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Crianças não permitidas

por João Miguel Tavares, em 31.03.14

Estava a ler este post da Ana Garcia Martins sobre uma saída dela em família, e fiquei com os olhos em bico. Começa assim:

 

O fim-de-semana passado quisemos ir para fora, mas para perto. Íamos com o Mateus e não nos apetecia fazer grandes viagens. Liguei para o sítio que tinha pensado inicialmente, mas não aceitavam crianças. Sem problemas, acho óptimo. De facto, tendo em conta o sítio que é, faz muito mais sentido que assim seja, e acho de louvar que haja sítios que promovam as sopas e o descanso, sem berrarias pelo meio. Mas como desta vez queríamos mesmo ir com o Mateus, este sítio ficou agendado para outras núpcias e passámos ao plano B.

 

Este post levanta uma questão com a qual já me deparei noutros lados, e que as pessoas, em geral, levam com benevolência: locais que não aceitam crianças. Pois eu, ao contrário da Ana, não acho nada "óptimo". Aliás, não só não acho óptimo como tenho imensas dúvidas que devesse ser permitido a um hotel recusar a entrada de crianças, por mais romântico e zen que ele seja. Não, não deveria ter de existir um plano B. Não, não deveríamos aceitar de braços cruzados esta espécie de pedofobia, que mantém o ruído indesejável das criancinhas longe dos nossos frágeis ouvidos.

 

É evidente que há sítios onde são os próprios pais que se sentem mal em ir com os filhos. Porque o ambiente não convida a isso, porque os preços são impraticáveis, porque eles se sentiriam lá deslocados. Não me passaria pela cabeça ir aterrar no Eleven ao jantar com quatro putos pela mão. No entanto, já não acharia nada bem que fosse o Eleven, por sua livre iniciativa, a recusar a minha entrada no restaurante por levar quatro filhos (coisa que o restaurante não faz, certamente).

 

Donde, esta moda dos hotéis e dos turismos rurais "child free" é altamente duvidosa, por muito liberal que eu seja (e sou). Estou-me nas tintas pelo respeito pelo descanso dos hóspedes e por estragar quaisquer climas. Há princípios que se têm de sobrepor a chatices ocasionais. Acho mal negar a entrada a crianças, como acho mal negar a velhos, a negros, a amarelos, a ciganos, a paraplégicos, a homossexuais ou a transsexuais.

 

Acho extraordinário que vivendo nós numa era tão sensível a discriminações, se aceite como pacífico a existência de locais que interditem a entrada a crianças, só porque são crianças. Não, não é admissível. Mais: nem sequer deveria ser legal.

 

publicado às 13:42


98 comentários

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De idomind a 01.04.2014 às 22:31

Estive a ler atentamente todas as opiniões. Perdoem-me a petulânicia, mas sugiro a todos os intervenientes, que façam o mesmo.

Tive uma semana de férias em 2013. Foi o que consegui num dos anos mais dificeis de sempre. Não deve ter sido só para mim, lamentavelmente. Precisava de férias...

Fui para um monte na costa vicentina. Todos os dias, pelas 3h10m e pelas 6h e qualquer coisa a criança dos hóspedes ao lado, chorava de modo que não me acordava apenas a mim ( que tenho sono leva) mas aos aos hospedes que estavam na ponta do monte.
Todos os dias das minha férias.

Deixo-vos apenas uma pergunta: mereço ser executada por ter preferido ir para um sitio onde soubesse que, efectivamente, ia ter férias?


Pergunto-me quantos de vós, tão rápidos a julgar quem anseia por descanso, escolheriam ir viver para um prédio que sabiam habitados maioritarimante negros. Ou ciganos...só para tocar, assim brevemente, a essa questão da discriminação...

Todas as escolhas são legitimas e dignas de igual respeito.



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