos que o mundo não é um vale de lágrimas; porque achamos graça a existir; porque, citando Faulkner, entre a dor e o nada preferimos a dor. E assim sendo, enquanto eles crescem ao nosso lado, temos a obrigação de fazer o melhor que podemos para que consigam ser decentes e felizes.

 

Nos momentos em que dá uma trabalheira desgraçada, nos momentos em que não apetece, nos momentos em que sonhamos com a solidão das planícies alentejanas, nesses momentos só nos resta fazer uso da nossa educação para o desprazer, que basicamente significa isto: aturar porque não há outro remédio, esperar que passe tentando não perder a cabeça, se perdermos a cabeça não o valorizar excessivamente, ter em vista que há um bem maior superior ao cansaço do dia-a-dia, e acreditar que apesar de tudo vale a pena - porque, como é óbvio, eles valem sempre a pena.

 

É divertido? A maior partes das vezes, não. Custa? Custa muito. Mas tem de ser. E o que tem de ser... 

 

publicado às 11:15


64 comentários

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De Catarina a 23.04.2014 às 16:56

Alguém que me explique que eu não entendo e quero muito entender... Como se atinge este patamar de fé (em Deus, nos humanos e nas relações) que nos permita dizer que apesar dos sacrifícios, de sentirmos a nossa individualidade / espaço pessoal esmagados em favor de uma família (seja pelos filhos, pais, avós ou outra qualquer situação similar) assim se atinge a verdadeira felicidade? Sou absolutamente franca, não entendo.
Admiro quem o consiga fazer, porque atingem um nível de evolução humana ao qual eu apenas consigo aspirar (invejosamente, acrescento). Aos 30 anos o que sinto (e que provavelmente será visto com algum horror pelas pessoas mais sensíveis) é que quanto menos pessoas fazem parte da minha vida, menos obrigações, menos peso, logo maior felicidade (ou pelo menos menor irritação). Quando olho para famílias felizes e aparentemente funcionais pergunto-me muitas vezes se serei eu absolutamente egoísta e por isso incapaz de replicar a façanha. Os meus objectivos foram sempre profissionais e académicos. Apesar de me fazer sorrir a ideia de ter uma família cheia de crianças e com um quotidiano colorido (como o vosso), sei que é apenas esse quotidiano colorido que me fascina. Não seria capaz de ter 4 crianças, porque impediriam que continuasse a trabalhar as horas que trabalho, mal tenho paciência para o meu companheiro...verdade verdadinha (embora sinta muitas saudades se ele não estiver por perto.. enfim... paradoxos)!
O que vos leva a ser capazes de pensar e criar a família e ainda assim manter a sanidade mental nos momentos de dificuldade ou de irritação? Ou melhor, o que vos levou em primeiro lugar a esta escolha?
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De ... a 23.04.2014 às 17:15

Catarina, bastante pertinente. Pois, a resposta varia mediante o dia. Era algo que eu queria, mas quando queria não sabia como ia ser, ou o que descrevem que era não é bem assim. A verdade é que, não obstantes as queixas aqui deixadas, acredito que a maioria quase absoluta concorde com o "não me arrependo". Desde miúda que queria ter filhos, portanto o motivo vem ainda de uma altura em que nem sequer conseguia racionalizar direito. Tive uma infância que sempre considerei perdida, manchada, sem remédio. E desde essa altura sempre senti que queria fazer alguém nascer, alguém feliz, proporcionar a alguém o que não me proporcionaram a mim...o que é parvo e infantil porque eu não tenho infelizmente controlo sobre tudo (mas lá está era criança). Às vezes sinto-me frustrada (porque academicamente estou limitada), mas também tenho a certeza que se me tivesse dedicado apenas à carreira estaria bem mais frustrada. às vezes sinto que assim nem sou uma mãe fantástica nem sou uma cientista fantástica, que para ter dois mundos tenho de ser razoável em ambos, ou aliás, razoável na ciência, porque sem dúvida que prefiro um dia ouvir orientadores dizer que esperavam mais de mim como doutoranda do que ouvir os meus filhos dizer que esperavam mais de mim como mãe. Concordo com o "quão menos gente" e desde que eles nasceram que o meu universo de pessoas é bem mais reduzido. Eu enquanto pessoa sempre me faço lembrar a música do Variações...esta insatisfação! E estar bem onde não se está e querer ir onde não se vai, mas neste momento que conheço os dois lados, não estou nada arrependida.
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De Sónia a 23.04.2014 às 17:19

Bem, não sei explicar o que me fez querer ter filhos, acho que sempre quis. E o que me faz sentir que os momentos de quase loucura valem a pena? Também não sei explicar. Suponho que o amor que tenho por eles. Não se explica e acho que só quando o sentimos é que percebemos.
E olhe que eu também gosto muito de estar sozinha e não ter responsabilidades! (oh como gosto!) Mas, inexplicavelmente, dou por mim a apreciar aquelas noites em que me tenho de levantar porque a pequena precisa de colo, ou porque o mais velho tem febre e precisa de conforto ou as horas intermináveis que "perdi" a dar-lhes de mamar, em que nem o meu corpo me pertenceu só a mim. Só depois de ter filhos me apercebi que esta função é a que mais me realiza, ao ponto de tudo o resto perder a importância. E por isso não vejo tudo o que abdico como um sacrifício, mas sim como um compromisso que assumi, e que, contas feitas, vale muito a pena.
Mas desconfio que só mesmo passando por isto é que se consegue perceber, lamento ;)
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De ... a 23.04.2014 às 17:29

Oh Sonia, é muito bom lê-la, onde anda quando eu so encontro opinioes maternais com as quais nao me identifico? :) Alias, ja li aqui varias mulheres com as quais me identifico. vim cá ler e quando comecei a ler o seu comentario achava que estava a ler o meu acima, começámos pelos mesmo, e entendi perfeitamente isso que disse de apreciar...é verdade, tao depressa estou louca com vontade de comprovar a lei da gravidade via janela como me estou a sentir espetacular de estar ali para eles.
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De Sónia a 23.04.2014 às 17:37

Eheheh, no fundo somos muitas, se não todas, a pensar assim. Só que cada uma partilha o que acha melhor. Há dias em que eu só digo mal da minha vida. E outros que digo que se fosse melhor, estragava! :D Acho que ser mãe é assim um bocadinho como ser maluca. Mas nem sempre fica bem reconhecê-lo, não vá alguém chamar a CPCJ e tirarem-nos os putos :p
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De Bruxa Mimi a 23.04.2014 às 21:48

Gostei do que ambas escreveram, mas ri-me com a última parte (da CPCJ)! Pois, é, às vezes temos de ter cuidado com o que contamos por aí... :-)
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De Anónimo a 23.04.2014 às 17:43

Catarina, acho que terá tantas respostas diferentes quantas as pessoas a quem perguntar.

Para mim é mais ou menos isto: eles são o meu melhor legado ao mundo. Um dia, a minha tese de doutoramento vai estar completamente desactualizada, bem como todos os artigos que escrevi. A maior parte dos alunos não se vai lembrar de mim.
Tudo isso é muito mais efémero (e foi, também, muito mais fácil de conseguir) que os quatro seres humanos felizes, equilibrados, cheios de capacidades e de futuro que eu ando a tentar formar.

Mas eu gosto muito de pessoas. Gosto de as ter à minha volta, de viver em comunidade, mesmo com o trabalho,as chatices e as interdependências inerentes. Quando aprendemos a dar-nos aos outros (e isto, para mim, foi um processo lento e doloroso, porque eu sou naturalmente tímida, intelectual e auto-centrada) recebemos mais do que damos, na verdade. Sou uma mulher infinitamente melhor desde que sou mãe, mais paciente, mais tolerante, mais eficaz e produtiva no trabalho, capaz de estabelecer prioridades claras. Também sou mais meiga, mais simpática e mais ponderada.

Como eu disse abaixo, o que me ajuda é pensar que isto é o que eu quis. Mesmo que tenha consequências chatas/irritantes/insuportáveis, às vezes (e tem), tudo faz parte do meu projecto de vida. Na minha visão das coisas, é isto a liberdade: escolhermos o nosso caminho e aprendermos a trilhá-lo, mesmo quando parece ter muitas curvas.
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De M. a 24.04.2014 às 17:00

Catarina,

Percebo tão bem o que diz! Sou mãe de dois (6 e 1 anos). E adoro o meu trabalho. Adoro trabalhar horas a fio (parar desconcentra-me) e sou particularmente inspirada aí entre as 18.00 e as 21.00. Nesta fase, em que tenho que ir buscar um à escola e estar com o outro que é pequenino, isso nunca acontece! Sinto que fico sempre a meio, que me falta acabar o trabalho, que se tivesse ficado mais um bocado a trabalhar teria avançado naquele artigo (também sou académica, vá-se lá saber o porquê desta coincidência!). Acresce o facto de também gostar de sair, ir ao cinema, ir jantar fora, etc. E se deixei de fazer algumas dessas coisas por motivo financeiros, o pouco que conseguiria pagar não faço por causa dos filhos!
Quando me pergunto objectivamente qual é a vantagem de ter filhos, não encontro nenhuma! Nenhuma! Mas há qualquer coisa em tê-los (Tê-los de forma consciente, querer dar o nosso melhor por eles) que supera esta análise objectiva da vantagem! É qualquer coisa muito para além da escolha racional e que só se sente quando se tem (eu também odiava esta frase do "só vais perceber quando os tiveres", mas assumo que é bastante verdade...)
Em resposta à pergunta, eu acho que é preciso muita saúde mental para ter filhos, pois de facto eles são "intensos" (forma simpática de dizer que são cansativos, exigentes, que muitas vezes nos levam ao desespero!). E sim, irrito-me muitíiiissssimas vezes! Acho que não dá para não nos irritarmos!
Quero aproveitar as suas palavras para tentar explicar a quem não tem filhos o valor de ter filhos. Penso muitas vezes que é comparável a ter ou não companheiro. Ter alguém também dá trabalho. Irritam-nos, chateiam-nos, às vezes temos que fazer coisas que não nos apetece por eles (e eles por nós). A questão é que nós sabemos como é não ter e, de um modo geral, preferimos aturar isso tudo a não o ter. Quando estamos numa relação, sentimos o calorzinho, o apoio, o porto seguro, etc. É algo que não conseguimos explicar, só sabemos que sentimos isso e pronto!
Ter filhos é a mesma coisa: Dá trabalho, é cansativo, mas há qualquer coisa que sentimos que é para além de explicável! E é bom!
Qual é a grande diferença entre estar numa relação e ser Mãe/Pai? É que numa relação, podemos entrar e sair quando quisermos! Na parentalidade, não! A partir do momento que se passa para o lado de lá, já não tem volta, nem descanso, nem pausa! E isso torna tudo muito mais extenuante!....
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De ... a 24.04.2014 às 17:09

M., gostei desta sua comparação, é uma boa abordagem. E eu (também académica) todos os dias às 17:30h queria ficar mais, porque antes de ter os filhos era esse o período produtivo, era o final do dia, que nunca mais existiu. Sinto que estou sempre a quebrar o ritmo que agora que estava a dar tenho de ir buscá-los.
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De Anónimo a 23.04.2014 às 16:38

Há uma coisa que eu penso muitas vezes, quando fico desesperada com as crianças (toda a gente fica, uns mais outros menos), e que acho que se leva pouco em conta: eu escolhi-os. Escolhi tê-los. Foram decisões ponderadas, cada um dos quatro, com a consciência possível do que isso implicava (e, para ser sincera, o que mais me surpreendeu foi, desta última vez, o quão mais complicado é cuidar de gémeos que de um bebé só). Eles estão aqui porque eu e o pai os desejámos, os sonhámos. Eles só são pequeninos muito pouco tempo, os anos complicados são um sopro e vamos ter imensas saudades.

Sim, há momentos tramados. Há cansaço, barulho, frustração, exaustão. É a vida. É, aliás, o que nos permite valorizar os momentos bons.

(sim, também gosto de passar uns dias sem eles, desde que os saiba felizes com os avós, também sinto falta do silêncio e de comer uma refeição inteira sem mandar calar ou comer sem parvoíces; mas uma das grandes lições da maternidade, para mim, foi a relativização das contrariedades quotidianas).
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De Clara a 28.04.2014 às 11:37

Não podia concordar mais com a expressão 'a relativização das contrariedades quotidianas'. A minha vida é um AM e um PM (antes e depois da M nascer).
Sempre me motivei com a carreira, adorava a minha relação mas no PM sinto-me apaixonada pela minha filha e como todas as paixões é algo que nos leva do céu ao inferno em 3,5 segundos (sim como diz o meu marido há dias em que pareço, vá lá e sinto-me, bipolar).
Esta criança foi extremamente desejada e como tal aceito tudo o que de bom e mau essa existência traz. Ter a M ensinou-me a amar incondicionalmente (porque nos momentos maus ela não trazia endereço para a remeter à procedência) e sobretudo a relativizar as contrariedades quotidianas e mesmo as outras mais intrínsecas.
Não se explica a ninguém como um filho nos faz sentir porque, como em todas as paixões, as sensações são nossas, pessoais e intransmissíveis.
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De Sílvia a 23.04.2014 às 16:14

"...metade do tempo que passo a falar da família é para alertar para os perigos da paternidade cor-de-rosa - é por tanta gente achar que isto é suposto ser divertidíssimo que tantas famílias vão ao fundo quando os filhos saltam cá para fora e as rotinas mais stressantes tomam conta de nós."

Não podia estar mais de acordo, ainda bem que o diz! Tenho um pequeno de 8 meses... E deviam ter-me dito a verdade antes. Tinha-o na mesma, claro, mas ao menos sabia ao que ia. A sociedade só fala do bom, "filhos são maravilhosos, a melhor coisa do mundo", verdade, esquecem-se é de dizer o resto: "É divertido? A maior partes das vezes, não. Custa? Custa muito.", e depois,como disse, uma pessoa tem momentos de stresses desnecessários se nos tivessem avisado de tudo e fossemos a contar com tudo.

Em resposta ao anónimo, nos restaurantes temos que aturar a canalha, como em casa, não os vamos afogar para deixar de ouvir a chinfrineira, no entanto, isso não quer dizer que não possamos reclamar da mesma, mas aguentámo-la que é o remédio!
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De Isabel Prata a 23.04.2014 às 15:52

eu não caio nem para um lado nem para o outro. Os meus filhos são e sempre foram a minha melhor companhia. Mas te dias e horas.

A favor do autor do post conto duas coisas:

tive os dois mais velhos com um ano de diferença e, até aos 3 anos, o grande momento da semana, era quando os deixava no infantário à segunda de manhã.


a outra história é dos meus pais, mas resume bem o mesmo sentimento: sou a mais velha de 8 irmãos, os 5 primeiros em anos seguidos. Mesmo assim os meus pais conseguiam convidar amigos para jantar e passar o serão e no fim os meus pais faziam uma visita guiada pela casa a mostrar "as adoráveis crianças quando estão a dormir".
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De VascoB. a 23.04.2014 às 15:47

JMT o seu texto está excelente e pode ser extrapolado numa perspectiva mais universal. Ou seja, a nossa sociedade romantiza demasiado a vida. Seja pelo cinema, pelo marketing, o audio-visual de hoje transmite clichés e imagens-tipo de tudo e mais alguma coisa. E geralmente são imagens muito coloridas. Mulheres bonitas, crianças de tranças e bicicletas brilhantes, carros de argolas, maridos com corpos de atletas olímpicos. Tudo é romantizado e nem a maternidade/paternidade escapa. Depois o reverso da medalha é andar aí meio país afogado em ansiolíticos. As expectativas são puxadas.

Há uma expressão que funciona muito bem em inglês e que responde a este problema:
It´s not having what you want, it's wanting what you've got
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De David Cabanas a 23.04.2014 às 14:51

Estava a ler o post e a pensar na minha realidade e que em certos pontos também me revia no discurso...tenho vida mais calma no trabalho do que propriamente em casa onde passo 90% do tempo a dizer "não façam isso", "saiam daí", "cuidado!!", não façam asneiras", "não se bate", etc, etc mas quase sempre expressões começadas por não!!!
Contudo, já conheci pais de filhos com deficiências que, esses sims têm cruzes fortíssiimmaass e de trabalhos "forçados" o resto da vida!
No meu caso anima-me saber que um dia tudo ficará mais sereno...
Também me ocorreu outro pensamento que foi o facto de cada vez os portugueses serem pais mais tarde e claro está que quanto mais velhos menos paciência há para crianças...é super diferente ter um filho aos 25, 26 anos ou aos 40 e muitos...
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De ... a 23.04.2014 às 15:00

David, concordo bastante com o seu comentário mas essa parte final nao sei. A ideia que tenho é oposta àquilo que diz. Eu tenho 25 anos e 2 filhos. Acho que essa diferença temporal que fala (de cada vez mais os portugueses...), não me parece que essa a variante que faz a diferença, acho que a variante é mesmo aquela de que antigamente o comum era haver vários adultos para se responsabilizarem pela criança (as mães não estavam sozinhas, tinham a avó, a tia, a irmã mais velha, a cunhada, a sogra, a tia avó), também a mãe vivia para tratar dos filhos (não tinha a pressão de estar a falhar na vida pessoal). Não sei, mas normalmente os pais mais velhos que conheço são os mais pacientes, os que tiveram mais anos de "descanso", os que já têm amigos com filhos, etc.
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De célia a 23.04.2014 às 15:22

Aos 25 anos ainda me faltavam 9 para ser mãe, não me parece que esses anos me tenham trazido mais paciência :). A rede familiar de que fala facilitaria a tarefa a muitas mães, até a rede de "vizinhança", que tão importante foi durante a minha infância, desempenharia um papel fundamental.
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De David Cabanas a 23.04.2014 às 16:48

Pois é outra forma de ver a questão...contudo contínuo a achar que é mais fácil um pai "novinho" ir jogar a bola com os filhos, ir ao parque, andar com os filhos às cavalitas, sei lá...mil e uma aventuras, do que um pai que já está mais em modo sofá e pantufa...
Também a sociedade tem de certa forma contribuído para a destruição do conceito de família que refere ("mães não estavam sozinhas, tinham a avó, a tia, a irmã mais velha, a cunhada, a sogra, a tia avó")...Há cada vez mais pais a ficar sozinhos com os filhos, seja durante a semana (mãe, geralmente) ou ao fim de semana (pai, geralmente).
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De ... a 23.04.2014 às 14:49

João, sou mãe de 2. Sou mãe...e não pai, e isso traz um problema extra. É que se o João, pai, disser estas coisas, a maioria das pessoas acha graça. Se eu, mãe, disser as mesmas, não são vistas com a mesma piada. Caem mal. Não são politicamente corretas. Ofereci o seu livro mais recente (Manual de sobrevivência) ao meu marido no dia do pai. Quem o devora a gargalhar no sofá, dizendo em voz alta "podia ter sido eu a escrever isto", "é a minha alma gémea da parentalidade", sou eu! A minha opinião é muito convergente com a sua e é bom ler alguém que sabe escrever exatamente aquilo que nós sentimos mas que "Raio", nunca ouço os outros pais falarem, nunca me identifico com as outras opiniões. Mas eu, mãe, noto que quando o digo não cai bem às pessoas. Talvez o facto de ter tido filhos super chorões, que não dormem noites todas, que fazem as viagens de carro aos gritos, que são uns birrentos e não se conformam, tenha ajudado à minha opinião (e isso é uma coisa que acho que é pouco tida em conta, o seu parágrafo "Sorte", que realmente pode fazer muita diferença). E isto que disse aqui só tenho coragem de dizer ao meu marido (relativamente a "preferir" o tempo sozinho...). Além disso se o dissesse a outrem já sei qual era a pergunta imediata que me enerva muito: "então porque raio tiveste filhos"??? Podia dizer "porque os relatos que sempre ouvi não batem certo com o que vivo"...mas não é só isto. Há outras coisas que nos movem na parentalidade. Eu, sem ninguém por perto (família, sogros, avós, etc), sinto-me presa. Acredito que fosse diferente se tivesse um back-up, podia fazer as coisas que gosto e esses momentos gerarem alguma saudade e tudo culminar num melhor equilíbrio. Mas assim sinto-me consumida e cansada e que sonho era um único dia poder chegar a casa e haver silêncio, não haver responsabilidades, etc. E lá no fundo, como um comentário que aqui foi deixado, podem-me criticar de muito, de me queixar deles e da minha vida limitada, mas sou a melhor mãe que poderiam ter.
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De ... a 23.04.2014 às 14:56

ah, e ainda em continuaçao. Claro que nao tenho palas, e normalmente isto faz-me sentir muito mal, porque páro e penso em familiares e amigos que têm filhos com deficiências, que têm verdadeiros problemas, e sinto-me muito mal. Isto tendo em conta o comentário acima do meu que é muito correto.

E por fim, também acho a balança em saldo negativo um pouco demais. Diria que mesmo nos dias piores continua positivo. E então se começo a racionalizar com a sorte que tenho e a deixar-me de lamúrias, além de me sentir uma parva, o saldo dispara.
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De Maria Cruz a 23.04.2014 às 14:28

Sabe que muitas vezes eu sou um tanto desconfiada desse seu discurso criançofóbico ?
Acho que se no primeiro filho você sentisse mesmo todo esse saldo negativo não teria se aventurado mais três vezes nessa ¨empreitada¨.
Sei muito bem que não é fácil e cansa, mas acho que exagera nesse quadro de horror que descreve ...Va lá, quando puder, escreva a dizer tudo aquilo que gosta na paternidade, porque existe sim uma parte cor-de-rosa nessa experiência. Tinha vontade de ler sobre tudo que vê de positivo... porque algo me diz que você não é nada criançofóbico ...sei lá... não me convence disso.
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De Sílvia a 23.04.2014 às 16:21

Não concordo. Acho que ele diz a verdade, o que sente, a realidade. Isso não interfere na "cruz" que ele quer carregar, por exemplo, eu penso como ele, ainda só tenho um pequeno de menos de 1 ano, mas quero pelo menos ter outro, porque faz bem a ele, aos pais, ao país (afinal as crianças são o futuro!), a toda a gente, e se pudesse (financeiramente) até teria mais, e penso assim, isso não quer dizer que eu não ache que tenha força suficiente para a "empreitada"!!
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De Maria Cruz a 24.04.2014 às 14:51

Olá, não entendi muito bem o seu argumento, mas deixe-me esclarecer, o que eu tentei escrever: eu não disse que ele estava a mentir, só achava que ele estava a exagerar, que eu acho que ele deve gostar bastante de ter filhos, uma vez que optou por ter 4, mas escrevi mais em tom de brincadeira do que de discordância.
Eu tenho dois filhos, e não acho nada fácil, inclusive, quando tenho uma amiga que está grávida eu costumo dizer: ¨Nos primeiros dias eu achava que nunca mais conseguiria ter tempo para nada, me sentia presa, quase sufocada por tanta informação, insegurança, novidades que tive que assimilar, mas depois as coisas ou melhoram, ou a gente se acostuma, e a vida ganha outro ritmo¨ . Não acho de maneira alguma que tudo é cor-de-rosa, mas não trocava nada no mundo por essa experiência. Não há nada que eu adore mais mais na vida que eles, mas ¨jamais¨ iria para o 3º, assim, em consciência, nunquinha. Por isso imagino que alguém que opte por ter mais filhos é porque quer, gosta e acha bom, sei lá, imagino... ninguém é obrigado a ter, acho eu.
E não que eu ache que não teria forças, mas simplesmente não quero mais, dois está bom, assim de simples, é uma opção, das mais sérias que alguém pode tomar, e não vejo como uma cruz, é sim uma grande responsabilidade, a mais linda de todas.
Gosto deles até o infinito, e isso custa, preocupa, faz ter medo e definitivamente cansa mais do que as birras ( e os meus fazem muitas!).
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De marta a 23.04.2014 às 14:23

eu sou mãe de uma de 3 anos que vale por muitos...dá-me muito trabalho...o que sempre digo aos amigos sem filhos é: "aproveitem enquanto não os têm e acreditem que não é fácil"..
eu cheguei a estar de propósito até mais tarde na fábrica só para não ter de enfrentar a minha filha...
até ao dia em que me veio à cabeça (do nada) que devia dar graças a deus por ter uma filha saudável..e que existem algumas mães que davam tudo para ter os seus filhos e não podem..
posto isto, aturo e aturo e aturo..e não é uma fase e não está a melhorar...mas é o bem mais precioso da minha vida e já estou a contar os minutos para as 18 h e fazer 1 hora de viagem até casa só para a abraçar..
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De ... a 23.04.2014 às 14:52

Ai foi bom ler isto do ficar de proposito mais tempo na fabrica :) identifiquei-me (mãe de 2). Mas depois tambem eu tenho essa batalha na mente relativamente ao "pensar que sorte temos", então sofremos pelo frete e cansaço e sofremos por nos sentirmos más pessoas lolol..
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De Teresa Power a 23.04.2014 às 14:07

O que é self-fulfilling? O que é o prazer pessoal? E já agora, a noção de sacrifício... A que tu avanças no teu post não é a noção católica, mas a noção popular tradicional, ok? Porque sacrifício é tornar sagrado, libertar da escravidão do... prazer! Aprender o desprazer, como tu dizes, é de facto essencial - mas não para aprendermos a aguentar! É essencial para aprendermos a encontrar felicidade e verdadeira realização pessoal naquilo "que tem de ser", naquilo que é a nossa vida real, e não idealizada. A educação para o desprazer é verdadeiramente a educação para a felicidade.
Cuidar de seis filhos é a maior fonte de felicidade que encontro na minha vida. Há muitos anos que deixei de sentir genuíno prazer em coisas que antes me davam prazer, e descobri prazer em gestos rotineiros e sem graça... No meu caso, e por muito lamechas que isto soe, o saldo é francamente positivo. E não trocava os momentos que passamos juntos por nada deste mundo!
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De Carlos Duarte a 23.04.2014 às 14:35

Cara Teresa,

Realmente a descrição do sacríficio que o JMT fez não é nada "católica". O sacríficio não é masoquismo (i.e. tentar retirar prazer da dor ou ir atrás de dores e penas), mas sim aprender a vivermos e a pacificarmo-nos com os nossos problemas e incómodos. O resto do post (sobre o dever de "aturar" as crinças - nossas e dos outros - e da noção que o ganho final superará todas as perdas no passado) é que é uma excelente descrição do sacríficio cristão. A ideia (Mt 10:38) é aceitar a nossa cruz, não propriamente ir atrás de uma.
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De Teresa Power a 23.04.2014 às 14:51

Sim, mas há aqui outra coisa... Os santos não foram infelizes, nem se limitaram a "aguentar" a sua cruz, não é verdade? O sacrifício cristão traz verdadeiro prazer... São coisas que não se explicam, só se podem viver. Disse S. Paulo que, por Cristo, tudo considerava "esterco"... Não são palavras vãs, é a verdade: quando aprendemos a aceitar a nossa vida, a fantasia deixa de nos dar prazer, e encontramos verdadeiro gozo na nossa pobre rotina. É por isso que não consigo aceitar a ideia de que criar os filhos é uma maçada, por muito necessária que seja... Mas podemos discutir estas ideias no meu blogue (umafamiliacatolica.blogs.sapo.pt), que sobre cristianismo está mais apropriado! Ab T

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