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Teremos nós o direito de criticar Renée Zellweger?

por João Miguel Tavares, em 22.10.14

A propósito da plástica radical de Renée Zellweger, a jornalista Jennifer Gerson Uffalussy escreve um texto no Guardian em sua defesa, cujo título é suficientemente esclarecedor:

 

Nothing is wrong with Renee Zellweger's face. There's something wrong with us

 

O seu comentário vale a pena ser lido, e basicamente chama hipócrita a uma sociedade e a um sistema que deixa sem trabalho as actrizes que envelhecem, ou que as critica mal vislumbra um vestígio de celulite ou de barriga (o ridículo caso Jessica Athayde é uma boa defesa deste argumento), ao mesmo tempo que goza com elas e as tritura na praça pública se se atrevem a fazer plásticas.

 

Suponho que nos meios do cinema e da moda esse seja um argumento que faça sentido. Mas aqui no PD4 sempre nos honrámos de elogiar as marcas do tempo e sempre elogiámos essa extraordinária arte que é saber envelhecer.

 

Por isso, apesar da passagem do tempo ser cruel para todos nós, e sobretudo para as actrizes cuja beleza física é parte fundamental das suas carreiras, a verdade é que a transformação do corpo num campo de experiências plásticas que procuram perpetuar, de forma cada vez mais radical, uma juventude que já não existe, faz-me, de facto, muita impressão.

 

Além disso, parece-me que Jennifer Gerson Uffalussy passa ao lado do fundamental. Porque se a mim me fazem realmente muita impressão as cirurgias plásticas de Meg Ryan (logo ela...)

Meg-Ryan.jpg

ou da própria Nicole Kidman,

490186969.jpg

é porque em boa parte porque estamos a falar de actrizes que fazem parte de um imaginário cinéfilo e sexual (as coisas misturam-se) que nos é muito caro. Contudo, manda o rigor admitir que o caso de Renée Zellweger é muito diferente.

renee3.jpg

Diante de nós não está alguém que procurou apenas rejuvenescer - está uma outra pessoa (bonita, por sinal), que nós não reconheceríamos se passasse ao nosso lado na rua.

 

Claro que podemos sempre questionar a nossa legitimidade para falar com tanta facilidade, e tanta crueldade, sobre uma pessoa que não conhecemos, só porque ela é actriz - no entanto, esse é um outro assunto (aliás, bastante discutível, diria eu).

 

No entanto, esta ideia de termos de ser outros para permanecermos jovens é, obviamente, chocante, e não me parece que haja aí qualquer espécie de hipocrisia. O que nós vemos nestas fotos é a mutilação de uma identidade. E perante ela, reagimos como reagiríamos diante de qualquer mutilação - com horror. E com pena. 

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publicado às 12:40


29 comentários

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De Isabel a 22.10.2014 às 16:28

Claro que não se pode criticar, cada um é dono de si, sabe da sua vida e está no seu direito de fazer dela o que quer desde que não prejudique a dos outros, no entanto lamento porque não tendo ficado feia ficou banal, desapareceram as características físionómicas que a tornavam única e diferente das outras mulheres/actrizes.
Não estará o segredo em aprender a tirar o melhor proveito daquilo que nos define e torna diferente dos demais? Que ganhamos em ser todos iguais?
São apenas considerações, se era o que ela queria, ficou muito bem e (para o que vale) desejo-lhe felicidades.
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De Rita Martins a 22.10.2014 às 15:48

Pois, quando li o artigo no Guardian pensei mas que raio de sociedade a nossa, noticias destas são cada vez mais frequentes. Cada vez mais damos importância a estas tretas da imagem! Estou, muito honestamente, farta.
Se dedicássemos mais tempo a olhar para o que verdadeiramente importa, como, por exemplo, o país em que vivemos, e usássemos essa energia para não nos conformarmos... suspiro.
Ela emagreceu e envelheceu.Foi isso. Diz que está feliz e isso é o que importa. Com a maioria de nós vai ser pior... vamos envelhecer e engordar e não vamos ter metade da qualidade de vida que ela terá.
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De Anónimo a 22.10.2014 às 15:37

Não critico só não sei se será a mesma pessoa, eheheh
Fora de brincadeiras...cada qual é livre de fazer o que lhe apetece desde que isso não prejudique quem o rodeia!!!!
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De José Moreira a 22.10.2014 às 15:20

Se ouvissem Sérgio Godinho, nada disto acontecia:
http://www.youtube.com/watch?v=8Tx0JVNMHFg

Agora a sério: a sociedade tem as costas largas. Há actrizes que envelheceram, não fizeram plásticas (pelo menos deste nível), continuam belas, continuam a ser acarinhadas pelo público, e continuam a ter trabalho (não representam papéis de meninas de 20 anos, claro). Só alguns exemplos: Susan Sarandon; Meryl Streep.

A história do "sistema" não pode desculpar tudo. Isto são complexos individuais de quem tem muito tempo livre, demasiados espelhos em casa, e muito dinheiro para gastar.

Se a culpa é do sistema, essas actrizes estão em posição privilegiada para lutar contra ele: basta deixarem de fazer plásticas, defenderem a beleza natural (em qualquer idade), e até lançarem campanhas anti-cirurgia-plástica (porque não?).

Se são capazes de deixar de usar casacos de pele de marta para defender os animaizinhos, também serão capazes de defender a beleza feminina, em vez de promoverem este tipo de beleza artificial, que, muitas vezes, para ser obtida, coloca em risco a própria saúde.
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De CO a 22.10.2014 às 15:35

100% de acordo!
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De Paula a 24.10.2014 às 17:48

É mesmo isto que sempre pensei. As boas actrizes continuam com bons papéis, adequados à idade delas. Veja-se uma Judy Dench, uma Kate Winslet (ainda não é velha, mas também já não é nova), etc.
Acho é que não se pode ter 50 anos e querer-se fazer o papel de filha adolescente quando já estamos mais para avós dessa adolescente.
Que papel daria um realizador neste momento a uma Meg Ryan? Um bom papel adequado à idade dela não combina com a cara que tem. E podiam ficar apenas mais novas, mas acho que, com o tempo, ficam desfiguradas. As plásticas parecem-me sempre que começam a "descolar-se".
Digo novamente, as boas actrizes continuam com bons papéis.
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De maria a 22.10.2014 às 15:08

Criticar o uso de plásticas não. as pessoas são livres de fazerem o que querem com o seu próprio corpo.
Lamento é que uma mulher bonita, com um rosto tão carismático, com um rosto especial fora do comum das mulheres, se tenha transformado em mais uma vulgar face criada á força de bisturi.
Eu preferia a anterior Renee Zellweger.
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De Mário Cordeiro a 22.10.2014 às 15:07

Pessoalmente, acho que as pessoas maiores e "vacinadas" têm o direito de fazer o que lhes apetecer. Que eu ache ridícula a excessiva preocupação com a imagem e que a minha fantasia me diga que numa pessoa que quer permanecer "forever young" há algo que não está bem, até porque não saboreia o gosto indizível do envelhecimento, porque envelhecer é muito mais do que decrepitude, perda de capacidades ou senilidade, isso é outra coisa. Ou que, no caso concreto, a Renée, a Carla Bruni e outras tantas fiquem - no meu conceito estético - muito piores e, curiosamente, iguais umas às outras, perdendo o que as distinguia.
Agora, desde que não me obriguem a fazer plásticas ou a pintar o cabelo... acho que acaba por ser uma "não-notícia"...
PS: por exemplo, mais do que as plásticas do Jorge Jesus, preocupa-me as plásticas que ele faz à equipa, como no sábado passado...
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De Anónimo a 23.10.2014 às 14:31

O Jorge Jesus faz plásticas?? Apre, pensava que só fazia madeixas.
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De LxRex a 22.10.2014 às 15:02

Hmm e o caso dos travestis/transsexuais? Será, ou não, uma mutilação da identidade?

Ou o caso das mulheres que são obrigadas a usar - ou a deixar de usar - a burka? Não será igualmente uma mutilação da sua identidade?

Até que ponto não se confunde a nossa suposta identidade pública (exterior) com a nossa suposta identidade individual (interior)? E poder-se-á falar de uma identidade humana (meramente humana) como algo objectivo e perene?

A identidade das figuras públicas sempre foi, em grande parte, construída pelos media... O que cada um pensa da figura A, B ou C - se é atraente ou não, logo para começar - está muitas vezes nos antípodas do que qualquer outra pessoa pensa dessa mesma figura. No entanto, o status quo generalizado (da opinião pública) relativamente à beleza, simpatia, talento, etc. de determinada figura é criado pelos media.

(E quanto à nossa própria identidade poderá até não passar de uma auto-ilusão criada pelos nossos cérebros: http://amzn.to/1yYatix O ego poderá não passar de um quase perfeito truque de magia da consciência: http://amzn.to/1t4UhIW )

A Renée Zellweger não trocou de nome - quem se recorda dos nomes de baptismo da maior parte das celebridades e estrelas? Não trocou de sexo, nem de orientação sexual; não trocou de estado civil 5 ou 7 vezes; não trocou de religião; não trocou de tatuagens, nem trocou significativamente a cor do cabelo; não trocou de peso uns 30kg a mais, ou a menos; não trocou a tez da pele... Trocou as feições do rosto.

Mutilou a sua identidade? OU encontrou a sua identidade? Como diria Nietzsche, é nosso dever tornarmo-nos aquilo que somos...
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De J a 23.10.2014 às 02:35

De acordo. Há um certo preconceito social contra a cirurgia plástica, que me parece exagerado. Acho até que estas intervenções podem ser, para a pessoa, algo extremamente importante na continuação do processo de desenvolvimento enquanto ser humano.

Afinal, todos temos a tendência de tentar melhorar continuamente aquilo que achamos que está errado em nós, ou que não nos agrada tanto.

E estas técnicas, que existem há poucas décadas, irão provavelmente no futuro ser cada vez mais habituais, indo a sociedade obviamente se adaptando a elas.
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De Anónimo a 23.10.2014 às 14:52

Acho que aqui não se está a abordar a identidade da senhora a um nível tão profundo, mas apenas a questão da sua imagem, que é (ou era) a faceta mais imediatamente reconhecível pelo público da sua identidade como persona cinematográfica. Julgo que ninguém estará a considerar que o procedimento cirúrgico lhe alterou a personalidade, princípios, ideologia,..., ou mesmo que a atriz tivesse esse propósito. Com elevadíssimo grau de probabilidade procurava muito prosaicamente apenas travar ou regredir os sinais de envelhecimento visíveis, numa sociedade onde se venera a eterna juventude, muito à conta da promoção do mito pelo showbusiness, onde a senhora participa e para o qual contribui.
Se realmente com o procedimento procurava a sua verdadeira identidade ou, na aceção nietzschiana, tornar-se o que é, só se a dita for de alguma espécie não humana em que não se envelhece ou se rejuvenesce, se calhar descendente do Benjamin Button.
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De Alexandra Martins a 22.10.2014 às 14:52

No que diz respeito ao envelhecimento das estrelas, a Vogue lançou há pouco tempo um artigo sobre isso:

http://www.vogue.xl.pt/estilo/personalidades/detalhe/os_entas.html

Há pessoas que optam por plásticas e outras que optam por envelhecer naturalmente. Algumas (de ambos os lados) mantêm-se na ribalta e outras nem tanto. Eu diria que o talento e o profissionalismo também interferem com isto, mais até do que a aparência, afinal ninguém quer uma "personagem avó" a parecer uma "atriz neta".
Contudo, o que aqui me faz mesmo confusão é não reconhecer um único traço entre a Renée e esta pessoa que surge agora nas fotos. A diferença é tão grande que ela não pode afirmar simplesmente ter sido o envelhecimento normal (como a própria afirmou: “Se calhar estou diferente. Quem não fica quando envelhece? Mas estou diferente. Estou feliz.” - ler aqui http://lifestyle.publico.pt/noticias/340618_renee-zellweger-responde-a-comentarios-sobre-a-sua-cara).
Ainda bem que está feliz, mas não pode censurar as pessoas por a acharem DEMASIADO diferente, tanto que levanta muitas especulações...
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De Gisela a 22.10.2014 às 14:38

Desculpe, mas ridículo mesmo é acharmos que o caso Jessica Athaide é de todo um "caso". Alguém disse que a moça estava gorda o que é idiota, claro, mas a moça amuou de tal forma que se decidiu intitular de mulher real (?) e falar às mulheres reais como ela (??). A mesma que no seu bloga trata outras mulheres, aparentemente não tão reais, de "bimba gorda". Pois, um exemplo a seguir...
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De Anónimo a 22.10.2014 às 14:36

gg

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