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Aprendemos com a raposa do Principezinho que, se soubermos as horas certas a que chegam as pessoas de quem gostamos, podemos começar a ser felizes ainda antes de elas chegarem. A raposa da Teresa teria muito que penar, na medida em que a pontualidade é a única qualidade que lhe falta. Mas, em compensação, ficámos a saber, pelo último post da Teresa, que a sua raposa aprecia ser infeliz muito antes de ter chegado, numa espécie de versão nietzschiana do livro de Saint-Exupéry - um Anti-Principezinho e uma anti-raposa, por assim dizer, que daria qualquer coisa como isto:
Se tu me telefonares às três da tarde a dizer que a Rita bateu com a penca no chão, eu posso começar a ser infeliz mais cedo. Como só vou chegar a casa às três da manhã, tenho 12 horas para ser infeliz. Quanto mais tempo passar até eu chegar, mais infeliz posso ser. Estarei cada vez mais inquieta e agitada, e descobrirei o preço da infelicidade! É preciso ritos.
Não sei porque é que o Sain-Exupéry preferiu a outra versão, quando esta faz tão mais sentido...
Digam-me: é só uma coisa da Teresa, ou todas as mulheres gostam de saber tudo a toda a hora? A Rita caiu e eu vi-a cair - foi mesmo directamente de nariz+lábio ao chão, numa queda aí de meio metro de altura. Não é que se tenha atirado do Empire State Building. A Rita ainda tentou proteger-se com as mãos, que ela já começa a desenvolver alguma esperteza, mas não chegou. Daí o lábio um bocadinho cortado pelas suas favolas e o nariz a deitar sangue.
Esta fase dos miúdos de ano e meio/ dois anos é sempre um pouco complicada, porque nunca sabemos bem o que eles conseguem fazer sozinhos. Eu tenho a mania de lhes dar a maior independência possível, e às vezes engano-me nas contas, como foi manifestamente o caso. Mas não houve cortes profundos, nem narizes tortos, até porque os miúdos nesta altura são de borracha e têm super-plaquetas. O sangue estancou em 10 segundos, ela não bateu com a cabeça. Foi uma queda maior do que é hábito, nada mais.
Sabendo eu o que fazer, para quê estar a chatear a Teresa, que estava de banco e só saía de madrugada? A opção por não lhe pôr gelo foi consciente, apesar de eu saber que a Teresa é uma fanática do gelo - ela precisava do conforto da chucha naquele momento e pôr-lhe gelo na boca iria dar origem a berraria de meia-noite. O corte não era grande, achei melhor assim, embora a sotôra discorde, provavelmente com razão. Mas para quê telefonar imediatamente, com a miúda aos berros? Para a Teresa ficar com o coração aos pulos?
Eh pá, eu sou completamente pró-verdade, pró-sinceridade e tudo o mais. Mas também sou pela poupança de desnecessárias preocupações quando a situação não justifica alarme. Que sentido faria uma médica que recebe pessoas com enfartes ficar 12 horas preocupada com um lábio inchado e um nariz esmurrado? Chamem-me insensível. Mas, como bem sabe que já viu esse grande filme chamado The Matrix, às vezes (só às vezes), a ignorância é uma bênção:
Relaxem, minhas senhoras. A intenção foi boa e em momento algum eu quis esconder o que quer que fosse, ok? Matem lá essa anti-raposa que vive dentro de vós.
A propósito deste meu post, sobre como sair de casa é muitas vezes apenas uma óptima forma de estarmos mais próximos uns dos outros, a Teresa Power deixou o seguinte comentário:
Não é, realmente, preciso ir à Disneylândia - e nos tempos que vivemos, quantos portugueses se podem dar ao luxo de viajar para fora do país? Umas mini-férias de carnaval com seis crianças meio engripadas em casa, a chover lá fora, muitas histórias para contar, muitas batalhas de índios e cowboys para gerir, muitos desenhos para pintar, muitos abraços para dar, misturados com benurons e brufens... Que maravilha!
A noção de cultura também é relativa... Subir à Torre Eiffel não é um acto cultural mais importante do que aprender a distinguir espinafres de agriões - e eu só aprendi esta diferença ao decidir vir viver para o campo, depois de uma vida inteira na cidade, e plantar uma horta no meu quintal! A cultura, afinal, pode estar também no nosso jardim...
Eu conheço a Teresa Castel-Branco Power há tantos anos como a Teresa (ambas cresceram em Castelo Branco), até porque nos encontrámos precisamente no mesmo sítio: num retiro de três dias de um movimento católico chamado Convívios Fraternos, tinha eu acabado de fazer 17 anos. As nossas vidas seguiram depois rumos diferentes, mas fomo-nos encontrando aqui e ali, e a Teresa tem hoje uma família invejável com o Niall (daí o apelido Power - ele é irlandês), a crescer ali para os lados de Aveiro: são seis crianças impecáveis dos quinze anos ao um ano de idade.
Sempre conheci a Teresa Castel-Branco (ainda antes de ser Power) como alguém que vive a sua fé muito profundamente, e as suas convicções religiosas, ao contrário das minhas, nunca vacilaram, mesmo nas alturas mais difíceis (e houve várias, e muito difíceis). Ela tem um blogue onde fala da vivência católica da sua família, chamado precisamente Uma Família Católica. Vale a pena passar por lá.
Eu ando há imensos meses para escrever aqui sobre a questão da fé na nossa família, pelo menos desde os tempos em que algumas leitoras se meteram comigo sobre a frequência da missa nos comentários a este post. Mas, por uma razão ou por outra, incluindo o facto de o assunto ser bastante complexo para mim, fui sempre adiando. E hoje vou adiar mais uma vez - mas, pelo menos, fica já publicamente prometido vir a postar sobre fé e família um dia destes.
Este enquadramento serve para que se compreenda melhor o comentário da Teresa Power e a sua defesa das coisas simples da vida, pois é nelas que encontramos com maior facilidade as graças de Deus. De facto, nessa perspectiva, subir à Torre Eiffel não é mais importante do que saber distinguir espinafres de agriões. Até porque o mais importante, no entender da Teresa, está sempre ao nosso lado e nunca nos abandona.
Infelizmente, a minha fé nunca foi tão grande quanto a dela e os anos não me têm tornado mais crente. Nesse sentido, não me considerando eu detentor das chaves de uma qualquer revelação ou de um caminho único para propor aos meus filhos, a experiência da viagem é, para mim, fundamental - porque é, por excelência, a experiência do Outro. Daquele que é diferente de mim, daquele que não fala a mesma língua, que não pensa como eu, que tem outros hábitos e uma cultura distinta, e que por isso me pode enriquecer na sua imensa diversidade.
Possivelmente por eu ser uma pessoa muito pouco contemplativa, porque para mim rezar sempre foi embater no silêncio, e porque a minha fé tem a espessura de um fio de cabelo, eu fraquejo sempre quando se trata de propor caminhos muito claros e muito certos para os meus filhos, daqueles que vão bastante além da chamada regra de ouro (aqui em português, aqui em inglês), praticamente transversal a todas as religiões.
O meu pensamento é um "pensamento débil", tal como ele foi definido por Gianni Vattimo, numa tentativa de encontrar um meio caminho entre as verdades absolutas de metafísica e a futilidade (e impraticabilidade) do puro relativismo. As primeiras tendem historicamente para a violência, o segundo não serve de nada quando se trata de definir um agir (e muito menos um educar).
Daí que a minha tendência seja sempre para privilegiar a Torre Eiffel em vez dos agriões, a diversidade cultural em vez da natureza pura, o contacto com as verdades dos outros em vez do cultivo da minha própria e singular Verdade - até porque não a tenho com suficiente convicção.
Eu acredito profundamente no conceito de família como uma força estruturante da humanidade. Mas tenho muito poucas soluções para oferecer aos outros. O máximo que posso dizer é: "reparem, eu sou assim"; "olhem, nós fazemos assim". E, de seguida: "digam-me também como vocês fazem". Porque eu quero muito aprender com os outros - bem vistas as coisas, acho que não tenho feito outra coisa neste blogue.
É por isso que, embora saiba que a minha casa é aquilo que de mais precioso tenho, acredito que a boa educação dos meus filhos passa por os empurrar frequentemente para fora dela. Não tendo eu um caminho único para lhes propor, gosto que contactem com a diversidade dos caminhos à sua disposição. Eu tenho imensa inveja de quem consegue realizar-se com muito pouco, de quem consegue ver Deus no grão de trigo (ou no espinafre, ou no agrião), como a Teresa consegue.
Mas os míopes da fé, como eu, têm de se aproximar de tudo, têm de pôr a mão em tudo, como São Tomé, e para isso é imprescindível ir, ver, estar, mexer e duvidar. Disse que não ia falar de fé, e reparo agora que não falei eu de outra coisa.