De Sara a 25.11.2014 às 14:50
Há aqui um argumento dos pais, já várias vezes repetido, que me está a inquietar: "eu não tencionava dar beijinhos na boca, mas o meu filho/filha vem-me dar e eu nunca por nunca lhe ia negar um beijinho". Então mas quem é que ensina? Quem é que determina onde se dão os beijinhos entre pais e filhos, quem é que explica as diferenças entre um beijinho de amor pai/filho e um beijinho entre namorados? Em última análise, quem é que manda? Os pais ou a pequena criança? E será que, vindo o petiz para vos pregar um valente chocho o facto de desviarem ligeiramente a cara para vos acertar no rosto (seguido da pertinente explicação de que os beijinhos na boca são para "os namorados") é negar-lhes um beijinho/afecto/carinho/contacto? Mesmo se depois for seguido por uma festa de beijoquice nas bochechas?
É que uma coisa é dizerem que gostam do cumprimento com o beijinho na boca e praticarem-no assumidamente. Não o fizeram comigo (e garanto que não tive menos afecto por isso, fui uma criança muito beijocada, abraçada e mimada) e não tenciono fazê-lo com os meus filhos, mas respeito a liberdade de cada um de educar os seus miúdos como bem entende.
Agora outra coisa bem diferente é dizerem que até nunca tinham pensado em dar beijos na boca aos filhos, mas que aceitam essa prática (que a criança tem com eles certamente porque vê os pais a fazerem o mesmo) porque "não se nega um beijinho ao menino". Isto, na minha humilde opinião, já é não saber explicar as coisas às crianças, não querer contrariá-las à força toda e ceder a um hábito que até nem seria o dos pais porque a criança - que não o compreende - o quis adoptar. Não percebo, alguém quer esclarecer?
De Sofia Lopes a 25.11.2014 às 15:10
eu respondo com uma pergunta - e porque não?
De Sara a 25.11.2014 às 15:30
Sofia, boa tarde. Acho que o meu comentário foi claro. Todos os pais, todas as casas têm regras. Não precisam de ser regras austeramente impostas, nada disso, as regras são - devem ser - idealmente flexíveis e vão-se adaptando à criança, aos pais, ao projecto educacional que estes pretendem levar com os seus filhos. Mas quem "manda", quem determina a direcção que esse projecto vai tomar, pelo menos enquanto a criança for pequena, são os pais, não é? Pois e se esses pais têm a ideia de ensinar à criança a cumprimentá-los com beijinhos na cara, porque é isso que acham o cumprimento mais adequado, devem ceder por pena/culpa/amor-sem-limites-que-impede-que-se-explique-à-criança-que-não-é-assim-que-se-faz-para-não-magoar-os-seus-sentimentos? Desculpe-me mas isso não me parece bem, é como aqueles pais que deixam que os miúdos vão vestidos de carnaval (ou de pijama) para a escola porque, embora como todas as pessoas saibam que aquilo não é adequado às regras de convivência social, fecham os olhos porque "não tem mal nenhum" e "é só uma vez", ou então porque a criança fez uma birra monumental e venceu os pais pelo cansaço (esta é, para mim, a razão mais aceitável). Os miúdos não só precisam como gostam de regras, de ser ensinados a estar na mesa, a atravessar nas passadeiras, a dar a mão na rua, a dizer "bom dia" e "obrigado", a vestir-se de forma adequada e a cumprimentar as pessoas como os pais o fazem! Está a ver o meu ponto, não está? Em educação, o "tadinho do menino" não pode ser desculpa para os pais deixarem de ensinar o que entendem ser o mais correcto - isso só se desculpa aos avós ;)
De Sara a 25.11.2014 às 15:34
Além do que os miúdos são muito mais resistentes do que se pensa, ensinando as coisas com carinho e calma eles compreendem, encaixam e não ficam nada traumatizados! Por outro lado, podem ficar bem traumatizados se um dia, quando forem um pouquinho mais velhos, os forem deixar à festa de anos de um amiguinho e se despedirem deles com um valente selinho, fazendo com que eles sejam altamente gozados!! Já viu o "Meet the Fockers" com o Ben Stiller, quando o Dustin Hoffman (que faz de pai dele) lhe espeta um valente chocho em frente à noiva e aos sogros e ele fica morto de vergonha? :)
De Anónimo a 25.11.2014 às 15:36
Sara, viva. Mas é que não podia ser mais clara. Na minha opinião, está certíssima. Será que a senhora do comentário acha que quem manda em casa são as crianças?
De Sofia Lopes a 25.11.2014 às 15:56
A questão não está em quem "manda" (até me dá arrepios, mas vá) ou deixa de mandar. eu acho é que, para aqueles pais que a) não foram criados com esse hábito e nem nunca pensaram muito nisso e b) quando refletem nesse tema até pensam que "de facto não tem mal nenhum", então a minha pergunta - porque não? se não são terminantemente contra, apesar de não fazer parte dos seus hábitos na família de origem, porque não? ao fim e ao cabo, as famílias que nós construímos servem também para criarmos os nossos hábitos e as nossas tradições não é?
em relação ao deixar fazer isto ou aquilo. há tanta tanta coisa à qual temos mesmo que dizer "não!", que não podemos dizê-lo a tudo! qual é o grande problema da menina ir para o infantário com as asas de borboleta que recebeu no natal? qual é o mal? ou preferem criar um adulto que goza com quem se veste de forma diferente? eu prefiro criar um adulto que olha para os demais de igual para igual, independentemente se os demais usam fato e gravata (boring!!!) ou camisa às riscas com calças às bolinhas. há que saber comprar as guerras, e o não é uma palavra que perde eficácia com o uso excessivo.
De Sara a 25.11.2014 às 17:07
Sofia, o "mandar" é uma palavra mais que natural na educação. Os pais mandam, sim. Mandam tomar banho, mandam lavar os dentes, mandam dormir, mandam fazer os TPC's, mandam comer a sopa, mandam vestir o casaco. Até no mundo animal os pais "mandam" nas crias, e o motivo é o mesmo: os pais mandam para ajudar os filhos, para neles criarem hábitos bons para a sua saúde/higiene/integração na sociedade/desenvolvimento/sobrevivência. Mandar faz parte de criar e faz parte de educar. Como a Sofia não gosta da palavra - e ter medo das palavras por serem politicamente incorrectas é coisa que não entendo -, usemos "orientar", querendo dizer exactamente a mesma coisa. Os pais orientam os filhos, ensinando-lhes aquilo que, de acordo com a sua opinião, é o melhor para eles.
Quanto ao beijinho na boca: reparará que, quer no comentário acima, quer no comentário que deixei no outro post, disse que acho lindamente que os pais que concordam com essa prática a façam. De acordo com a minha convicção pessoal, isso poder-lhes-á trazer muito mais dissabores no futuro do que ensinar-lhes em tempo o que são os beijinhos "de namorados", os beijinhos "de pais", os beijinhos aos amigos e o beijinho às tias no Natal. Mas isso, repito, é a MINHA opinião e quem não partilha dela força, dê beijinhos nos lábios das crianças à vontade! Desde que depois essas crianças não os vão dar nas minhas, porque lhes ensinaram que é normal. A questão que me incomodou e que motivou o meu comentário foi o teor de outros comentários neste post e no anterior de pais que diziam algo como: "epa eu achar normal não acho muito, não fui criado assim, mas a minha criança dá-me beijinhos na boca o que é que eu posso fazer?" E essa postura de "deixa andar para não aborrecer o miúdo", de uma perspectiva educacional, é profundamente errada, seja na questão dos beijos seja no que for. Sabe porquê? Porque cria não só confusão - como disse o Dr. Mário Cordeiro - como cria adolescentes e adultos intolerantes à frustração. E a vida, como bem sabe, é muito maravilhosa mas está cheia de frustrações. Cabe aos pais preparar as crianças para esse confronto. É que começam na adolescência - e, sem querer ser alarmista, sabe que até já foi estudada a relação da ausência do "não" na infância com o suicídio na adolescência? - e nunca mais acabam, até sermos velhinhos. O "não" usado em demasia é ineficaz, mas o "não" que nunca é usado pode ser bem mais perigoso. E aqui entramos no vestuário - toda a gente que seja bem formada quer que as suas crianças respeitem a diversidade, seja na forma de vestir, seja na orientação sexual, na cor da pele, no peso, na diferença física/intelectual, etc. E eu, obviamente, incluo-me nesse grupo. Tenciono dar às minhas crianças uma educação o mais respeitadora do outro possível. Acho, aliás, que essa é a base da boa formação do ser humano: o respeito pelo outro, tal como ele é. E por isso não deixo de achar estranho que se confunda o incutir desse valor fundamental com o deixar uma criança ir de asas (bom, se lhes deram as asas no Natal têm que deixar, senão são os pais que são incoerentes...) ou de fada ou de Zorro ou de pijama para a escola fora da altura propícia a isso. Uma coisa é uma coisa - um valor fundamental - outra coisa é outra coisa - incentivar a criança a ser excêntrica, mas sem lhe dizer os problemas que daí podem advir para ela no futuro. Na adolescência terão muito tempo para ser alternativos, para se vestirem como entenderem e isso faz parte da busca e encontro da personalidade nessa fase da vida. Agora em criança, vai-me desculpar, mas a mamã e o papá é que mandam.
De Anónimo a 25.11.2014 às 18:45
A Sara tem muita teoria mas vê-se que não tem nenhuma prática. Um filho não é um programa de computador nem um app, não é um projecto com resultados garantidos por muito que faça tudo bem. Também não é um robozinho com on e off. Um dia, quando tiver um filho, vai ter de engolir muitas das coisas que escreveu, com muita sobranceria, nos comentários anteriores.
De Sara a 25.11.2014 às 19:09
É isso anónimo,quando não se pode argumentar usa-se o argumento comum a todas as mamãs fundamentalistas: "tu quando tiveres filhos vais ver!" que resolve tudo,não é? Isto independentemente de saber se eu tenho ou não tenho experiência com crianças,que,não é que seja da sua conta mas for the record,tenho e não é pouca. Ademais,esse tipo de comentário destrutivo em nada adianta à discussão. Ainda me havia de explicar onde é que viu sobranceria nos meus comentários,que,para mais,são semelhantes a muitas das opiniões que foram aqui colocadas - e algumas por pais,veja lá,pessoas com superioridade moral e espiritual em relação a mim para falar! Olha que isto realmente,que pachorra.
De Anónimo a 25.11.2014 às 19:25
Mas,mas...anónimo,como assim uma criança não é um robot com botão on e off??!! Bolas,que desilusão e eu que já vinha preparada para desligar os meus...Tenha paciência,a Sara tem razão em muito do que disse,é uma mãe de filhos que lho garante,já que isso para si parece ser uma opinião mais válida. Além do mais, concorde-se ou não com o teor dos comentários, o recurso a não-argumentos e insultos dirigidos a uma pessoa que expôs a sua opinião de forma correcta, em nada valorizam a discussão.
De Sara a 25.11.2014 às 19:29
Gracias anónima :) quem sabe,se calhar vou mesmo engolir tudo o que disse quando tiver os meus - acho que não, mas... - no entanto por ora é esta a minha opinião e não posso admitir a ninguém que venha dizer que ela não é válida. Isso é que se deve ensinar às crianças,a respeitar a opinião dos outros! Imagine o anónimo que eu não tinha filhos mas era pediatra,já considerava mais a minha opinião? Enfim. By the way, JMT, o teu blog está mesmo a transformar-se no BE dos blogs, faz cautela ;)
De Anónimo a 25.11.2014 às 21:44
O facto de ser ou não pediatra não contribuiria em nada para eu considerar ou desconsiderar a sua opinião. Desde quando ser pediatra é sinónimo de ser especialista em educação ou dono da verdade. Conheço pediatras que não têm sensibilidade nenhuma para crianças mas que são médicos exímios, uma coisa não exige a outra.
Onde desrespeitei a sua opinião? Só lhe disse que é uma opinião muito teórica, que segue uma cartilha, não se amofine.E a cartilha não funciona igual para todas as crianças e muitos de nós, profissionais da educação ou não, quando temos filhos decobrimos que a nossa cartilha nem sempre funciona com os nossos filhos e quando temos mais que um, como é o meu caso, ainda descobrimos que eles não nasceram formatados da mesma maneira e que a cartilha que funcionou para uns não funciona para outros. A sua opinião parece-me ser a tipica opinião de quem sabe do assunto em teoria mas não na prática, no sentido de não ter filhos (acho que já confirmou que não tinha)mas que sabe muito bem como é que a generalidade das pessoas deve educar os seus de forma a sairem crianças e exemplarmente educadas e não uns totós (deve ser educadora de infância ou professora e deve ter acabado o curso há pouco tempo, não se zangue se errei. Não se vai zangar com certeza, você também não se coibiu em chamar-me mãe fundamentalista e sem argumentos e que não respeita a opinião alheia).
Pois olhe, sou mãe e não sou nada fundamentalista (com a excepção da prevenção de acidentes, tipo cadeirinha do carro, braçadeiras na praia etc.) e já tive que apagar muitas ideias feitas e preconcebidas e garanto-lhe por experiência própria, maternal e profissional, que não existem verdades absolutas nem regras infaliveis iguias para todos.
De Anónimo a 25.11.2014 às 21:46
Já agora, anónima das 19h25, onde é que eu insultei? O seu tom jocoso é que foi muito elegante. Você é uma inspiração e não vou perder esta oportunidade de me inspirar em si e já agora muito obrigada por me garantir que a Sara tem razão. Olhe eu por acaso acho que não tem em tudo.
De Sara a 26.11.2014 às 09:39
"deve ser educadora de infância ou professora e deve ter acabado o curso há pouco tempo" - tudo ao lado, mãe anónima, tudo ao lado. Claro que o tom condescendente do seu primeiro comentário é ofensivo e desrespeitador da opinião alheia - a qual, repito, é tão válida como a sua -, mas o pior cego é aquele que não quer ver (que eu saiba, a soberba de que me acusou ainda é um pecado mortal). Quanto ao tom da anónima das 19:25, o mesmo é sarcástico (aliás um tipo de humor não tem nada de deselegante) porque é a única forma de responder a quem nos trata como se fôssemos idiotas, dizendo que uma criança não é uma app nem um robot. Percebi o seu ponto - era escusado tê-lo feito chegar como fez - e acho que percebeu o meu. O JMT tem um blog aberto ao público em geral, onde pergunta a opinião das pessoas relativamente a questões polémicas de educação de crianças. Como membro da sociedade, seja pai/mãe ou não, toda a gente é filha, neta, irmã, tia, prima, madrinha, amiga, alguns são, como bem disse, educadores de infância, professores, outros pedopsicólogos, pediatras, pedopsiquiatras, toda a gente convive com crianças, em maior ou menor grau, e por isso todos temos uma palavra a dizer e somos livres de o fazer. Não lhe compete a si, nem a ninguém, vir aqui dizer que a opinião de X ou Y é menos válida que a sua e que "ainda vai engolir o que escreveu". Isso é não saber respeitar os outros. Tem todo o direito de dizer que discorda porque A, B ou C, dando a sua opinião, mas abstendo-se de juízos valorativos e evitando os rompantes emocionais.
De Simplesmente Ana a 25.11.2014 às 14:33
Agora deu-me que pensar.
E, já agora, pode-se tomar banho com os filhos? Eu não tomo porque não acho higiénico, mas o meu marido, às vezes, toma. E agora?
De Carla a 25.11.2014 às 14:45
Claro que quem diz que um beijinho nos lábios dos filhos é perigoso, nojento, etc e tal de certeza que acha que tomar banho com os filhos é o apocalipse! O fim do mundo com certeza!
De Anónimo a 25.11.2014 às 14:54
Desculpe, mas não concordo nada. São coisas, de um ponto de vista da higiene, muito diferentes. Uma coisa é o contacto mucosa/mucosa que se tem com um beijo na boca. A boca é um sítio do corpo humano cheio de germes, ao passo que a pele exposta, que é o que contactará entre adultos e crianças durante o banho, já não acumula assim micróbios e porcarias. Fora o facto de, nesse momento, estarem debaixo de água e, por conseguinte, o mais limpos de impurezas possível. Acredite que dar um beijo na boca (de uma criança ou de seja quem for) é bem menos higiénico do que tomar banho em conjunto.
De Carla a 25.11.2014 às 15:12
Eu não sei que tipo de beijos estão a falar mas mucosa/mucosa?... São lábios/lábios sem grande pressão, sem qualquer tipo de "esfreganço", nem nada parecido com um beijo nos lábios de adultos...
De Sara a 26.11.2014 às 10:17
E os lábios são o quê? Uma mucosa...
De Anónimo a 25.11.2014 às 14:51
Nós por cá tomamos todos juntos se for preciso. Começa a ficar dificil cabermos todos, mas uns a entrar e outros a sair é a norma :)
Somos 4, mãe, pai, filho (12) e filha (7).
É tudo feito desde sempre e com tamanha naturalidade que é mesmo só isso: natural!