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Nós existimos, meus senhores #4

por João Miguel Tavares, em 28.01.14

Faço muita questão de informar os leitores deste blogue, em primeiríssima mão, que estou a finalizar um livro que reúne 112 textos (para fazer pendant com o número do INEM, que isto às vezes são verdadeiras urgências) sobre esta coisa da paternidade e da vida familiar. Haverá mais novidades em breve.

 

A boa parte desta notícia é que poderão a partir do início de Março encontrar prosa sobre birras e fraldas nas livrarias e na Biblioteca Nacional. A má parte desta notícia é que estou com menos tempo para trabalhar para este blogue e comentar coisas, como vocês, caras leitoras e caros leitores, mereciam - até porque as partilhas que tenho lido, sobretudo a propósito deste post, têm-me impressionado muito. Peço desculpa e espero que compreendam.

 

Mas a verdade é que os posts não escritos acumulam-se, incluindo sobre o tema das relações de longo prazo e o que fazer para lá chegar, que é matéria para infindáveis reflexões (textos anteriores aqui, aqui e aqui). Correndo o risco de estar fora do prazo, que isto já foi para aí há uns 10 dias, não queria deixar passar em branco, ainda assim, este comentário da Leonor (convém lê-lo integralmente aqui, procurando Leonor a 17.01.2014 às 12:57):

 

Quem está confortável com o que é gosta de partilhá-lo e convencer-se ainda mais do caminho que traçou e convencer os outros e mandar recadinhos.

 

Acho que há muito de verdade nesta frase da Leonor. O que ela quer dizer é que estou a falar de barriga cheia (verdade), e portanto isso leva-me a ter prazer na partilha (verdade), e essa mesma partilha alimenta a minha barriga de volta (também verdade). Três verdades indiscutíveis para a Leonor: o entusiasmo com que falo de determinado tema é tanto maior quanto ele se reflecte na minha vida, e à medida que se partilha recebemos o conforto de quem se revê nas nossas palavras, solidificando aquilo que estávamos a dizer em primeiro lugar. Tudo isto está correcto. 

 

Mas eu não vim aqui só para concordar com a Leonor. E a parte em que discordo dela tem a ver com o final da sua frase, sobre "convencer os outros e mandar recadinhos". A parte de "mandar recadinhos" atiro já borda fora, porque a expressão parece pressupor que ando para aqui a mandar indirectas a quem quer que seja. E eu sou mais pelas directas do que pelas indirectas. Mas a parte do "convencer os outros" merece ser reflectida, para eu tentar mais uma vez clarificar a minha posição, para o caso de ela não ter ficado suficientemente clara, até porque pode haver uma tendência discursiva para transfomar uma verdade individual numa verdade universal. E não é nada disso que eu quero. 

 

Interessa-me muito saber se há determinados segredos na relações duradouros que possam ser exportáveis para outros casais. Quer dizer: gostaria de poder aconselhar quem se chega ao pé de mim e me lança o desafio: "explica-me porque é que a tua relação funciona". Infelizmente, não estou certo de o conseguir fazer, daí já me ter perguntado várias vezes (e referido isso mesmo neste blogue), se aquilo a que numa relação frutuosa chamamos "mérito" (ou seja, um conjunto de procedimentos que me ajudam a construir uma relação feliz) não é sobretudo "sorte" (um conjunto de compatibilidades químicas entre dois seres humanos estranhamente complementares). A verdade, provavelmente, estará algures no meio, e será como sempre uma mistura das duas coisas. Não sei ao certo.

 

Mas o que sei é que, sendo esta a minha posição, não há como pretender que eu esteja aqui a "convencer os outros". Convencer os outros a fazer o quê? A replicar algo que eu nem sequer sei como obtive? Claro que, da mesma forma que se eu for um bom escritor acho que sei como se escreve, e se eu for um bom pintor acho que sei como se pinta, também se eu for um bom esposo é normal ter a mania de saber como se consegue um bom casamento. Essa é a reacção natural, e daí que aconteça quase sempre aquilo que a Leonor denuncia - começamos a pregar sobre o nosso modo de vida particular querendo transformá-lo em verdade universal.

 

Mas eu resisto mesmo a isso. A sério. Eu agradecia que este blogue nunca fosse visto como pregação, ou movido por qualquer espécie de impulso missionário. Tirando um núcleo muito pequeno de valores, pelos quais darei sempre a cara e o coração, eu não quero pregar sobre coisa nenhuma. Por uma razão muito simples: não tenho assim tantas certezas sobre tanta coisa, e não quero empenhar o meu pescoço por um futuro que não sei se estarei a altura de cumprir.

 

Dispenso bem um mundo feito de réplicas de Joõezinhos e Teresinhas. A única coisa que eu quero é que o mundo hiper-relativista e mega-auto-centrado em que nos encontramos admita que nós existimos (ou seja, que há relações genuinamente felizes), e por isso faço questão de contar aos outros a minha experiência. Para os evangelizar? Não. Simplesmente para partilhar. Quem quiser aproveitar alguma coisa, aproveita. Quem não quiser, deita fora. E ambas as atitudes são, aos meus olhos, inteiramente legítimas.

 

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publicado às 10:48


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