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Voltemos então ao tema das praxes, como prometido, para poder responder a alguns leitores (textos anteriores aqui e aqui).
Deixem-me começar pela Daniela, que afirma o seguinte (05.02.2014 às 14:35):
Entre 1991 e 2014 muita coisa mudou nas universidades e na praxe. O facto de não se ser obrigado a participar na praxe atualmente não é tanga nenhuma. Frequentei uma licenciatura onde apenas 25% dos alunos do 1.º ano eram praxistas: só participava e pertencia à praxe quem queria e isso não gerava problema nenhum...
Se isto fosse verdade para toda a gente, em todos os cursos do país, então eu não teria nada contra as praxes. Eu não sou dos que advoga a proibição da praxe (embora ache que ela não deveria ser permitida nos recintos das universidades), porque não acho que tudo o que é de mau gosto deva ser legalmente punido. Se, como diz a Daniela, as praxes em 2014 "não passam de brincadeiras de estudantes para estudantes, de adultos para adultos, quem gosta participa, quem não gosta não participa e ninguém é ostracizado por causa disso", impecável. Já cá não está quem falou. Mas eu leio certos testemunhos, e vejos muitos alunos passarem por mim durante as épocas de praxe, e tenho a sensação de que não é bem assim. Até porque, Daniela, eu desconfio que se ser praxado fosse como ir votar nas eleições europeias, a abstenção seria bastante maior.
Já o vidaemdidascalia (04.02.2014 às 15:51), como o próprio nome indica, prefere entrar no meu campo favorito e encontrar razões filosóficas e sociológicas para justificar a praxe:
A praxe serve como construção virtuosa do índíviduo, na medida em que o ensina a perseverar enquanto membro de um grupo, na medida em que o ensina a respeitar os seus pares e a fortalecer-se neles.
E continua:
Ela é democrática e inclusiva. É de livre acesso e livre abandono. É inclusiva porque reúne em si indíviduos que a priori pareceriam imiscíveis; reúne o pobre e o rico, o tímido e o extrovertido, o transmontano e o alfacinha.
Confesso que quando se começa a filosofar desta forma, eu sinto alguma comichão. Em primeiro lugar, porque - mais uma vez - ninguém parece admitir a dimensão compulsiva nas praxes. É mesmo de "livre acesso" e de "livre abandono"? Já ninguém impõem nenhuma coisa nos dias de hoje? É o pessoal que se oferece livremente para andar a fazer figuras de urso nas ruas e a levar com merda em cima e a beber o que lhe põem à frente? Oh, meu Deus, não sei se estudei no tempo errado ou no tempo certo: porque, apesar de tudo, eu compreendo melhor as figuras de urso se forem feitas por obrigação do que voluntariamente.
Mas o que me interessa mais discutir é essa ideia da "construção virtuosa do indivíduo", na medida em que a praxe "ensina a respeitar os seus pares e a fortalecer-se neles". A sério? Caros senhores que amam a praxe: eu nunca reconheci, enquanto estudante, e muito menos reconhecerei enquanto pai, que um miúdo que é um, dois ou três anos mais velho do que um caloiro, tenha o direito de se arrogar em exemplo moral ou professor de bons costumes de quem quer que seja. Mas o que é isto agora? O Padre Américo com pandeiretas?
Senhores: esse trabalho de "construção virtuosa do indivíduo" é competência do próprio indivíduo e da sua família. Não de uns gajos vestidos de preto, a quem, talvez pelas figuras que os vejo fazer no meio da rua, tenho algumas dificuldades em reconhecer competência nessa área. Se não se importam, vão construir virtuosamente indivíduos para outro lado. Inscrevam-se na Maçonaria, onde há rituais super-giros. Se calhar sou eu que sou esquisito, mas dispenso bem a educação, a integração e a democratização dos meus filhos pela via da farinha.
E para terminar esta primeira vaga de respostas, cito o Carlos Duarte (04.02.2014 às 15:49):
Vai-me desculpar, mas está rotundamente enganado. A noção de hierarquia (seja formal ou informal) está subjacente à organização do ser humano em Sociedade. Se Vc. rejeita liminarmente a noção de que alguém, por ter mais anos que outrem e existindo uma aceitação mútua da referida hierarquia, possa mandar ou comandar, então tem de rejeitar qualquer relação hierarquizada de trabalho (e, para continuar com o exemplo universitário ou de educação, rejeita qualquer autoridade que um professor possa ter por um aluno).
Vc. escreve "Fora de relações consensuais (sejam amorosas, sejam profissionais) e de punições legais (prisão) (...)". Como digo em cima, porquê as excepções? O que torna uma relação amorosa ou profissional assim tão especial para não se ter "direito de estar ao abrigo do exercício do poder de outro sobre ela"? Aliás, e vai-me desculpar o aparte, acho sinceramente mais grave que numa relação amorosa exista submissão de vontade individual a terceiros. É por aí que começam (muitos) casos de violência doméstica.
Santa confusão, Carlos Duarte. Se existe uma "aceitação mútua da referida hierarquia", então não estou "rotundamente enganado", porque o que eu disse é que a únicas hierarquias que admito são aquelas que são consensualizadas. Ou seja, se eu vou para o emprego, admito ter chefes. Se eu for mandado parar na estrada pela GNR, admito que os senhores têm o poder de me multar. Se eu entrar para a escola, sei que quem manda são os professores. Mas se eu entrar para o primeiro ano da universidade, não reconheço que um estudante mande em mim só porque lá está há mais anos. A antiguidade não é um posto. A hierarquia explica-se pelo mérito ou pela função. Ser mais velho não é um mérito. Ser mais velho não é uma função.
E de repente, a violência doméstica - eis um extraordinário salto epistemológico, só compreensível se o Carlos defender que uma mulher leva na cara porque gosta. Não é essa a definição de violência doméstica. Levar na cara, ou na bundinha, e gostar, chama-se masoquismo, e há uns livros muito recentes e com muito sucesso sobre o tema. É nesse sentido que falava em relações consensuais entre adultos: a violência doméstica é um crime; o sado-maso é um fetiche. E a praxe, demasiadas vezes, é mais violência do que fetiche.
E quem tem dúvidas do impacto que o fantasma da praxe pode ter em certas pessoas com certas personalidades, leia por favor os comentários da anónima de 04.02.2014 às 14:52 e de 05.02.2014 às 12:55.
Mais tarde voltarei só para mais um ou dois pequenos apontamentos.