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Sobre as praxes #2 (com muita autobiografia)

por João Miguel Tavares, em 05.02.14

Ainda antes de responder a alguns argumentos de leitores pró-praxe, que se encontram na caixa de comentários do post anterior, permitam-me uma deriva autobiográfica, porque já estou farto de ouvir gente argumentar que quem se opõe a praxes nunca foi praxado nem sabe do que está a falar.

 

Como argumento, aliás, já vi coisas mais sofisticadas. Se eu estivesse a falar da vida na Lua, as pessoas poderiam, de facto, dizer: "Mas você nunca foi à Lua, sabe lá do que está a falar!" Aí, teriam boas possibilidades de acertar, tendo em conta que apenas 12 pessoas estiveram na Lua (só para os mais curiosos, aqui). Agora, praxes? Qual é a probabilidade de um gajo que é jornalista, como eu, e que tem 40 anos, não ter sido praxado? Hummm, eu não apostava o meu dinheiro, nem sequer os meus argumentos, nisso.

 

Sim, fui praxado. Claro que fui praxado. Aliás, ao contrário da maior parte das pessoas, assisti aos dois tipos de praxe: uma bastante humilhante, no Instituto Superior Técnico, para onde entrei em 1991 para estudar Engenharia Química; e outra bastante mais light e muito mais bem disposta, a que assisti embora já recusando participar, na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, para onde entrei em 1994, para estudar Ciências da Comunicação. 

 

Nesta última já tinha 21 anos e era mais velho do que todos os gajos que me queriam praxar, e portanto mandei-os passear. Eles respeitaram isso. Mas no Técnico, não. No Técnico eu era o típico caloiro amedrontado que chega pela primeira vez a uma universidade - um mundo inteiramente diferente para a maior parte das pessoas, e definitivamente para mim.

 

Nessa época, eu tinha acabado de fazer 18 anos e era um provinciano portalegrense. Lembrem-se: em 1991 o muro de Berlim tinha caído há dois anos. Internet só havia em dois ou três computadores na universidade. O Facebook não tenha sido inventado. Não existiam telemóveis. Eu viva num minúsculo quarto alugado na Manuel da Maia, com uma casa de banho ao lado ainda mais minúscula do que o quarto (era o típico quarto-WC das empregadas de antigamente, com entrada directa para a cozinha) e que tinha um chuveiro eléctrico para aí de 1960, que aquecia a água mal e porcamente. Eu não tinha telefone, e ia dia sim, dia não, a uma cabine pública para falar com os meus pais. E também com a Teresa, que nessa altura eu já tentava convencer a namorar comigo (não foi nada fácil, mas acabou por acontecer poucos meses depois, a 2 de Março de 1992).

 

O dia em que eu cheguei a Lisboa nunca me sairá da memória: era a noite de 6 de Outubro de 1991, quando Cavaco Silva ganhou a sua segunda maioria absoluta. No dia seguinte, segunda-feira, eu iria começar as aulas no Técnico, e a festa da vitória do PSD estava a apenas 200 metros de mim, na Alameda D. Afonso Henriques. Mas eu sentia-me tão assustado e sozinho em Lisboa - cidade a que até então eu viera apenas sete ou oito vezes com os meus pais - que me enfiei na cama e fiquei a ouvir o ruído dos festejos que me entravam pela janela do quarto. Ainda hoje penso: como é possível não ter ido espreitar o que se estava a passar e participar num dia histórico? E eu até tinha votado no PSD. Mas senti-me um puto de província abandonado na capital do país, um passarito caído do ninho, que se escondeu debaixo do primeiro arbusto que encontrou.

 

Digam-me: perante este contexto, perante o puto de 18 anos que eu era, estão a ver-me a ter capacidade para enfrentar um turba de gandulos e dizer-lhes "tirem-me as patas de cima, a mim ninguém me praxa"? Aliás, na altura estava muito longe sequer de se ouvir falar em movimentos anti-praxes. Toda a gente era praxada. Ninguém escapava, a não ser que faltasse à primeira semana de aulas. Coisa que no meu espírito cumpridor era impensável. Donde, essa coisa de ninguém ser obrigado é mega, mega tanga.

 

Por isso, lá fui. Lembro-me de nas primeiras gatinhadelas ter perdido as minhas chaves e de ter ficado em pânico, por achar que não iria conseguir entrar em casa. Pedi para ir à procura das chaves. Não me deixaram, mas alguém as encontrou e deu-mas de volta. Depois, lembro-me de me terem deitado no chão, colocado uma garrafa de vidro vazia no meio das pernas e de uma miúda, como um lápis atado à cintura, ter de enfiar o lápis no gargalo da garrafa - a velha e eterna obsessão sexual e a humilhação pública das mulheres. Finalmente, recordo-me de ter sido obrigado a simular sexo com um sinal de trânsito qualquer, em que me andei a roçar por aquilo para cima e para baixo. Na altura era muito tímido, e essa parte custou-me bastante.

 

Será que graças a isso perdi a timidez? Não me lixem. Se fosse assim tão fácil ultrapassar certos bloqueios, os psicólogos e os psiquiatras estariam no desemprego - todas as pessoas seriam entregues nas mãos dos veteranos, para os seus super-tratamentos de integração de 15 minutos. E, já agora, será que me senti mais integrado na universidade depois disso? Deixem-me rir: consegui sentir-me mal no Técnico todos os dias durante os dois anos e meio que lá andei.

 

Com vêem, a minha praxe esteve longe de atingir o tal patamar de violência que tanto se critica. Não levei com bosta, nem tive de me pôr em cuecas. Mas para o miúdo que eu era naquela altura, foi algo que detestei e algo que temia muito, muito tempo antes. Ou seja, a praxe, para muitas pessoas, é uma violência psicológica ainda antes de acontecer. Sim, eu era um super-coninhas nestas matérias. Mas os super-coninhas também têm direito à existência.

 

Corte para o presente. Por causa destas notícias sobre a praxe, que estavam a dar na televisão, o Tomás perguntou-me o que era isso de "praxe". Eu expliquei-lhe. E ele não mais se calou durante toda a noite. Claramente, nele, a perspectiva de ser praxado, ainda que a dez anos de distância, já é assustadora. Porquê? Porque o Tomás sai ao pai: odeia qualquer tipo de humilhação. E é como o pai era quando tinha a idade dele: Detesta ser gozado. Lida mal com isso. Sente-se profundamente incomodado com críticas àquilo que tem vestido, por exemplo (falei sobre isso aqui). E um dia, ele irá odiar as praxes, ainda que sejam apenas para obrigá-lo a estar numa fila a cantar músicas parvas ou a ir buscar fotocópias à reprografia.

 

Mais daqui a pouco prentendo regressar a argumentos menos biográficos do que estes, para responder a leitores. Mas quem quiser fazer leituras psicanalíticas sobre as minhas opções públicas e as minhas convicções filosóficas, já tem aqui muito com que se entreter.

 

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publicado às 11:40



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