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Sobre a agressividade

por João Miguel Tavares, em 17.10.14

Deixem-me só dizer uma palavrinha sobre a agressividade argumentativa e a forma como eu a encaro, já que hoje a Teresa Power e o João Miranda Santos voltaram a queixar-se disso.

 

Escreveu a Teresa:

 

Enquanto se ler o meu primeiro comentário como se fosse um post, e não se ler como comentário a um post, e portanto intimamente relacionado com um post, post esse que ridicularizava a posição da Igreja e a posição dos pobres católicos (um em cada dez) que a seguia, então faz sentido apelidar-me de todos os nomes que me chamaram até agora. Mas eu escrevi na sequência de um post bastante agressivo, e portanto procurei explicar, em termos propositadamente agressivos também, porque é a posição da igreja tão séria neste assunto. Enfim, podem continuar a atacar e a deixar impune quem fala com tanta ligeireza destas coisas. Não há problema!

 

Concordou o João:

 

Nisto tenho mesmo de concordar e apoiar a Teresa Power, a agressividade começou e está bem patente na forma como o JMT falou da Humanae Vitae e dos católicos que a seguem. Nós reagimos, com certeza, acho que temos o direito de sair em defesa da nossa "família"!

 

Passemos por cima do facto de eu achar que a minha "família" é a mesma que a do João, e recuperemos os meus argumentos do post inicial, que deu origem a este muito útil e instrutivo debate:

 

Mesmo os católicos ignoram olimpicamente as directrizes da Igreja em relação aos anticoncepcionais, e eu não tenho dúvidas em classificar a famosa encíclica Humanae Vitae (1968) e a sua visão da regulação da natalidade como um momento muito infeliz na história da Igreja. Espero que essa visão venha a mudar brevemente, porque nove em dez católicos não conseguem sequer perceber - porque, simplesmente, não se percebe - por que raio a utilização de um preservativo interfere na sua relação com Deus.

 

Foi este parágrafo, apelidado de "bastante agressivo", que deu origem a um comentário, que ela própria também já classificou como "em termos propositadamente agressivos", da Teresa Power, cuja primeira frase era:

 

Podes usar as pílulas e os preservativos que quiseres, desde que não estejas a chamar à tua relação um espelho da relação entre Cristo e a Igreja, ou seja, um sacramento.

 

Neste post, eu chamei a esta frase uma entrada "a pés juntos". Mas acrescentei: "eu não sou queixinhas".

 

E não sou mesmo queixinhas, por uma razão muito simples: eu ganho a minha vida a opinar sobre tudo e mais alguma coisa, e nunca o fiz, nem aqui nem nos jornais, com paninhos quentes e mãos de veludo. Adoro debates, contra-argumentos, contraditórios, sempre gostei, desde criança. Da mesma forma que correr me faz bem ao corpo, discutir faz-me bem à cabeça.

 

Por isso, tenho uma enorme tolerância em relação a posts que discordam de mim, modero os comentários ao mínimo e adoro debates musculados - eles são uma tradução desse extraordinário bem chamado liberdade de expressão.

 

Em momento algum eu me senti ofendido com as observações da Teresa Power ou do João Miranda Santos. Mas agradecia, por amor de Deus, porque não acho que seja pedir muito, que subitamente não me transformem a mim no ofensor dos católicos que praticam os métodos naturais, ok?

 

Caro João: em momento algum eu fui agressivo para com os católicos que recusam a contracepção. Dizer que que nove em dez católicos não percebem por que raio a utilização de um preservativo interfere na sua relação com Deus, e que eu não atinjo os argumentos que defendem essa posição, não significa que quem utiliza os métodos naturais mereça alguma crítica da minha parte por essa prática.

 

A diferença entre nós é muito simples: eu acho que a questão da contracepção está fora da revelação bíblica e acho que tem tanta importância na minha relação com Deus como eu comer à mesa com pratos do IKEA ou da Vista Alegre. O João acha que a minha concepção de contracepção diminui, efectivamente, a perfeição da minha relação com Deus.

 

Embora muitas críticas à vossa intolerância me pareçam descabidas, e daí ter dado voz às queixas da Teresa, elas são compreensíveis dentro de uma mera perspectiva lógica, que podemos resumir desta forma: eu não acho (de um modo geral) que quem utiliza os métodos naturais seja prejudicado na sua relação com Deus, você acha (de um modo geral) que quem não utiliza os métodos naturais é prejudicado na sua relação com Deus. Portanto, é óbvio que a sua posição é mais limitadora de um determinado agir - daí alguns lhe chamarem, ainda que abusivamente, intolerância. Não é difícil perceber isso.

 

Tal como não é difícil, cara Teresa, perceber porque é que tanta gente te achou mais agressiva do que eu. Também é muito simples: eu fiz uma crítica abstracta à Igreja - ou, para ser mais correcto, à posição oficial do Vaticano sobre esta matéria, porque como dirás tu, e bem, Igreja somos todos nós - e tu rebateste-a com uma crítica concreta à minha relação, dizendo que não lhe posso chamar "um sacramento". Foi isso que chocou muitas pessoas, que obviamente sentem que existem diferenças entre o geral e o particular.

 

Como já disse anteriormente, eu sou muito, muito difícil de ofender. Sempre fugi a sete pés de pessoas susceptíveis, daquelas junto às quais temos de andar cuidadosamente a policiar as palavras, a ver se não amuam. Mais do que isso: sem esperar que qualquer um de nós mudasse a sua posição inicial, como referi aqui, o teu comentário musculado permitiu um debate que me pareceu frutuoso para muita gente e deu-me oportunidade para eu falar da minha própria fé, uma promessa antiga mas sempre adiada. Agradeço-te por isso.

 

Peço, contudo, tanto ao João como à Teresa, que de repente não tomem para vocês um papel de perseguidos e de ofendidos. Diante daquilo que aqui foi dito, parece-me uma posição francamente deslocada.

 

Num outro comentário, a Guida utilizou uma expressão que me parece de um acantonamento impróprio do espírito do catolicismo. Escreveu ela:

 

Só deve seguir as orientações da Igreja quem está dentro dela, pelo que não entendo porque é que tanta gente que se diz ateia está preocupada e até indignada com o que a Igreja pensa sobre o assunto...

 

Lamento, Guida, mas não posso estar mais em desacordo. A Igreja tem uma vocação universal e não pretendeu nunca falar apenas para dentro dela. Despachar as críticas aos métodos naturais com um "mas o que é que vocês têm a ver com isso se não pertencem à Igreja?" não é apenas um afastamento em relação a um espírito missionário que se recusa a pregar apenas para os convertidos - é, também, um caminho muitíssimo perigoso para trilhar. Será que utilizarias esse argumento, por exemplo, em relação ao aborto? Parece-me evidente que não.

 

As pessoas aderem ou não aderem àquilo que defendemos, mas os argumentos não têm de ser debatidos apenas por membros do clube.

 

E se eu escrevi ainda mais este post, que já não planeava escrever, é porque, aos poucos, me foi ficando uma certa sensação de defesa do meu quadrado - se estão de fora, não se metam; se o ambiente está muito agressivo, então não quero estar aqui.

 

Os primeiros apóstolos morreram crucificados, apedrejados, queimados. Será que hoje em dia, nós, católicos, para defendermos as nossas convicções, já nem sequer aguentamos comentários discordantes ou mais ou menos desagradáveis nas redes sociais? Se assim for, eu diria, muito sinceramente, que alguma coisa de fundamental se perdeu pelo caminho.

 

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publicado às 15:11



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