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O tabu da amamentação #2

por João Miguel Tavares, em 18.11.14

A discussão a propósito deste post, na caixa de comentários, está a atingir níveis particularmente acirrados, pelo que eu pedia um pouco mais de moderação aos leitores, para eu próprio não ser obrigado a moderar o que ali é dito. Como sabem, os meus níveis de tolerância argumentativa são bastante elevados, mas convém mantermo-nos dentro de certos limites de razoabilidade.

 

O que se querem são opiniões equilibradas e, de preferência, argumentadas, como é o caso desta da faty eilans:

 

Confesso que este debate acerca de amamentar me deixa muito frustrada. Ter um seio à mostra para dar de alimento a um filho está longe de ser obsceno, a natureza fez-nos fisiologicamente eficientes. Infelizmente, ter um seio à mostra é visto por uma sociedade dita evoluída como um acto sexual.

 

Logo, esteja o seio à mostra para amamentar ou por qualquer outro motivo, a interpretação do acto acaba por não ser diferenciada. Nos dias de hoje, em que uma mulher é julgada por se sentir capaz de suportar os olhares muito indiscretos na exposição do seu corpo, aceita-se mais facilmente uma Kim "artística" do que uma Alyssa "mãe que alimenta filho".

 

Respeito ambas, mas nunca julgarei uma mãe que alimenta um filho e que o partilhe numa rede social. Como mãe que sou e que amamenta, luto todos os dias contra o preconceito de amamentar em espaços públicos quando a minha filha precisa. Um seio à mostra para amamentação não é um acto sexual, seja ele visto ao vivo ou fotografado.

 

Países como o Reino Unido introduziram o Acto de Igualdade em 2010, de forma que a amamentação não seja ostracizada quando feita em público. Acto este que permitiu a defesa de uma mãe que foi fotografada sem saber a amamentar na rua e a sua foto publicada numa rede social com um título ofensivo. O debate sobre este tópico merece um pouco mais de construção e menos julgamento moral & trocas de insultos.

 

O caso que a leitora refere neste último parágrafo aconteceu em Março deste ano, quando uma inglesa chamada Emily Slough foi fotografada às escondidas a amamentar o filho na rua e a sua foto acabou vítima de insultos no Facebook. A imagem é esta e o inacreditável comentário está em baixo:

 

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O Daily Mail conta a história aqui. Várias dezenas de mães reagiram numa manifestação pública, em que deram de amamentar aos seus filhos no mesmo local em que Emily Slough foi fotografada.

 

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A questão, obviamente, não se coloca apenas em Inglaterra. Aqui encontram um texto brasileiro que faz um bom resumo da situação, e dá exemplos - a meu ver, inconcebíveis - de mulheres que são incomodadas, inclusivamente em instituições públicas, por amamentarem os filhos.

 

Foi o que aconteceu à modelo Priscila Bueno num museu de São Paulo, também este ano, o que deu origem a um protesto no mesmo local semelhante ao das inglesas em defesa de Emily Slough, a que os brasileiros dão o colorido nome de "mamaço". A história pode ser lida aqui.

 

Blog-poster.jpg

 

O facto de estarmos na presença de uma mulher muito bonita, apenas dá razão àquelas que defendem que o problema não está no acto em si mas na cabeça de quem olha para ele. Nesse sentido, não há como negar a utilidade do Equality Act referido pela faty eilans, e que no que diz respeito à amamentação pode ser consultado aqui.

 

O que o Acto de Igualdade diz é muito simples: é considerada discriminação sexual tratar desfavoravelmente uma mulher por estar a amamentar em público. Ninguém pode pedir que pare, nem recusar prestar-lhe um serviço (num café, por exemplo) por causa disso. Parece-me uma coisa básica - mas, pelos vistos, há coisas básicas que necessitam de ser verbalizadas.

 

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publicado às 09:22


2 comentários

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De Anónima a 18.11.2014 às 14:56

O comentário da JP e da Nicole ilustram um bocadinho aquilo que eu passei com as minhas filhas.
Quem me dera que me julgassem por mostrar a mama em público, embora eu ache que como em tudo na vida, temos de ter o mínimo de bom senso e os comentários que li neste blog, que por acaso nunca assisti, desde andar com a mama de um lado para o outro até se decidir dar de mamar, ou de conversar, ou estar no facebook ou fazer outra coisa qualquer ... são de todo reprovavéis.
Pois com a minha filha mais velha, agora com 14 anos, ainda ela não tinha uma semana de vida, após cada mamada já ela chorava desalmadamente. Voltava a colocá-la na mama e ela sôfrega agarrava-a e sentindo que não havia leite, voltava a chorar e foram assim alguns dias de inferno!
Que culpa tinha eu de não ter leite? As pessoas diziam, quanto mais preocupada ficas, menos leite terás! Como podia eu relaxar vendo a minha filha sem dormir, sempre a gritar cheia de fome? Foi horrível! Inevitavelmente acabei por dar-lhe leite artificial que inicialmente ela recusava, mas não tive outra opção! Foi erro meu? O que fiz eu de mal? Com a segunda filha, agora com 10 anos, durante o primeiro mês as coisas correram lindamente. Depois comecei a sentir os peitos vazios. Numa consulta com a obstetra, ela própria me disse que eu não iria ter leite por muito mais tempo! Começou outra vez o inferno ... quem me dera ter leite para dar às minhas filhas! Por todas as razões do mundo, que todos bem conhecem. Mas não tive. Tentei encontrar explicações, todos me diziam que eu não insistia o suficiente. Não sei! A minha mãe que teve cinco filhos, também nunca teve leite. A minha irmã só amamentou os meus sobrinhos até aos 3 meses, depois secou. Será genético?
O problema não era das minhas filhas, elas sabiam muito bem pegar a mama, o problema era não ter lá nada!
Sem imagem de perfil

De Sofia Lopes a 18.11.2014 às 16:08

Tinha leite sim ;) não transmita esse mito às suas filhas por favor.
O que não teve foi um bom acompanhamento profissional, infelizmente, tal como muitas mães. Mas não se martirize com isso, teve pouca sorte com os profissionais de saúde que encontrou pelo caminho...

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