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Tendo em conta que, nos comentários a este post, a Antónia Guerra e a Patrícia Fernandes falaram ambas de uma imagem do livro que nunca mais esqueceram, sobre uma relação sexual representada com a "zona genital transparente", não resisto a reproduzir aqui essa página, para efeitos de nostalgia softcore.
Lá está o truca-truca à transparência. Como vêem, não estava a mentir quando disse que o livro me parecia atrevidote para crianças dos sete aos nove. Os nossos pais estavam muito à frente.
Mas, curiosamente, o texto que acompanha esta ilustração tem um je ne sais quoi de conservadorismo. Ora vejam:
Rapazes e raparigas gostam de estar juntos. Passeiam, vão ao cinema, emprestam livros e discos uns aos outros [reparem que há aqui uma certa erudição], encontram-se durante as férias.
E depois, um belo dia, um rapaz e uma rapariga descobrem que, como a tia Teresa e o tio Roberto [nota mental: perguntar à Teresa se conhece um Roberto] outrora, gostam de ficar a sós.
Quando estão sozinhos, apreciam muito conversar, mas têm, também, grande prazer em beijar-se [reparem: "também" têm prazer em beijar-se, mas apreciam sobretudo conversar].
Anseiam por viver juntos e procurarão ficar sempre cada vez mais próximos um do outro [ou seja, não há cá truca-truca sem desejo de juntar os trapinhos, que isto é um livro com desenhos de sexo explícito, mas respeitável]. O contacto dos seus corpos e a troca de carícias constituirão, para eles, uma grande felicidade [confere]. Um dia, finalmente, quererão unir-se por completo [linda expressão] e, mais feliz do que nunca [confere], o rapaz introduzirá o seu pénis na vagina da rapariga [não há hipótese: "introduzir pénis na vagina" continua a ser a expressão mais anti-clímax da história do sexo], experimentando ambos um novo prazer, que se denomina prazer sexual [é um livro optimista, que acredita que toda a gente sai satisfeita].
No momento em que o prazer é mais intenso, os espermatozóides saem do pénis do homem e entram pela vagina da mulher, percorrendo o tubo [o "tubo"?]. Algumas vezes, um deles encontra um óvulo no seu percurso. É dessa maneira que se pode, se assim se desejar [e muitas vezes não desejando], ter um bebé.
Ando a arrumar as estantes de livros dos miúdos e a tirar de lá coisas a que eles já não ligam nenhuma. No meio dessas andanças, encontrei um velho livro meu (ou seria do meu irmão?), que a minha mãe comprou quando eu ainda era criança: Enciclopédia da Vida Sexual 7/9 anos, da autoria de quatro ginecologistas franceses.
A minha edição é de 1975, gloriosos anos revolucionários, e o que me interessa não é tanto o seu conteúdo, embora em certas coisas me pareça um pouco atrevidote para putos de sete anos, mas sim a sua capa.
Ora, isto hoje em dia seria absolutamente impensável. Não só por "gente nua em cadeirão de verga" remeter automaticamente para um filme erótico que era contemporâneo desta edição, o clássico Emmanuelle (1974), com Sylvia Kristel,
como por numa época tão marcada pelos escândalos da pedofilia e a protecção das crianças, qualquer espécie de nudez infantil ter sido totalmente banida do espaço público.
Por curiosidade, andei à procura de uma edição mais recente dessa obra publicada em Portugal. E encontrei-a à venda no OLX. A capa, como seria de imaginar, não tem nada a ver: