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Sei que este assunto já foi aqui suficientemente debatido na semana passada (para quem perdeu esses estrepitosos capítulos, é ler isto e isto), mas a Maria João Marques discordou de mim no blogue O Insurgente, e como eu gosto muito da Maria João Marques não queria perder esta oportunidade para polemizar com ela.
Vale a pena ler a totalidade da sua argumentação sobre o facto de achar completamente legítimo que os hotéis mantenham as criancinhas longe dos seus corredores. Mas, ainda assim, deixo aqui um excerto, como amuse-bouche:
Não estamos propriamente num cenário em que os pobres pais não conseguem encontrar um hotel que acolha os seus rebentos. Temos mesmo de começar com conversa de discriminação à conta disto? E porque paramos nos hoteis? Ou nos restaurantes? Porque não aplicar esta mania não-discriminatória a tudo? (...) E uma loja de roupa? Porque diabo uma loja de roupa de crianças pode existir nas versões atuais? Ficamos quedos perante esta discriminação de adultos? E os cabeleireiros para adultos onde nāo há quem saiba cortar o cabelo a crianças irrequietas? É fechar. E aquelas fotógrafas que se especializam em grávidas e discriminam as restantes mulheres? Inaceitável. Mais uma – esta tem muito potencial fraturante -, e as lojas de roupa feminina que só têm números para mulheres magras?
O passo lógico a seguir a isto tudo? Registar na constituição como direito fundamental a dormida em hoteis, idas aos spas e aos restaurantes e por aí fora. E fazer um pronunciamento de inconstitucionalidade para as orientaçōes comerciais das empresas que se destinam a nichos de mercado. Em Portugal, uma empresa ou serve toda a gente ou vá para países amigos da discriminaçāo comercial (e do bom senso).
Ora, ao contrário daquilo que a Maria João argumenta, a questão não está em ter empresas para determinados nichos de mercado, mas em ter empresas que, por lei, têm de ser de livre acesso (exactamente para não poderem impedir a entrada a brancos, pretos, gordos, magros, velhos, novos, cristãos ou árabes, consoante as idiossincrasias dos seus proprietários), a proibirem a entrada a crianças e a pais com crianças.
Pegando num exemplo da Maria João, não é discriminação ter uma loja que só vende roupa para crianças, para homens, para mulheres ou para magras - mas seria uma discriminação uma mulher gorda não poder entrar numa loja para mulheres magras, ou eu não poder entrar numa loja de lingerie feminina com os meus quatro filhos pela mão.
Em última análise, a legislação anti-discriminação existe precisamente porque muitos de nós somos fóbicos em relação a alguma coisa. A verdade, devo confessar à Maria João e aos leitores deste blogue, é que eu sou criançofóbico várias vezes ao dia. O que eu daria para estar permanentemente no silêncio dos deuses. E, como eu, também os donos dos restaurantes e dos hotéis, que se tiverem o seu estabelecimento cheio e puderem escolher, dispensarão sempre - mas sempre - ter crianças a encherem-lhe mesas e quartos.
Porquê? Porque as crianças são uma seca. Fazem barulho. Exigem camas extra. Cadeirinhas especiais. Nos restaurantes, ocupam o mesmo espaço de um adulto, e não só comem bastante menos (se forem bebés, aliás, nem sequer comem), como ainda por cima fazem barulho. Quem é que gosta de aturar crianças? As crianças não se recomendam fora dos parques infantis - e é por não se recomendarem que os seus direitos, e os direitos dos seus pais, devem ser protegidos.
Porque senão, um dia destes, abrindo-se alegremente a porta aos estabelecimentos child free, o que vamos ter é precisamente a tal especialização por nichos de mercado que a Maria João refere. E eu, como pai, passo a estar condenado a comer na McDonald's e em lojas de hambúrgueres até os miúdos terem 18 anos. O país já fecha tantas portas na cara de quem tem filhos. Chamem-me esquisito, mas eu dispenso bem mais esta.