Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]





Uma história de violência doméstica

por João Miguel Tavares, em 17.02.14

Nota de 18 de Feverereiro de 2014: a autora destas fotos, Sara Naomi Lewkowicz, contactou-me via email para me informar que apenas autoriza a publicação de uma das suas fotos no blogue Pais de Quatro, pedindo que as restantes sejam redireccionadas para locais onde a sua publicação esteja legalmente autorizada. O melhor local é este, da Alexia Foundation, que lhe concedeu uma bolsa para a execução do projecto. Mesmo sem as fotos, decidi manter o texto original. As minhas reflexões sobre a posição da autora podem ser encontradas aqui.

 

 

Estava a ler o Diário de Notícias de sábado e a ver os vencedores do World Press Photo de 2014 quando me deparo com esta foto da americana Sara Naomi Lewkowicz, uma de um conjunto de 12 sobre violência doméstica, vencedoras do primeiro prémio na categoria de Histórias Contemporâneas.

 

 

A legenda dizia apenas: 

 

A pequena Memphis, de dois anos, corre e coloca-se entre a mãe Maggie, que está a ser ameaçada pelo namorado Shane.

 

Como imaginam, fiquei impressionadíssimo pela foto, não só por causa da reacção de desespero da criança, de uma espontaneidade tal que não pode ser encenada, mas também por todas as outras questões que uma imagem destas levanta: como é que a fótografa tirou isto?, como é que o abusador permitiu que fosse fotografado a agredir a sua mulher?, qual a história que se esconde por detrás desta imagem?

 

Já que o jornal não fez esse trabalho, fui perguntar ao senhor Google, que sabe tudo, e a história é esta.

 

Sara Naomi Lewkowicz começou por querer realizar um trabalho fotográfico sobre a integração na sociedade de condenados após saírem da prisão. Shane, o homem que está nestas imagens, tem 31 anos, e passou metade da sua vida encarcerado. Maggie tem 19. Os seus dois filhos - Memphis, de dois anos, e Kayden, de quatro - não são filhos de Shane, mas de uma relação anterior de Maggie, que terminara meses antes.

 

Maggie e Shane conheceram-se através da irmã dele antes da sua última detenção. Tornaram-se amigos próximos enquanto ele esteve preso e começaram a namorar quando saiu. Essas são as primeiras imagens que Sara Naomi Lewkowicz tem para nos mostrar. Imagens - grandes imagens, diga-se - de paz e amor.

 

Shane estava tão apaixonado por Maggie que pouco depois de terem começado a sua relação fez uma gigantesca tatuagem com o seu nome no pescoço.

 

Infelizmente, o seu cadastro criminal e até as suas tatuagens faciais eram um obstáculo na hora de tentar arranjar emprego. Ao mesmo tempo, à medida que a ligação entre ambos se prolongava, ele queixava-se de ela se preocupar mais com os seus filhos do que com a sua relação: "Porque é que eu não posso ser, por uma vez, o mais importante?", perguntava Shane.

 

Certa noite, saíram juntos sem os filhos. Foram a um bar de karoke local, em Lancaster, Ohio. Sara Naomi Lewkowicz foi com eles.

 

A noite acabou mal. Maggie foi-se embora após ter acusado Shane de estar a tentar seduzir outra mulher. Um amigo do casal, em cuja casa ambos estavam a viver durante aquela semana, conduziu-a de volta a casa. Quando Shane regressou, estava completamente fora de si, acusando Maggie de o "ter abandonado".

 

Foi na sequência dessa discussão que Sara Naomi Lewkowicz tirou as fotos que lhe valeram o World Press Photo.

 

Kayden encontrava-se a dormir durante a agressão, mas a pequena Memphis correu para junto da mãe e recusou-se a sair do seu lado. "Por favor, Shane, deixa-ma tirá-la daqui", pediu Maggie. "Ela não devia estar a ver isto." Sara Naomi Lewkowicz publicou o seu trabalho pela primeira vez aqui, no final de 2012, e as críticas não se fizeram esperar. Como é que ela podia ter assistido àquilo sem reagir?, porque é que não largou a máquina fotográfica e os foi tentar afastar?, ou pelo menos tirar a criança dali? Há sobre isso um magnífico texto na Salon, onde se explica que Sara Naomi Lewkowicz foi mais corajosa do que se poderia pensar à primeira vista e coube-lhe a ela telefonar para o 911. Além disso, estavam presentes mais dois adultos, amigos do casal, que retiraram rapidamente a criança dali. Mais perturbador ainda: o texto levanta a hipótese de aquela ser, na cabeça de Shane, uma violência tolerável para se ter diante de amigos e de uma fotógrafa estranha. Na verdade, ele queria ir a sós com Maggie para a cave da casa. Mas ela recusou. Pouco depois, apareceu a polícia.

 

Maggie chorou e disse que não queria causar problemas a Shane. A polícia respondeu: "Ele não vai parar. Eles nunca param. Habitualmente, só param quando te matam."

 

Quando era levado pela polícia, Shane implorou: "Por favor, Maggie, não os deixes prenderem-me, eu amo-te, diz-lhes que eu não fiz isso." 

 

Maggie resistiu e apresentou queixa contra Shane, que agora enfrenta uma pena que pode ir de cinco a 17 anos de prisão, por violência doméstica e violação da sua liberdade condicional.

 

Enquanto Kayden dormia, a única preocupação de Memphis parecia ser a sua mãe: "Não chores, mamã, eu adoro-te."

 

Maggie decidiu afastar-se definitivamente de Shane e regressar ao Alaska, onde vive o pai dos seus dois filhos.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 12:18


52 comentários

Sem imagem de perfil

De Storyteller a 17.02.2014 às 15:52

Muito obrigada pela partilha. Tudo o que chame a atenção para a violência doméstica nunca será suficiente, mas ajuda muito.
Sem imagem de perfil

De gina a 17.02.2014 às 15:47

Eu fui aquela criança no meio durante tantos anos....
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 17.02.2014 às 16:10

:( um abraço, sentido!
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 17.02.2014 às 15:35

Infelizmente é tão real e tão verdadeiro...
Há mais pessoas a sofrer na pele do que podemos sequer imaginar. Medo, perconceito, insegurança, falta de dinheiro, são apenas algumas das razões para a violencia doméstica se arrastar anos e anos a fio sem que a mulher (ou homem) faça uma queixa.
E depois da queixa? Depois é mais uma violência, pois geralmente estes actos ocorrem dentro de casa e sem fotografos! A nossa policia não é como a americana. A nossa vai ao local e regista a queixa e pronto (a não ser que apanhe alguém em flagrante). E depois enquanto o processo corre, quem protege a vitima?
Sim, eu sei que há meios de defender a vitima, mas com que consequencias? A saída de casa, muitas vezes do emprego... para ir para uma instituição...
Afinal quem é que devia ser privado da liberdade? Parece-me que é a vitima, nestes casos....
Enfim... é muito complicado....
Sem imagem de perfil

De Maria C. a 17.02.2014 às 13:51

A Maggie teve a coragem e a oportunidade de se afastar ( mas será que dentro em breve não irá surgir outro "Shane" na sua vida?... talvez seja preconceito meu, mas não me parece muito responsável ir viver com um sujeito que acabou de sair da cadeia, com um cadastro de respeito, como parece ser o caso, com 2 crianças tão pequenas... mas enfim, a sociedade americana é muito diferente...). No entanto, infelizmente, quantas mulheres - pelas mais diferentes razões! - acabam por ter que aguentar porque não vêm saída, por ir perdoando porque acreditam que aquela foi a ultima vez...
Sem imagem de perfil

De David Cabanas a 17.02.2014 às 13:14

Obrigado pela pesquisa...estas histórias são perturbadoras...crianças que vão crescendo nestes ambientes como poderão ser no futuro? Receio que a história não acabe por aqui...
Sem imagem de perfil

De Cipreste a 17.02.2014 às 12:37

bru-tal
Sem imagem de perfil

De Caco a 17.02.2014 às 12:25

Este post é um verdadeiro murro no estomâgo. Parabéns pela pesquisa e por nos dar a conhecer esta história que tem tanto de triste como de avassaladora.
Sem imagem de perfil

De Olívia a 17.02.2014 às 12:17

Isto é deveras perturbador... e acontece com mais frequência do que seria esperado, só o facto de existir esta violência contra a mulher dentro de casa já é mau, quanto mais existir a violência contra crianças que não têm capacidade de entender nem de se defender... fiquei mesmo muito perturbada por ver as imagens, porque uma coisa é saber que isto é uma realidade, mas outra coisa é vermos acontecer.
(agora vou continuar a pensar nisto...)

Comentar post


Pág. 3/3




Os livros do pai


Onde o pai fala de assuntos sérios



Arquivo

  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2017
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2016
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2015
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2014
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2013
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2012
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D